SEGUNDO DIÁLOGO. – O CÉTICO
O Visitante. – Eu compreendo, senhor, a utilidade do estudo preliminar do qual acabais de falar. Como predisposição pessoal, eu não sou nem pró nem contra o Espiritismo, mas o assunto, por si mesmo, desperta meu interesse no mais alto grau. No círculo dos meus conhecidos se encontram partidários, mas também adversários; ouvi a esse respeito argumentos muito contraditórios; eu me proporia submeter-vos algumas das objeções que foram feitas em minha presença, e que me parecem ter um certo valor, para mim pelo menos, que confesso minha ignorância.
Allan Kardec. – Será um prazer, senhor, responder às questões que me são endereçadas, quando feitas com sinceridade e sem segundas intenções, sem vangloriar-me, no entanto, de poder resolvê-las todas. O Espiritismo é uma ciência que acaba de nascer e na qual ainda há muito a aprender; seria, então, muito presunçoso de minha parte pretender eliminar todas as dificuldades: eu só posso dizer aquilo que sei.
O Espiritismo toca todos os ramos da filosofia, da metafísica, da psicologia e da moral. É um campo imenso que não pode ser percorrido em algumas horas. Ora, compreendeis, senhor, que me seria materialmente impossível repetir de viva voz, e a cada um em particular, tudo o que escrevi sobre esse assunto para uso de todos. Aliás, em uma séria leitura prévia encontrar-se-á a resposta à maioria das perguntas que vêm naturalmente ao pensamento; ela tem a dupla vantagem de evitar repetições inúteis e provar que se tem um desejo sério de se instruir. Se, depois disso, ainda restarem dúvidas ou pontos obscuros, a explicação torna-se mais fácil, porque se apoia sobre alguma coisa e não se perde tempo em retornar aos princípios mais elementares. Então, se o permitirdes, nos limitaremos, até nova ordem, a algumas questões gerais.
O Visitante. – Que seja. Queirais, eu vos peço, chamar-me à ordem se delas eu me afastar.
ESPIRITISMO E ESPIRITUALISMO
Eu vos perguntarei, inicialmente, que necessidade havia de criar as novas palavras espírita e espiritismo, para substituir espiritualista, espiritualismo que estão na língua popular e compreendidas por todos. Já ouvi alguém tratar essas palavras de barbarismos.
A. K. – A palavra espiritualista tem, há muito tempo, uma acepção bem determinada; é a Academia que no-la dá: ESPIRITUALISTA, aquele ou aquela cuja doutrina é oposta ao materialismo. Todas as religiões são necessariamente fundadas sobre o espiritualismo. Quem quer que creia que em nós existe outra coisa além da matéria é espiritualista, o que não implica a crença nos Espíritos e nas suas manifestações. Como o distinguireis daquele que tem essa crença? Seria preciso então empregar uma perífrase e dizer: É um espiritualista que crê, ou não crê, nos Espíritos. Para as coisas novas é preciso palavras novas, se quisermos evitar os equívocos. Se eu tivesse dado à minha Revista a qualificação de Espiritualista, não lhe teria, de forma alguma, especificado o objeto, porque, sem contradizer-lhe o título, poderia não dizer uma palavra sobre os Espíritos e até mesmo combatê-los. Eu li em um jornal, há algum tempo, a propósito de uma obra de filosofia, um artigo no qual se dizia que o autor a teria escrito a partir do ponto de vista espiritualista; ora, os partidários dos Espíritos ficariam singularmente desapontados se, confiantes nessa indicação, esperassem encontrar nela a menor concordância com as suas ideias. Se, pois, adotei as palavras espírita, espiritismo, é porque elas exprimem, sem equívoco, as ideias relativas aos Espíritos. Todo espírita é necessariamente espiritualista, mas nem todos os espiritualistas são espíritas. Mesmo que os Espíritos fossem uma quimera, seria ainda útil existirem termos especiais para o que lhes concerne, pois são necessárias palavras para as ideias falsas como para as verdadeiras.
Ademais, essas palavras não são mais bárbaras do que todas as que as ciências, as artes e a indústria criam diariamente; elas não o são, certamente, mais do que aquelas que Gall imaginou para a sua nomenclatura das faculdades, tais como: secretividade, amatividade, combatividade, alimentividade, afetividade, etc. Há pessoas que, por espírito de contradição, criticam tudo que não vêm delas, tomando ares de oposição; aqueles que levantam questões tão medíocres não provam senão uma coisa: a pequenez de suas ideias. Apegar-se a semelhantes bagatelas é demonstrar que se é carente de bons argumentos.
Espiritualismo, espiritualista, são palavras de origem inglesa empregadas nos Estados Unidos desde o início das manifestações; delas se serviu por algum tempo na França; mas, desde que apareceram as palavras espírita e espiritismo, compreendeu-se tão bem sua utilidade que elas foram imediatamente aceitas pelo público. Hoje, seu uso é tão consagrado que os próprios adversários, aqueles que de início os entendiam como barbarismo, não empregam outros. Os sermões e as pastorais que lançam anátema contra o Espiritismo e os espíritas não poderiam fazê-lo ao espiritualismo e aos espiritualistas sem causar confusão nas ideias.
Bárbaras ou não, doravante essas palavras estão na linguagem usual e em todas as línguas da Europa; elas são as únicas empregadas em todas as publicações, favoráveis ou contrárias, feitas em todos os países. Elas formaram o topo da coluna da nomenclatura da nova ciência; para exprimir os fenômenos especiais dessa ciência, era preciso termos especiais; o Espiritismo, doravante, tem a sua nomenclatura, tal como a Química tem a sua.
DISSIDÊNCIAS
O Visitante. – Essa diversidade na crença do que chamais uma ciência é, parece-me, sua condenação. Se essa ciência repousasse sobre fatos positivos, não deveria ser a mesma na América como na Europa?
A. K. – A isso responderei, inicialmente, que essa divergência é mais na forma do que no fundo; em realidade, ela consiste na maneira de encarar alguns pontos da doutrina, mas não constitui um antagonismo radical nos princípios, como pretendem afirmar os nossos adversários sem terem estudado a questão.
Mas, dizei-me, qual é a ciência que, em seu começo, não ocasionou dissidências até que seus princípios estivessem claramente estabelecidos? Tais dissidências não existem ainda hoje nas ciências mais bem constituídas? Todos os cientistas estão de acordo sobre o mesmo ponto? Não têm eles seus sistemas particulares? As sessões do Instituto apresentam sempre o quadro de um perfeito entendimento cordial? Em medicina não há a Escola de Paris e a de Montpellier? Cada descoberta em uma ciência não é a ocasião de um cisma entre aqueles que querem avançar e os que querem ficar para trás?
No que concerne ao Espiritismo, não é natural que, ao aparecerem os primeiros fenômenos, enquanto se ignorava as leis que os regem, cada um tenha produzido o seu sistema e os tenha encarado à sua maneira? O que aconteceu com todos esses sistemas primitivos isolados? Eles caíram ante uma observação mais completa dos fatos. Alguns anos foram suficientes para estabelecer a unidade grandiosa que hoje prevalece na doutrina e que reúne a imensa maioria dos adeptos, exceto algumas individualidades que, aqui como em todas as coisas, se agarram às ideias primitivas e morrem com elas. Qual a ciência, qual a doutrina filosófica ou religiosa que oferece semelhante exemplo? Teria o Espiritismo apresentado a centésima parte das divisões que dilaceraram a Igreja durante vários séculos e que a dividem ainda hoje?
É realmente curioso ver as puerilidades a que se apegam os adversários do Espiritismo; isso não indica a escassez de razões sérias? Se eles as tivessem, não deixariam de fazê-las valer. Que eles lhe opõem? Zombarias, negações, calúnias; mas, argumentos peremptórios, nenhum; e a prova de que ainda não se encontrou nele nenhum lado vulnerável é que nada deteve a sua marcha ascendente e que, após dez anos, ele conta com mais adeptos do que jamais contou qualquer seita após um século. Este é um fato obtido pela experiência e reconhecido até mesmo por seus adversários. Para aniquilá-lo, não bastaria dizer: não é assim, isso é um absurdo; seria preciso provar categoricamente que os fenômenos não existem e não podem existir; e isso é o que ninguém fez.
FENÔMENOS ESPÍRITAS SIMULADOS
O Visitante. – Não se provou que fora do Espiritismo pode-se produzir esses mesmos fenômenos? Daí pode-se concluir que eles não têm a origem que lhe atribuem os espíritas.
A. K. – Do fato de se poder imitar uma coisa, não se segue que a coisa não exista. Que diríeis da lógica daquele que pretendesse que, porque se faz vinho de Champagne com água de Seltz, todo o vinho de Champagne é de água de Seltz? É privilégio de todas as coisas que têm repercussão engendrar falsificações. Os prestidigitadores pensaram que o nome espiritismo, devido à sua popularidade e às controvérsias das quais era objeto, poderia ser bom para explorar, e, para atrair a multidão, eles simularam, mais ou menos grosseiramente, alguns fenômenos de medianimidade, como recentemente simularam a clarividência sonambúlica, e todos os zombadores, aplaudindo, exclamaram: eis o que é o Espiritismo! Quando a engenhosa produção dos espectros apareceu em cena, não proclamaram em toda parte que era o seu golpe de misericórdia? Antes de pronunciarem uma sentença tão positiva, deveriam ter refletido que as assertivas de um escamoteador não são palavras do Evangelho, e ter se assegurado se haveria identidade real entre a imitação e a coisa imitada. Não há ninguém que compre um diamante antes de se certificar de que não é strass. Um estudo um pouco sério os teria convencido de que os fenômenos espíritas se apresentam em condições completamente diferentes; eles saberiam, além disso, que os espíritas não se ocupam em fazer aparecer espectros ou em ler a sorte.
Somente a malevolência e uma significativa má fé puderam comparar o Espiritismo à magia e à feitiçaria, já que ele repudia o objetivo, as práticas, as fórmulas e as palavras místicas. Há mesmo quem não tema comparar as reuniões espíritas às assembleias do sabbat, onde se espera a hora fatal da meia-noite para fazer aparecer os fantasmas.
Um de meus amigos, espírita, encontrava-se um dia em uma representação de Macbeth, ao lado de um jornalista que não conhecia. Quando começou a cena das feiticeiras, ele ouviu este último dizer ao seu vizinho: “Veja! vamos assistir a uma sessão de Espiritismo; é justamente isso o que preciso para meu próximo artigo; vou saber como as coisas se passam. Se houvesse aqui um desses loucos, eu lhe perguntaria se se reconhece nesse quadro.” – “Eu sou um desses loucos, disse-lhe o espírita, e posso vos certificar que, absolutamente, aí não me reconheço, pois, embora já tenha assistido a centenas de reuniões espíritas, jamais vi nelas nada semelhante. Se é aqui onde vindes recolher informações para vosso artigo, ele não se destacará pela verdade.”
Muitos críticos não têm base mais séria. Sobre quem cai o ridículo, senão sobre aqueles que avançam tão levianamente? Quanto ao Espiritismo, seu crédito, longe de sofrer com isso, tem crescido pela repercussão que todas essas manobras lhe deram, chamando a atenção de uma multidão de pessoas que dele não tinham ouvido falar; elas provocaram o exame e aumentaram o número de adeptos, porque se reconheceu que ao invés de uma brincadeira, trata-se de uma coisa séria.
IMPOTÊNCIA DOS DETRATORES
O Visitante. – Concordo que entre os detratores do Espiritismo há pessoas inconsequentes como esta de que acabais de falar; mas, ao lado dessas, não há homens de um valor real e cuja opinião tem um certo peso?
A. K. – Não o contesto de modo algum. A isso respondo que o Espiritismo conta também em suas fileiras um bom número de homens de valor não menos real; digo-vos mais, é que a imensa maioria dos espíritas se compõe de homens inteligentes e de estudo; só a má-fé pode dizer que seus adeptos são recrutados entre as rezadeiras e os ignorantes.
Aliás, um fato peremptório responde a essa objeção: é que, mesmo com seu saber ou sua posição oficial, nenhum conseguiu deter a marcha do Espiritismo; e, entretanto, não há um sequer, entre os que desejam detê-lo, desde o mais minúsculo folhetinista, que não se tenha vangloriado de dar-lhe o golpe mortal; todos, sem exceção, ajudaram, sem o querer, a vulgarizá-lo. Uma ideia que resiste a tantos esforços, que avança sem vacilar diante da saraivada de dardos que lhe lançam, não prova sua força e a profundidade de suas raízes? Esse fenômeno não merece a atenção dos pensadores sérios? Hoje em dia, mais de um diz a si mesmo que deve haver aí alguma coisa, talvez um desses grandes movimentos irresistíveis que, de tempos em tempos, revolvem as sociedades para transformá-las.
Assim tem sido sempre com todas as ideias novas chamadas a revolucionar o mundo; elas encontram forçosamente obstáculos, porque têm que lutar contra os interesses, os preconceitos, os abusos que elas vêm derrubar; mas como estão nos desígnios de Deus para cumprir a lei do progresso da Humanidade, quando a hora é chegada nada poderia detê-las; é a prova de que elas são a expressão da verdade.
A impotência dos adversários do Espiritismo prova, inicialmente, como dissemos, a ausência de boas razões; pois aquelas que lhe opõem não convencem; mas ela se liga a uma outra causa que frustra todas as suas combinações. Espantam-se de ver o seu crescimento; nenhum encontra a causa disso, porque procuram onde ela não está. Uns a veem no grande poder do diabo, que se mostraria assim mais forte que eles, e mesmo que Deus; outros, no aumento da loucura humana. O erro de todos é crer que a fonte do Espiritismo é única e repousa sobre a opinião de um homem; daí a ideia de que arruinando a opinião desse homem, arruinarão o Espiritismo; eles procuram essa fonte na Terra, enquanto ela está no espaço; ela não está sobre um ponto, mas por toda parte, porque os Espíritos se manifestam em toda a parte, em todos os países, no palácio como na choupana. A verdadeira causa está, pois, na própria natureza do Espiritismo que não recebe sua impulsão de um só, mas permite a cada um receber diretamente comunicações dos Espíritos e com isso assegurar-se da realidade dos fatos. Como persuadir a milhões de indivíduos de que tudo isso não passa de astúcia, de charlatanismo, de escamoteação, truques de destreza, quando são eles mesmos que obtêm esses resultados sem o concurso de ninguém? Devemos fazê-los crer que são seus próprios cúmplices, que fazem charlatanismo ou escamoteação para si mesmos?
Essa universalidade das manifestações dos Espíritos que vêm, a todos os pontos do globo, dar um desmentido aos detratores e confirmar os princípios da doutrina, é uma força que não podem compreender aqueles que não conhecem o mundo invisível, assim como aqueles que não conhecem a lei da eletricidade não podem compreender a rapidez da transmissão de um despacho telegráfico; é contra essa força que vêm se quebrar todas as denegações, pois é como se se dissesse às pessoas que recebem os raios de sol, que o Sol não existe.
Abstração feita das qualidades da doutrina que agradam mais do aquelas que se lhe opõem, está aí a causa dos fracassos daqueles que tentam deter-lhe a marcha; para que triunfassem, seria preciso encontrar o meio de impedir os Espíritos de se manifestarem. Eis porquê os espíritas pouco se preocupam com suas manobras; eles têm a seu favor a experiência e a autoridade dos fatos.
O MARAVILHOSO E O SOBRENATURAL
O Visitante. – O Espiritismo tende, evidentemente, a fazer ressuscitar as crenças fundadas sobre o maravilhoso e o sobrenatural; ora, em nosso século positivo, isso me parece difícil, pois é dar crédito às superstições, aos erros populares que a razão desaprova.
A. K. – Uma ideia é supersticiosa apenas porque é falsa; ela deixa de sê-lo quando é reconhecida como verdadeira. A questão é, pois, saber se há, ou não, manifestações de Espíritos; ora, não podeis taxar a coisa de superstição enquanto não houverdes provado que ela não existe. Direis: minha razão as recusa; mas todos aqueles que nelas creem, e que não são tolos, também invocam sua razão, e principalmente os fatos; qual das duas razões deve prevalecer? O grande juiz aqui é o futuro, como o foi em todas as questões científicas e industriais taxadas de absurdas e impossíveis em sua origem. Julgais a priori, de acordo com a vossa opinião, nós não julgamos senão após termos visto e observado durante muito tempo. Acrescentamos que o Espiritismo esclarecido, como o é hoje, tende, ao contrário, a destruir as ideias supersticiosas porque mostra o que há de verdadeiro ou de falso nas crenças populares, e tudo o que a ignorância e os preconceitos nelas introduziram de absurdo.
Vou mais longe e digo que é precisamente o positivismo do nosso século que faz com que se adote o Espiritismo, e é a ele que, em parte, deve a sua rápida propagação e não, como o pretendem alguns, a uma recrudescência do amor ao maravilhoso e ao sobrenatural. O sobrenatural desaparece diante do facho da ciência, da filosofia e da razão, como os deuses do paganismo desapareceram diante da luz do cristianismo.
Sobrenatural é o que está fora das leis da natureza. O positivismo nada admite fora dessas leis; mas ele as conhece todas? Em todos os tempos, os fenômenos cuja causa era desconhecida foram reputados sobrenaturais; cada nova lei descoberta pela ciência recuou os limites do sobrenatural; pois bem, o Espiritismo vem revelar uma nova lei, segundo a qual a conversação com o Espírito de um morto repousa sobre uma lei tão natural quanto aquela que a eletricidade permite estabelecer entre dois indivíduos que se encontram a quinhentas léguas de distância; assim é com todos os outros fenômenos espíritas. O Espiritismo repudia, no que lhe concerne, todo efeito maravilhoso, isto é, fora das leis naturais; ele não faz nem milagres, nem prodígios, mas explica, em virtude de uma lei, certos efeitos reputados até hoje como milagres e prodígios, e com isso demonstra sua possibilidade. Ele amplia assim o domínio da ciência e, por isso mesmo, é ele próprio uma ciência; ademais, a descoberta dessa nova lei, conduzindo a consequências morais, o código de tais consequências faz dele, ao mesmo tempo, uma doutrina filosófica.
Sob este último ponto de vista, ele responde às aspirações do homem no que toca ao futuro; como ele apoia sua teoria sobre bases positivas e racionais, ele convém, por isso mesmo, ao espírito positivo do século; é o que compreendereis quando vos derdes ao trabalho de estudá-lo. (O Livro dos Médiuns, cap. II; Revista Espírita, dezembro de 1861, p. 393, e janeiro de 1862, p. 21. Ver também, mais adiante, o capítulo II).
OPOSIÇÃO DA CIÊNCIA
O Visitante. – Dissestes que vos apoiais em fatos; mas nós opomos-vos a opinião dos doutos que os contestam, ou que os explicam de modo diverso do vosso. Por que eles não se dedicaram ao fenômeno das mesas girantes? Se nisso tivessem visto alguma coisa séria, não teriam o cuidado, parece-me, de negligenciar fatos tão extraordinários e nem os repelir com desdém; no entanto, eles são todos contra vós. Os doutos não são os faróis das nações, e o dever deles não é espalhar a luz? Por que quereríeis que a tivessem abafado, quando se lhes apresentava tão bela ocasião de revelar ao mundo uma nova força?
A. K. – Acabais de traçar o dever dos doutos de maneira admirável; é lamentável que o tenham esquecido em mais de uma circunstância. Mas antes de responder a esta judiciosa observação, devo assinalar-vos um erro grave que haveis cometido, dizendo que todos os doutos estão contra nós.
Como disse há pouco, é precisamente na classe esclarecida que o Espiritismo faz mais prosélitos, e isso acontece em todos os países do mundo: eles se contam, em grande número, entre os médicos de todas as nações; ora, os médicos são homens de ciência. Os magistrados, os professores, os artistas, os homens de letras, os oficiais, os altos funcionários, os grandes dignitários, os eclesiásticos, etc., que se colocam sob sua bandeira, todos são pessoas às quais não se pode recusar uma certa dose de luz. Não há doutos senão na ciência oficial e nos órgãos constituídos?
Pelo fato de o Espiritismo não ter ainda adquirido direito de cidade na ciência oficial, é motivo para condená-lo? Se a ciência jamais houvesse se enganado, sua opinião teria grande peso na balança; infelizmente, a experiência prova o contrário. Ela não rejeitou como quimeras um conjunto de descobertas que, mais tarde, ilustraram a memória de seus autores? Não foi devido a um parecer do nosso primeiro corpo de cientistas que a França deve ter sido privada da iniciativa do vapor? Quando Fulton veio ao campo de Boulogne apresentar seu sistema a Napoleão I, que recomendou o seu exame imediato ao Instituto, este não concluiu que aquele sistema era um devaneio impraticável e que não havia motivo para com ele se ocupar? Precisa concluir-se com isso que os membros do Instituto são ignorantes?
Isso justifica os epítetos triviais, e de mau gosto, que certas pessoas se comprazem em lhes prodigalizar? Certamente não; não há pessoa sensata que não faça justiça ao seu eminente saber, reconhecendo que eles não são infalíveis, e que assim seu julgamento não constitui a última instância, principalmente quando se trata de ideias novas.
O Visitante. – Admito perfeitamente que eles não são infalíveis; mas não é menos verdade que, em razão do seu saber, sua opinião vale alguma coisa, e que, se eles vos fossem favoráveis, isso daria grande peso ao vosso sistema.
A. K. – Admitis também que ninguém é bom juiz senão no que é de sua competência. Se quiserdes construir uma casa, procurareis um musicista? Se estiverdes doente, buscareis para vos tratar um arquiteto? Se tiverdes um processo, buscareis a opinião de um dançarino? Enfim, se se trata de uma questão de teologia, a fareis resolver por um químico ou um astrônomo? Não; cada um em seu metiê. As ciências vulgares repousam sobre as propriedades da matéria, que se pode manipular à vontade; os fenômenos que ela produz têm por agentes as forças materiais. Os do Espiritismo têm por agentes inteligências que têm sua independência, seu livre-arbítrio e não estão submetidas aos nossos caprichos; eles escapam assim aos nossos procedimentos de laboratório e aos nossos cálculos e, desde então, não são mais da alçada da ciência propriamente dita.
A ciência extraviou-se quando quis experimentar os Espíritos como se faz com uma pilha voltaica; ela não teve êxito, e assim deveria ser, porque partiu de uma analogia que não existe; depois, sem ir mais longe, ela concluiu pela negativa: julgamento temerário que o tempo se encarrega de reformar todos os dias, como reformou muitos outros e, aqueles que o pronunciaram, ficarão envergonhados por terem agido de maneira tão leviana contra o poder infinito do Criador.
Os órgãos acadêmicos não têm e jamais terão que se pronunciar nessa questão; ela está fora de sua alçada assim como decretar se Deus existe; é um erro fazer deles juízes nesses casos. O Espiritismo é uma questão de crença pessoal que não pode depender do voto de uma assembleia, pois esse voto, mesmo que lhe seja favorável, não pode forçar as convicções. Quando a opinião pública estiver formada nesse sentido, eles a aceitarão como indivíduos e serão forçados a ceder à força das coisas. Deixai passar uma geração e, com ela, os preconceitos do amor-próprio que se obstina, e vereis que acontecerá com o Espiritismo o mesmo que aconteceu com tantas outras verdades que foram combatidas e que agora seria ridículo revocar em dúvida. Hoje, os crentes são chamados de loucos, amanhã será a vez daqueles que não creem; exatamente como outrora chamou-se de loucos àqueles que acreditavam que a Terra gira.
Mas nem todos os doutos julgaram da mesma maneira, e, por doutos, quero dizer os homens de estudo e ciência, com ou sem título oficial. Muitos fizeram o seguinte raciocínio:
“Não há efeito sem causa, e os efeitos mais vulgares podem levar ao caminho dos maiores problemas. Se Newton tivesse desprezado a queda de uma maçã; se Galvani houvesse repelido sua criada e a tratasse de louca e visionária quando ela lhe falou das rãs que dançavam no prato, talvez até hoje ignorássemos a admirável lei da gravitação universal e as fecundas propriedades da pilha elétrica. O fenômeno designado sob o nome burlesco de dança das mesas, não é mais ridículo do que a dança das rãs, e talvez encerre alguns desses segredos da natureza que fazem revolução na humanidade quando deles se tem a chave.”
Além disso, disseram a si mesmos:
“Uma vez que tantas pessoas deles se ocupam, e que homens sérios os estudaram, é preciso que haja aí alguma coisa; uma ilusão, uma fantasia, se quisermos, não pode ter caráter de generalidade; ela pode seduzir um círculo, um grupo, mas não dará a volta ao mundo. Então, evitemos negar a possibilidade do que não compreendemos sob pena de receber, cedo ou tarde, um desmentido que não fará o elogio da nossa perspicácia.”
O Visitante. – Muito bem! Eis aí um douto que raciocina com sabedoria e prudência; e, sem ser douto, eu penso como ele; porém, notai que ele nada afirma: ele duvida; ora, sobre o que basear a crença na existência dos Espíritos e, sobretudo, a possibilidade de comunicação com eles?
A. K. – Essa crença se apoia no raciocínio e nos fatos. Eu mesmo não a adotei senão depois de ponderado exame. Tendo adquirido, no estudo das ciências exatas, o hábito das coisas positivas, sondei, perscrutei essa ciência nova em seus recônditos mais profundos; busquei dar-me conta de tudo, pois só aceito uma ideia quando sei dela o porquê e o como. Eis o raciocínio que me fez um sábio médico, outrora incrédulo, e hoje adepto fervoroso:
“Dizem que seres invisíveis se comunicam; e por que não? Antes da invenção do microscópio, suspeitava-se da existência desses milhares de animálculos que causam tantos estragos à economia? Onde a impossibilidade material de haver no espaço seres que escapem aos nossos sentidos? Por acaso teremos a ridícula pretensão de tudo saber, e de dizer a Deus que ele nada mais pode nos ensinar? Se esses seres invisíveis que nos cercam são inteligentes, por que não se comunicariam conosco? Se eles estão em relação com os homens, devem desempenhar um papel no destino, nos acontecimentos. Quem sabe? Talvez seja uma das potências da Natureza; uma dessas forças ocultas que não supúnhamos existir. Que novo horizonte isso abriria ao pensamento! Que vasto campo de observação! A descoberta do mundo dos invisíveis seria bem diferente daquela dos infinitamente pequenos; isso seria mais que uma descoberta, seria uma revolução nas ideias. Quanta luz pode dela jorrar! Quantas coisas misteriosas explicadas! Aqueles que creem nisso são ridicularizados; mas o que isso prova? Não se deu o mesmo com todas as grandes descobertas? Cristóvão Colombo não foi rejeitado, coberto de desgostos e tratado como insensato? Essas ideias, disseram, são tão estranhas que nelas não se pode crer; mas, àquele que tivesse dito, há somente meio século, que em alguns minutos se poderia corresponder de um extremo ao outro do mundo; que se atravessaria a França em algumas horas; que um navio, com o vapor de um pouco de água fervente, navegaria contra o vento; que se tiraria da água os meios de iluminação e aquecimento; se alguém tivesse proposto iluminar toda Paris em um instante com um único reservatório de uma substância invisível, seria alvo de zombaria. Seria algo mais prodigioso estar o espaço povoado por seres pensantes que, depois de terem vivido na Terra, deixaram seu envoltório material? Não se encontra nesse fato a explicação de inúmeras crenças que remontam à mais alta antiguidade? Semelhantes coisas valem muito a pena serem aprofundadas.”
Eis as reflexões de um douto, mas de um douto sem pretensão, e que também são as de uma multidão de homens esclarecidos; eles viram, não superficialmente e com prevenção; estudaram seriamente e sem partido tomado; tiveram a modéstia de não dizer: Eu não compreendo, portanto, isso não existe; sua convicção formou-se pela observação e pelo raciocínio. Se essas ideias fossem quimeras, acreditais que todos esses homens de elite as teriam adotado? que pudessem ser vítimas de uma ilusão por tanto tempo?
Não há, pois, impossibilidade material para que existam seres invisíveis para nós e povoando o espaço, e essa só consideração deveria suscitar uma maior circunspecção. Outrora, quem poderia pensar que uma gota de água límpida pudesse encerrar milhares de seres de uma pequenez que confunde nossa imaginação? Ora, eu digo que era mais difícil à razão conceber seres de tal tenuidade, providos de todos os nossos órgãos e funcionando como nós, do que admitir aqueles que chamamos Espíritos.
O Visitante. – Sem dúvida; mas, porque uma coisa é possível, não se segue que ela exista.
A. K. – De acordo; mas convireis que, desde que ela não é impossível, já é um grande ponto, pois nada mais há que repugne à razão. Resta então constatá-la pela observação dos fatos. Essa observação não é nova: a história, tanto sagrada quanto profana, prova a antiguidade e a universalidade dessa crença, que se perpetuou ao longo de todas as vicissitudes do mundo, e se encontra nos povos mais selvagens em estado de ideias inatas e intuitivas, gravadas no pensamento como a do Ser supremo e a da existência futura. O Espiritismo não é, pois, uma criação moderna, longe disso: tudo prova que os Antigos o conheciam tão bem, e talvez melhor que nós; apenas era ensinado somente com precauções misteriosas que o tornavam inacessível ao vulgo, deliberadamente deixado no pântano da superstição.
Quanto aos fatos, eles são de duas naturezas: uns são espontâneos e outros são provocados. Entre os primeiros, é preciso incluir as visões e aparições, que são muito frequentes; os ruídos, desordem e perturbações de objetos sem causa material, e uma grande quantidade de efeitos insólitos considerados sobrenaturais e que hoje nos parecem muito simples, pois para nós nada há de sobrenatural, visto que tudo está sob as leis imutáveis da natureza. Os fatos provocados são os que se obtêm por intermédio dos médiuns.
FALSAS EXPLICAÇÕES DOS FENÔMENOS
Alucinação. – Fluido magnético. – Reflexo do pensamento. – Superexcitação
cerebral. – Estado sonambúlico dos médiuns.
O Visitante. – É contra os fenômenos provocados que a crítica mais se concentra. Deixemos de lado toda suposição de charlatanismo, e admitamos uma total boa-fé; não poderíamos pensar que os médiuns sejam vítimas de uma alucinação?
A. K. – Não é do meu conhecimento que já se tenha explicado claramente o mecanismo da alucinação. No entanto, tal como o entendemos, é um efeito muito singular e digno de estudo. Como então aqueles que pretendem, por tal efeito, dar conta dos fenômenos espíritas, não podem eles mesmos explicar a sua explicação? Além disso, há fatos que escapam a essa hipótese: quando a mesa ou outro objeto se move, se ergue, bate; quando ela passeia livremente por uma sala sem o contato de ninguém; quando se destaca do solo e fica suspensa no espaço, sem ponto de apoio; enfim, quando se quebra, ao cair, por certo isto não é uma alucinação. Supondo que o médium, por efeito de sua imaginação, creia ver o que não existe, será possível que toda uma sociedade seja tomada pela mesma vertigem? E quando isso se repete por toda parte, em todos os países? Nesse caso, a alucinação seria bem mais prodigiosa que o fato.
O Visitante. – Admitindo a realidade do fenômeno das mesas girantes e batedoras, não será mais racional atribuí-lo à ação de um fluido qualquer, do fluido magnético, por exemplo?
A. K. – Tal foi o primeiro pensamento que tive, como tantos outros o tiveram. Se os efeitos fossem limitados a efeitos materiais, sem dúvida que se poderia explicá-los assim; mas quando esses movimentos e golpes deram provas de inteligência; quando reconhecemos que eles respondiam ao pensamento com inteira liberdade, tiramos a seguinte conclusão: se todo efeito tem uma causa, todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. Seria esse o efeito de um fluido, sem que se diga que tal fluido é inteligente? Quando vedes os braços do telégrafo fazer sinais que transmitem o pensamento, sabeis bem que não são esses braços de madeira ou de ferro que são inteligentes, mas dizeis que uma inteligência os movimenta. Ocorre o mesmo com a mesa. Dão-se ou não efeitos inteligentes? Eis a questão. Aqueles que o contestam são pessoas que não puderam ver tudo e se apressam em concluir segundo suas próprias ideias e com base em uma observação superficial.
O Visitante. – A isso respondemos que, se há um efeito inteligente, trata-se apenas da própria inteligência, seja do médium, seja do interrogador, seja dos assistentes; porque, como se diz, a resposta está sempre no pensamento de alguém.
A. K. – É ainda um erro, consequente da falta de observação. Se aqueles que assim pensam tivessem se dado ao trabalho de estudar o fenômeno em todas as suas fases, teriam a cada passo reconhecido a independência absoluta da inteligência que se manifesta. Como se poderia conciliar essa tese com respostas que estão fora do alcance intelectual e da instrução do médium? que contradizem suas ideias, seus desejos, suas opiniões, ou que frustram completamente as previsões dos assistentes? de médiuns que escrevem em uma língua que não conhecem, ou em sua própria língua quando não sabem ler nem escrever? À primeira vista, essa opinião nada tem de irracional, eu concordo, mas ela é desmentida por fatos tão numerosos e de tal maneira concludentes que a dúvida não é mais possível.
Além disso, mesmo admitindo essa teoria, o fenômeno, longe de ser simplificado, seria muito mais prodigioso. O quê! O pensamento se refletiria sobre uma superfície como a luz, o som, o calórico? Em verdade, havia aí uma razão para se exercer a sagacidade da ciência. Depois, o que seria ainda mais maravilhoso, é que, de vinte pessoas reunidas, seria precisamente o pensamento de tal ou tal pessoa que seria refletido, e não o de tal outra. Um semelhante sistema é insustentável. É verdadeiramente curioso ver os contraditores se esforçarem na busca de causas cem vezes mais extraordinárias e difíceis de compreender do que aquelas que lhes damos.
O Visitante. – Não se poderia admitir, segundo a opinião de alguns, que o médium esteja em um estado de crise e goze de uma lucidez que lhe dá uma percepção sonambúlica, uma espécie de dupla vista, o que explicaria a extensão momentânea de suas faculdades intelectuais? Pois, dizem, as comunicações obtidas pelos médiuns não ultrapassam o alcance daquelas que se obtém pelos sonâmbulos.
A. K. – Eis aí ainda um desses sistemas que não suportam um exame aprofundado. O médium não está em crise, nem dorme, mas está perfeitamente acordado, agindo e pensando como todo o mundo, sem nada ter de extraordinário. Certos efeitos particulares puderam dar lugar a esse mal-entendido, mas, quem não se limitar a julgar as coisas por um só ângulo, reconhecerá sem dificuldade que o médium é dotado de uma faculdade particular que não permite confundi-lo com o sonâmbulo, sendo a completa independência de seu pensamento demonstrada por fatos da maior evidência. Abstração feita das comunicações escritas, qual foi o sonâmbulo que fez brotar um pensamento de um corpo inerte? Que produziu aparições visíveis e mesmo tangíveis? Que manteve um corpo pesado no espaço sem ponto de apoio? Foi por um efeito sonambúlico que um dia, em minha casa, na presença de vinte testemunhas, um médium desenhou o retrato de uma jovem, morta há dezoito meses, que ele jamais conhecera, retrato esse reconhecido pelo pai presente à sessão? É por efeito sonambúlico que uma mesa responde com precisão às questões propostas, mesmo a questões feitas mentalmente? Seguramente, se se admite que o médium esteja em um estado magnético, parece-me difícil acreditar que a mesa seja sonâmbula.
Diz-se, ainda, que os médiuns não falam claramente senão de coisas conhecidas. Como explicar o fato seguinte e cem outros do mesmo gênero? Um de meus amigos, excelente médium escrevente, perguntou a um Espírito se uma pessoa, que ele havia perdido de vista há quinze anos, estava ainda neste mundo. Respondeu o Espírito: “Sim, ela ainda vive; mora em Paris, tal rua, tal número.” Ele vai e encontra a pessoa no endereço indicado. Seria isso uma ilusão? Seu pensamento nem sequer lhe poderia sugerir tal resposta, pois, em razão da idade da pessoa, era muito provável que ela não estivesse mais viva. Se, em certos casos, viram-se respostas concordarem com o pensamento, é racional concluir daí que se trata de uma lei geral? Nisso, como em todas as coisas, os julgamentos precipitados são sempre perigosos, porque podem ser refutados pelos fatos que não foram observados.
OS INCRÉDULOS NÃO PODEM VER PARA SE CONVENCEREM
O Visitante. – São os fatos positivos que os incrédulos gostariam de ver, que eles pedem, mas na maioria das vezes não se pode lhes fornecer. Se todo mundo pudesse testemunhar esses fatos, a dúvida não seria mais permitida. Como se dá, então, que tanta gente nada tenha podido ver, mesmo tento boa vontade? O que se lhes opõe, dizem eles, é sua falta de fé; a isso eles respondem, com razão, que não podem ter uma fé antecipada e que, se se quer que eles creiam, é preciso dar-lhes os meios de crer.
A. K. – A razão disso é bem simples: eles querem os fatos sob seu comando, mas os Espíritos não obedecem ordens; é preciso aguardar que queiram produzi-los. Não basta pois dizer: Mostre-me tal fato e eu acreditarei; é preciso ter a vontade de perseverar, deixar os fatos se produzirem espontaneamente, sem pretender forçá-los ou dirigi-los; aquele que desejais, talvez seja precisamente o que não obtereis; mas se apresentarão outros, e aquele que quereis virá no momento em que menos esperais.
Aos olhos do observador atento e assíduo, os fatos surgem em quantidade e se corroboram uns aos outros; mas aquele que crê que basta girar uma manivela para fazer a máquina funcionar, se engana redondamente. O que faz o naturalista que deseja estudar os hábitos de um animal? Ordenará que ele faça tal ou tal coisa, para poder observá-lo pelo tempo que quiser, como quiser? Não, porque bem sabe que não será obedecido; ele espreita as manifestações espontâneas de seu instinto; ele as aguarda e as toma na passagem. O simples bom-senso mostra que, com mais forte razão, o mesmo deve dar-se com os Espíritos, que são inteligências bem mais independentes do que a dos animais.
É erro acreditar que a fé seja necessária; a boa-fé, porém, é outra coisa; ora, há céticos que negam até a evidência, e mesmo prodígios não poderiam os convencer. Quantos há entre eles que, depois de terem visto, ainda persistem em explicar os fatos à sua maneira, dizendo que o que viram nada prova! Tais pessoas não servem senão para levar perturbação às reuniões, sem proveito para elas mesmas; é por isso que delas são afastadas para não se perder tempo com elas. Há mesmo aquelas que ficariam muito contrariadas se fossem forçadas a crer, porque seu amor-próprio sofreria por admitir que se enganaram. O que responder a essas pessoas que em toda parte apenas veem ilusão e charlatanismo? Nada; é preciso deixá-las tranquilas e que digam, enquanto quiserem, que nada viram e mesmo que nada pudemos ou nada quisemos fazê-las ver.
Ao lado desses céticos endurecidos, há aqueles que querem ver à sua maneira; que, tendo formado uma opinião, querem tudo relacionar a ela: não compreendem que fenômenos não possam obedecer à sua vontade; não sabem, ou não querem colocar-se nas condições necessárias. Aquele que quer observar de boa-fé deve, não digo crer sob palavra, mas despojar-se de toda ideia preconcebida; não querer assimilar coisas incompatíveis; deve aguardar, seguir, observar com uma paciência infatigável; esta condição mesma está a favor dos adeptos, pois prova que sua convicção não foi adquirida levianamente. Tendes essa paciência? Não, dizeis, eu não tenho tempo. Portanto, não vos ocupeis com isso e não faleis a respeito; ninguém vos obriga a isso.
BOA OU MÁ VONTADE DOS ESPÍRITOS PARA CONVENCER
O Visitante. – Os Espíritos, no entanto, devem ter intenção de fazer prosélitos; por que eles não se prestam mais do que o fazem aos meios de convencer certas pessoas, cuja opinião teria grande influência?
A. K. – É que, aparentemente, por ora eles não têm interesse em convencer certas pessoas a quem não dão a importância que elas dão a si mesmas. É pouco lisonjeiro, admito, mas nós não controlamos suas opiniões, pois os Espíritos têm uma maneira de julgar as coisas que nem sempre é a nossa; eles veem, pensam e agem segundo outros elementos; enquanto a nossa visão é circunscrita pela matéria, limitada pelo círculo estreito do meio em que nos encontramos, eles abarcam o conjunto; o tempo, que nos parece tão longo, para eles é um instante; a distância não é senão um passo; certos detalhes, que nos parecem de extrema importância, são pueris aos seus olhos; por outro lado, eles julgam importantes coisas cujo alcance não percebemos. Para compreendê-los, é preciso elevar-nos pelo pensamento acima do nosso horizonte material e moral e nos colocarmos em seu ponto de vista; não é a eles que cumpre descer até nós, mas a nós de subirmos até eles, é ao que nos conduzem o estudo e a observação.
Os Espíritos gostam dos observadores assíduos e conscienciosos; para estes, eles multiplicam as fontes de luz; o que os afasta não é a dúvida que nasce da ignorância, mas a presunção desses pretensos observadores que nada observam, que desejam colocá-los em exposição e manobrá-los como marionetes; é, sobretudo, o sentimento de hostilidade e de difamação que alberguem em seus pensamentos, mesmo que não esteja em suas palavras. Para esses, os Espíritos nada fazem e muito pouco se inquietam com o que podem dizer ou pensar, porque a vez deles chegará. Foi por isso que eu disse que não é a fé que é necessária, mas a boa-fé.
ORIGEM DAS IDEIAS ESPÍRITAS MODERNAS
O Visitante. – Uma coisa que eu gostaria de saber, senhor, é o ponto de partida das ideias espíritas modernas; elas se baseiam em uma revelação espontânea dos Espíritos, ou são o resultado de uma crença prévia na existência deles? Compreendeis a importância da minha questão, pois neste último caso poderíamos crer que a imaginação não lhe é estranha.
A. K. – Esta questão, como dizeis, senhor, é importante do vosso ponto de vista, ainda que seja difícil de admitir, ao supor que essas ideias tenham nascido de uma crença antecipada, e que a imaginação pudesse produzir todos os resultados materiais observados. Com efeito, se o Espiritismo tivesse por base o pensamento preconcebido da existência dos Espíritos, poder-se-ia, com alguma aparência de razão, duvidar de sua realidade, pois se a causa é uma quimera, as consequências devem elas mesmas ser quiméricas. Mas as coisas não se passaram assim.
Inicialmente, notai que essa ordem seria totalmente ilógica; os Espíritos são uma causa e não um efeito; quando se vê um efeito, pode-se procurar a sua causa, mas não é natural imaginar uma causa antes de ter visto os efeitos. Não se poderia então conceber o pensamento dos Espíritos se não tivessem se apresentado efeitos que encontrassem sua provável explicação na existência de seres invisíveis. Pois bem! não foi dessa maneira que esse pensamento surgiu; ou seja, essa não foi uma hipótese imaginada para explicar certos fenômenos; a primeira suposição que fizemos foi a de uma causa inteiramente material. Assim, longe de os Espíritos terem sido uma ideia preconcebida, partimos do ponto de vista materialista. Sendo tal ponto de vista incapaz de tudo explicar, a observação por si só conduziu à causa espiritual. Falo das ideias espíritas modernas, pois sabemos que essa crença é tão velha quanto o mundo. Eis o curso das coisas.
Fenômenos espontâneos se produziram, tais como ruídos estranhos, pancadas, movimento de objetos, etc., sem causa evidente conhecida; esses fenômenos puderam ser reproduzidos sob a influência de certas pessoas. Até aí nada autorizava a procurar a causa alhures, que não na ação de um fluido magnético ou qualquer outro cujas propriedades eram ainda desconhecidas. Porém, não tardamos a reconhecer, nesses ruídos e movimentos, um caráter intencional e inteligente, de onde concluímos, como eu havia dito, que: se todo efeito tem uma causa, todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. Essa inteligência não poderia estar no próprio objeto, porque a matéria não é inteligente. Seria então o reflexo da inteligência da pessoa ou das pessoas presentes? Inicialmente foi o que pensamos, como também já o disse; somente a experiência podia pronunciar-se, e ela demonstrou, por provas irrecusáveis, em muitas circunstâncias, a completa independência dessa inteligência. Ela estava, pois, fora do objeto e fora da pessoa. Quem era ela? Foi ela mesma quem respondeu: declarou pertencer à ordem dos seres incorpóreos, designados sob o nome de Espíritos. Portanto, a ideia de Espíritos não preexistia; nem mesmo foi consecutiva; em uma palavra, ela não saiu de nenhum cérebro: foi dada pelos próprios Espíritos e tudo o que soubemos depois a respeito deles, foram eles que nos ensinaram.
Uma vez revelada a existência dos Espíritos e estabelecidos os meios de comunicação, pudemos ter conversas regulares e obter informações sobre a natureza desses seres, as condições de sua existência, seu papel no mundo visível. Se pudéssemos interrogar assim os seres do mundo dos infinitamente pequenos, quantas coisas curiosas não aprenderíamos sobre eles!
Suponhamos que, antes da descoberta da América, tenha existido um fio elétrico atravessando o Atlântico, e que na sua extremidade europeia tivessem sido notados sinais inteligentes; ter-se-ia concluído que na outra extremidade havia seres inteligentes buscando se comunicar; se questionados, eles teriam respondido. Teríamos assim a certeza de sua existência, o conhecimento de seus costumes, de seus hábitos, de sua maneira de ser, sem jamais tê-los visto. O mesmo aconteceu nas relações com o mundo invisível; as manifestações materiais foram como sinais, meios de advertências que nos colocaram na via de comunicações mais regulares e mais contínuas. E, coisa notável, à medida que meios mais fáceis de comunicação estão ao nosso alcance, os Espíritos abandonam os meios primitivos, insuficientes e incômodos, como o mudo que recobra a fala abre mão da linguagem dos sinais.
Quem eram os habitantes desse mundo? Eram seres à parte, fora da Humanidade? Eram bons ou maus? Foi ainda a experiência que se encarregou de resolver essas questões; mas, até que numerosas observações tivessem lançado luz sobre esse tema, o campo das conjeturas e dos sistemas estava aberto, e Deus sabe quantos surgiram! Uns acreditaram que os Espíritos eram superiores em tudo, outros só viam neles demônios; mas por suas palavras e seus atos é que se podia julgá-los. Suponhamos que entre os habitantes transatlânticos desconhecidos, dos quais falamos acima, uns tivessem dito coisas muito boas, enquanto outros se fizessem notar pelo cinismo de sua linguagem, concluir-se-ia que entre eles haveria bons e maus. Foi o que ocorreu com relação aos Espíritos; foi assim que entre eles reconhecemos todos os graus de bondade e de maldade, de ignorância e de saber. Uma vez bem instruídos sobre os defeitos e as qualidades que encontramos neles, cabia-nos a prudência em distinguir o bom e o mau, o verdadeiro e o falso em suas relações conosco, absolutamente como o fazemos a respeito dos homens.
A observação não apenas nos esclareceu sobre as qualidades morais dos Espíritos, mas também sobre sua natureza e sobre o que poderíamos chamar seu estado fisiológico. Soubemos, pelos próprios Espíritos, que uns são muito felizes e outros muito infelizes; que eles não são seres à parte, de uma natureza excepcional, mas que são as almas mesmas daqueles que viveram na Terra, onde deixaram seu envoltório corporal; que eles povoam os espaços, nos rodeiam e nos acotovelam sem cessar, e, entre eles, cada um pôde reconhecer, por meio de sinais incontestáveis, seus parentes, seus amigos e aqueles que conheceu aqui; pudemos segui-los em todas as fases de sua existência de além-túmulo, desde o instante em que deixaram seus corpos, e observar sua situação segundo seu gênero de morte e a maneira que viveram na Terra. Enfim, soubemos que eles não são seres abstratos, imateriais, no sentido absoluto da palavra; que têm um envoltório, ao qual damos o nome de perispírito, espécie de corpo fluídico, vaporoso, diáfano, invisível no estado normal, mas que, em certos casos e por uma espécie de condensação ou de disposição molecular, pode tornar-se momentaneamente visível e mesmo tangível; com isso, ficou explicado o fenômeno das aparições e da tangibilidade. Esse envoltório existe durante a vida do corpo: é o laço entre o Espírito e a matéria; com a morte do corpo, a alma ou Espírito, que é a mesma coisa, não se despoja senão do seu envoltório grosseiro, conservando o segundo, como quando nos despimos de uma vestimenta exterior, para conservar apenas a de baixo, como o germe de um fruto se despoja do envoltório cortical e conserva somente o perisperma. É esse envoltório semimaterial do Espírito que é o agente dos diferentes fenômenos, por meio dos quais ele manifesta sua presença.
Tal é, em poucas palavras, senhor, a história do Espiritismo; vedes, e o reconhecereis ainda melhor quando o tiverdes estudado a fundo, que nele tudo é resultado da observação e não de um sistema preconcebido.
MEIOS DE COMUNICAÇÃO
O Visitante. – Falastes dos meios de comunicação; poderíeis dar-me uma ideia disso, pois é difícil compreender como esses seres invisíveis podem conversar conosco?
A. K. – De bom grado; mas o farei brevemente, porque esse assunto exigiria um desenvolvimento muito longo, que encontrareis minuciosamente em O livro dos Médiuns. Porém, o pouco que vos direi será suficiente para vos colocar na via do mecanismo e servirá, sobretudo, para compreenderdes melhor algumas das experiências às quais podereis assistir enquanto aguarda vossa iniciação completa.
A existência desse envoltório semimaterial, ou perispírito, já é uma chave que explica muitas coisas e mostra a possibilidade de certos fenômenos. Quanto aos meios, eles são muito variados e dependem, seja da natureza mais ou menos depurada dos Espíritos, seja das disposições particulares às pessoas que lhes servem de intermediárias. O mais vulgar, aquele que se pode dizer universal, consiste na inspiração, quer dizer, nas ideias e nos pensamentos que eles nos sugerem; mas esse meio é pouco apreciável na generalidade dos casos; há outros mais materiais.
Certos Espíritos se comunicam por pancadas, respondendo sim ou não, ou designando as letras que devem formar as palavras. As pancadas podem ser obtidas pelo movimento basculante de um objeto, uma mesa, por exemplo, que bate o pé. Frequentemente, elas se fazem ouvir na própria substância dos corpos, sem que estes se movimentem. Esse modo primitivo é demorado e dificilmente se presta ao desenvolvimento de comunicações de certa extensão; foi substituído pela escrita, que é obtida de diferentes maneiras. No início, usava-se, e ainda se usa às vezes, um objeto móvel, como uma pequena prancheta, uma cesta ou uma caixa, à qual se adapta um lápis cuja ponta se coloca sobre o papel. A natureza e a substância do objeto são indiferentes. O médium coloca as mãos sobre esse objeto ao qual ele transmite a influência que recebe do Espírito, e o lápis traça os caracteres. Mas esse objeto é, propriamente falando, apenas um apêndice da mão, uma espécie de porta-lápis. Reconheceu-se depois a inutilidade desse intermediário, que é apenas uma complicação na engrenagem, cujo único mérito é constatar, de maneira mais material, a independência do médium; este último pode escrever tomando ele próprio o lápis.
Os Espíritos também se manifestam e podem transmitir seus pensamentos por sons articulados que reverberam seja só no ar, seja no ouvido; pela voz do médium, pela visão, por desenhos, pela música e por outros meios que um estudo completo dá a conhecer. Os médiuns têm, para esses diferentes meios de comunicação, aptidões especiais que se ligam à sua organização. Temos, assim, médiuns para efeitos físicos, isto é, aqueles que estão aptos a produzir fenômenos materiais como as pancadas, o movimento dos corpos, etc.; os médiuns audientes, falantes, videntes, desenhistas, musicistas, escreventes. Esta última faculdade é a mais comum, aquela que melhor se desenvolve pelo exercício; é também a mais preciosa, porque permite comunicações mais longas e mais rápidas.
O médium escrevente apresenta muitas variedades das quais duas são muito distintas. Para as compreender é necessário entender como o fenômeno se opera. Algumas vezes, o Espírito age diretamente sobre a mão do médium à qual dá um impulso totalmente independente da sua vontade, e sem que este tenha consciência do que escreve: é o médium escrevente mecânico. Outras vezes, ele age sobre o cérebro; seu pensamento atravessa o do médium que, embora escrevendo de maneira involuntária, tem uma consciência mais ou menos nítida do que obtém; é o médium intuitivo; seu papel é exatamente o de um intérprete que transmite um pensamento que não é o seu, e que no entanto ele deve compreender. Ainda que, neste caso, o pensamento do Espírito e o do médium às vezes se confundam, a experiência facilmente ensina a distingui-los. Obtêm-se comunicações igualmente boas por esses dois gêneros de médiuns; a vantagem dos que são mecânicos é principalmente para as pessoas que ainda não estão convencidas. De resto, a qualidade essencial de um médium está na natureza dos Espíritos que o assistem e nas comunicações que ele recebe, bem mais que nos meios de execução.
O Visitante. – O procedimento me parece dos mais simples. Seria possível experimentá-lo eu mesmo?
A. K. – Perfeitamente; e digo mesmo que, se estiverdes dotado da faculdade medianímica, esse seria o melhor meio de vos convencer, pois não poderíeis duvidar de vossa boa-fé. Somente vos aconselho fortemente a não fazer qualquer tentativa antes de ter estudado com cuidado. As comunicações de além-túmulo estão rodeadas de mais dificuldades do que se pensa; não estão isentas de inconvenientes nem mesmo de perigos para aqueles a quem falta a experiência necessária. É como aquele que quisesse fazer manipulações químicas sem saber química: correria o risco de queimar seus dedos.
O Visitante. – Há algum sinal pelo qual se possa reconhecer essa aptidão?
A. K. – Até o momento não se conhece nenhum diagnóstico para a medianimidade; todos aqueles que se acreditou reconhecer, não têm valor; experimentar é o único meio de saber se se é dotado dela. Ademais, os médiuns são muito numerosos e é muito raro que, se nós mesmos não o somos, não encontremos algum entre os membros da família ou entre as pessoas de nossa relação. O sexo, a idade e o temperamento são indiferentes; encontram-se médiuns entre os homens e entre as mulheres, as crianças e os velhos, as pessoas com saúde e as doentes.
Se a mediunidade se traduzisse por um sinal exterior qualquer, isso implicaria na permanência da faculdade, enquanto ela é essencialmente móvel e fugidia. Sua causa física está na assimilação mais ou menos fácil dos fluidos perispirituais do encarnado e do Espírito desencarnado; sua causa moral está na vontade do Espírito que se comunica quando isso lhe apraz, e não à nossa vontade, de onde resulta: 1º que nem todos os Espíritos podem se comunicar indiferentemente por todos os médiuns; 2º que todo médium pode perder ou ver suspensa sua faculdade no momento em que ele menos espera. Essas poucas palavras são suficientes para vos mostrar que há aí todo um estudo a se fazer para poder dar-se conta das variações que esse fenômeno apresenta.
Seria, pois, um erro acreditar que todo Espírito pode vir ao chamado que lhe é feito e se comunicar pelo primeiro médium que aparecer. Para que um Espírito se comunique, é preciso, primeiro, que lhe convenha fazê-lo; segundo, que sua posição ou suas ocupações lhe permitam; terceiro, que ele encontre no médium um instrumento propício, adequado à sua natureza.
Em princípio, pode-se comunicar com os Espíritos de todas as ordens, com seus parentes e amigos, com os Espíritos mais elevados, como com os mais vulgares; mas, independentemente das condições individuais de possibilidade, eles vêm mais ou menos de bom grado conforme as circunstâncias, sobretudo em razão de sua simpatia pelas pessoas que os chamam, e não sob a demanda do primeiro que chega e que tenha a fantasia de os evocar por um sentimento de curiosidade; em semelhante caso eles não atenderiam quando vivos, também não o fazem depois da morte.
Os Espíritos sérios vêm somente às reuniões sérias, onde são chamados com recolhimento e por motivos sérios; eles não se prestam a nenhuma questão de curiosidade, de prova, ou que tenha um objetivo fútil, nem a qualquer experiência.
Os Espíritos levianos vão a toda parte; mas nas reuniões sérias eles se calam e se mantêm afastados para escutar, como o fariam alunos em uma douta assembleia. Nas reuniões frívolas, eles se divertem, desdenham de tudo, frequentemente zombam dos assistentes, e a tudo respondem sem se preocupar com a verdade.
Os Espíritos ditos batedores, e geralmente todos os que produzem manifestações físicas são de uma ordem inferior, sem serem essencialmente maus por isso; eles têm uma aptidão de algum modo especial para os efeitos materiais; os Espíritos superiores não se ocupam dessas coisas, assim como nossos intelectuais não se ocupam de trabalhos braçais; se precisam disso, se servem desses Espíritos como nós nos servimos de trabalhadores braçais para o trabalho pesado.
MÉDIUNS INTERESSEIROS
O Visitante. – Antes de se entregar a um estudo de longo fôlego, algumas pessoas gostariam de ter a certeza de não perder seu tempo, certeza que um fato concludente lhes daria, ainda que fosse obtido à custa de dinheiro.
A. K. – Aquele que não quer se dar ao trabalho de estudar, tem mais curiosidade do que real desejo de se instruir; ora, assim como eu, os Espíritos não gostam dos curiosos. Aliás, a cupidez lhes é especialmente antipática, e eles não se prestam a nada que possa satisfazê-la; seria ter sobre eles uma ideia muito falsa acreditar que Espíritos superiores, como Fénelon, Bossuet, Pascal, Santo Agostinho, por exemplo, se coloquem às ordens de quem quer que seja a tanto por hora. Não, senhor, as comunicações de além-túmulo são uma coisa muito grave, que exige muito respeito, para servir de exibição.
Aliás, sabemos, que os fenômenos espíritas não funcionam como rodas de um mecanismo, pois dependem da vontade dos Espíritos; mesmo admitindo a aptidão medianímica, ninguém pode garantir que os obterá em determinado momento. Se os incrédulos são propensos a suspeitar da boa-fé dos médiuns em geral, seria ainda pior se houvesse neles um estimulante de ganho; poderíamos, com razão, suspeitar que o médium remunerado desse um empurrãozinho quando o Espírito não se manifestasse, porque ele precisaria, antes de tudo, ganhar seu dinheiro. Além de ser o desinteresse absoluto a melhor garantia de sinceridade, repugnaria à razão fazer vir à custa de dinheiro os Espíritos das pessoas que nos são caras, supondo que eles consentissem, o que é mais do que duvidoso; em todos os casos, só viriam Espíritos de baixo nível, pouco escrupulosos quanto aos meios, e que não mereceriam nenhuma confiança; e mesmo estes, muitas vezes sentem um prazer malicioso em frustrar as combinações e os cálculos de seu guia.
A natureza da faculdade medianímica se opõe, portanto, a que ela se torne uma profissão, pois depende de uma vontade estranha ao médium e que lhe pode faltar no momento em que precisaria dela, a menos que ele a supra ardilosamente. Porém, mesmo admitindo total boa fé, considerando-se que os fenômenos não são obtidos à vontade, seria um efeito da sorte se na sessão paga se produzisse precisamente o que se desejaria ver para se convencer. Daríeis cem mil francos a um médium, mas não o faríeis obter dos Espíritos o que eles não querem fazer; esse atrativo, que desnatura a intenção e a transforma em um violento desejo de lucro seria, ao contrário, um motivo para que não o obtivesse. Quando se está bem compenetrado dessa verdade: que a afeição e a simpatia são os mais poderosos meios de atração para os Espíritos, compreender-se-á que eles não podem ser solicitados pelo pensamento de servir-se deles para ganhar dinheiro.
Aquele que precisa de fatos para se convencer, deve provar aos Espíritos sua boa vontade por uma observação séria e paciente, se quiser ser secundado por eles; mas, se é verdade que a fé não se impõe, também o é que não se pode comprá-la.
O Visitante. – Compreendo seu raciocínio do ponto de vista moral; no entanto, não é justo que alguém que doa seu tempo no interesse da causa, seja indenizado, se isso o impede de trabalhar para viver?
A. K. – Em primeiro lugar, é no interesse da causa que ele o faz, ou no seu próprio? Se ele abandonou seu metiê, é porque não estava satisfeito com ele e esperava ganhar mais, ou ter menos trabalho em sua nova ocupação. Não há nenhum devotamento em doar seu tempo quando se busca obter lucro. É exatamente como se disséssemos que é no interesse da humanidade que o padeiro faz o pão. A mediunidade não é o único recurso; sem ela, os médiuns seriam obrigados a ganhar a vida de outra maneira. Os médiuns verdadeiramente sérios e devotados, quando não possuem renda que os tornem independentes, buscam os meios de viver no trabalho ordinário e não abandonam suas profissões; eles consagram à mediunidade apenas o tempo que podem dispor sem prejuízo; se o tomam de seus lazeres ou de seu repouso, é isso devotamento, virtude pela qual são mais estimados e respeitados.
Ademais, a multiplicidade de médiuns nas famílias torna os médiuns profissionais inúteis, mesmo supondo que estes oferecessem todas as garantias desejáveis, o que é muito raro. Sem o descrédito que se associou a esse tipo de exploração, para o qual me felicito por ter imensamente contribuído, teríamos visto uma proliferação de médiuns mercenários e os jornais se cobririam com seus anúncios; ora, para um que poderia ser leal, haveria cem charlatães que, abusando de uma faculdade real ou simulada, teriam causado o maior dano ao Espiritismo. É, pois, por princípio, que todos aqueles que veem no Espiritismo algo mais do que uma exibição de fenômenos curiosos, que compreendem e têm no coração a dignidade, a consideração e os verdadeiros interesses da doutrina, reprovam toda espécie de especulação, sob qualquer forma ou disfarce que se apresente.
Os médiuns sérios e sinceros, e chamo assim aqueles que compreendem a santidade do mandato que Deus lhes confiou, evitam até mesmo as aparências do que poderia fazer pairar sobre eles a menor suspeita de cupidez; a acusação de tirar um proveito qualquer de sua faculdade, seria vista por eles como uma injúria.
Admiti, senhor, por mais incrédulo que sejais, que um médium nessas condições vos causaria uma impressão totalmente diferente da que sentiríeis se tivésseis pago seu lugar para vê-lo operar, ou, mesmo que tivésseis conseguido uma entrada gratuita, se soubésseis que há uma questão de dinheiro por trás de tudo isso; convinde que, ao ver o primeiro animado por um verdadeiro sentimento religioso, estimulado unicamente pela fé, e não pelo atrativo do ganho, involuntariamente ele imporia seu respeito, mesmo sendo o mais humilde proletário, e vos inspiraria mais confiança, porque não teríeis nenhum motivo para suspeitar de sua lealdade. Pois bem! Senhor, encontrareis mil como este para um, e esta é uma das causas que contribuiu poderosamente para o crédito e a propagação da doutrina, enquanto que se ela tivesse apenas intérpretes interesseiros, não teria nem um quarto dos adeptos que tem hoje.
É bem compreensível que os médiuns profissionais sejam extremamente raros, pelo menos na França; que sejam desconhecidos na maioria dos centros espíritas da província, onde a reputação de mercenários bastaria para excluí-los de todos os grupos sérios, e onde, para eles, tal profissão não seria lucrativa, devido ao descrédito que sofreriam e à concorrência dos médiuns desinteressados que se encontram em toda parte.
Para suprir, seja a faculdade que lhes falta, seja a insuficiência da clientela, há supostos médiuns que ganham, lendo cartas, a clara de ovo, a borra de café, etc., a fim de satisfazer todos os gostos, esperando por este meio, na falta de Espíritos, atrair aqueles que ainda acreditam nessas tolices. Se eles fizessem mal apenas a si mesmos, o mal seria pouco; mas há pessoas que, sem ir muito a fundo, confundem o abuso com a realidade, e então os mal-intencionados aproveitam para dizer que é nisso que consiste o Espiritismo. Vede, pois, senhor, que a exploração da mediunidade, que leva a abusos prejudiciais à doutrina, faz com que o Espiritismo sério a desaprove e repudie seu auxílio.
O Visitante. – Tudo isso é muito lógico, eu concordo, mas como os médiuns desinteressados não estão à disposição de qualquer pessoa, não nos permitimos incomodá-los, enquanto não temos escrúpulos de buscar aquele que cobra, porque sabemos que não o fazemos perder seu tempo. Se houvesse médiuns públicos, seria uma facilidade para as pessoas que querem convencer-se.
A. K. – Todavia, se os médiuns públicos, como os chamais, não oferecem as garantias desejadas, que utilidade podem ter para a convicção? O inconveniente que mencionais não elimina os outros, muito mais graves, que já vos expliquei. As pessoas iriam a eles mais por diversão, ou para ouvir a boa sorte do que para se instruírem. Aquele que deseja seriamente se convencer encontrará os meios, mais cedo ou mais tarde, se tiver perseverança e boa vontade; mas não é por ter assistido a uma sessão que ficará convencido, se não estiver preparado para isso. Se sair com uma impressão desfavorável, estará menos convencido ao sair do que ao entrar, e talvez fique desgostoso de continuar um estudo onde nada terá visto de sério; é o que prova a experiência.
Mas, ao lado das considerações morais, o progresso da ciência espírita nos mostra hoje uma dificuldade material, da qual não suspeitávamos no início, fazendo-nos conhecer melhor as condições em que se produzem as manifestações. Essa dificuldade diz respeito às afinidades fluídicas que devem existir entre o Espírito evocado e o médium.
Deixo de lado qualquer pensamento de fraude e de embuste, e suponho uma total lealdade. Para que um médium profissional possa oferecer total segurança às pessoas que o consultam, ele precisaria possuir uma faculdade permanente e universal, ou seja, que pudesse obter comunicações facilmente de qualquer Espírito e em qualquer momento, para estar constantemente à disposição do público, como um médico, e satisfazer a todas as evocações que lhe fossem solicitadas; ora, isso não existe em nenhum médium, nem nos desinteressados muito menos nos outros. Isso se deve a causas independentes da vontade do Espírito, mas que não posso desenvolver aqui, porque não estou ministrando um curso de Espiritismo. Limito-me a dizer que as afinidades fluídicas, que são o princípio mesmo das faculdades medianímicas, são individuais e não gerais; que elas podem existir entre o médium e tal Espírito, e não com tal outro; que sem essas afinidades, cujas nuances são muito variadas, as comunicações são incompletas, falsas ou impossíveis; que, na maioria das vezes, a assimilação fluídica entre o Espírito e o médium só se estabelece com o tempo, e somente uma vez em dez acontece que ela seja completa desde a primeira vez. Como vedes, senhor, a mediunidade está subordinada a leis de certa forma orgânicas, às quais todo médium está sujeito; ora, não se pode negar que esse é um obstáculo para a mediunidade de profissão, pois a possibilidade e a exatidão das comunicações dependem de causas independentes do médium e do Espírito. (Ver adiante cap. II, parágrafo dos médiuns).
Portanto, se recusamos a exploração da mediunidade, não é por capricho nem por espírito de sistema, mas porque os próprios princípios que regem as relações com o mundo invisível se opõem à regularidade e à precisão necessárias para quem se coloca à disposição do público, e porque o desejo de satisfazer uma clientela pagante leva ao abuso. Não concluo com isso que todos os médiuns que cobram são charlatães, mas digo que o atrativo do ganho impele ao charlatanismo e autoriza a suspeita de fraude, quando não a justifica. Aquele que quer se convencer deve, antes de tudo, buscar os elementos de sinceridade.
OS MÉDIUNS E OS FEITICEIROS
O Visitante. – Se a mediunidade consiste em se colocar em relação com poderes ocultos, parece-me que médiuns e feiticeiros são quase sinônimos.
A. K. – Em todas as épocas existiram médiuns naturais e inconscientes que, por produzirem fenômenos incomuns e incompreendidos, foram qualificados de feiticeiros e acusados de fazer pactos com o diabo; o mesmo aconteceu com a maioria dos cientistas que possuíam conhecimentos superiores aos do vulgo. A ignorância exagerou o poder de tais médiuns, e eles próprios muitas vezes abusaram da credulidade pública explorando-a; daí a justa reprovação de que foram objeto. Basta comparar o poder atribuído aos feiticeiros com a faculdade dos médiuns verdadeiros para perceber a diferença, mas a maioria dos críticos não se dá ao trabalho de fazer isso. O Espiritismo, longe de ressuscitar a feitiçaria, a destrói para sempre despojando-a de seu pretenso poder sobrenatural, de suas fórmulas, grimórios, amuletos e talismãs, reduzindo os fenômenos possíveis ao seu justo valor, sem sair das leis naturais.
A assimilação que algumas pessoas pretendem estabelecer, vem do erro em que se acham, ao crer que os Espíritos estão às ordens dos médiuns; repugna à sua razão acreditar que possa depender do primeiro a chegar fazer vir, à sua vontade e no momento certo, o Espírito de tal ou tal personagem mais ou menos ilustre; nisso eles estão perfeitamente com a verdade e, se antes de atirar a pedra no Espiritismo, tivessem se dado ao trabalho de dar-se conta disso, saberiam que ele diz positivamente que os Espíritos não estão à mercê dos caprichos de ninguém, e que ninguém pode fazê-los vir à sua vontade e a contragosto deles; donde se segue que os médiuns não são feiticeiros.
O Visitante. – De acordo com isso, todos os efeitos que certos médiuns acreditados obtêm à vontade e em público, seriam, na vossa opinião, apenas prestidigitação?
A. K. – Não disse isso de maneira absoluta. Tais fenômenos não são impossíveis, porque há Espíritos inferiores que podem prestar-se a esse tipo de coisas, e que se divertem com isso, tendo talvez feito em vida o ofício de prestidigitadores, e também há médiuns especialmente propensos a esse tipo de manifestação; porém, o mais vulgar bom senso repele a ideia de que Espíritos um tanto elevados venham fazer exibições e truques para divertir os curiosos.
A obtenção desses fenômenos à vontade, e especialmente em público, é sempre suspeita; nesse caso, a mediunidade e a prestidigitação se tocam de tão perto que muitas vezes é bem difícil distingui-las; antes de ver a ação dos Espíritos, é preciso fazer observações minuciosas e levar em conta o caráter e os antecedentes do médium, bem como uma série de circunstâncias que somente um estudo aprofundado da teoria dos fenômenos espíritas pode fazer apreciar. É importante notar que esse tipo de mediunidade, quando há mediunidade, é limitado à produção do mesmo fenômeno, com pequenas variações, o que não é suficiente para dissipar as dúvidas. O desinteresse absoluto seria a melhor garantia de sinceridade.
Independentemente da realidade desses fenômenos, como efeitos medianímicos, eles têm um bom resultado, pois dão repercussão à ideia espírita. A controvérsia que se estabelece a esse respeito provoca em muitas pessoas um estudo mais aprofundado. Certamente não é aí que se deve ir buscar instruções sérias de Espiritismo, nem a filosofia da doutrina, mas é um meio de chamar a atenção dos indiferentes e obrigar os mais recalcitrantes a falar dele.
DIVERSIDADE DOS ESPÍRITOS
O Visitante. – Falais de Espíritos, bons ou maus, sérios ou frívolos; confesso-vos que não compreendo essa diferença; parece-me que, ao deixar seu envoltório corporal, eles devem se desfazer das imperfeições inerentes à matéria; que a luz deve se acender para eles sobre todas as verdades que nos são ocultas, e que devem ser libertos dos preconceitos terrenos.
A. K. – Sem dúvida, eles estão desembaraçados das imperfeições físicas, ou seja, das doenças e das enfermidades do corpo; mas as imperfeições morais são do Espírito e não do corpo. Entre eles, há os que são mais ou menos avançados intelectual e moralmente. Seria um erro acreditar que os Espíritos, ao deixar seu corpo material, sejam subitamente iluminados pela luz da verdade. Acreditais, por exemplo, que, quando morrerdes, não haverá nenhuma diferença entre o vosso Espírito e o de um selvagem ou de um malfeitor? Se assim fosse, de que vos serviria ter trabalhado por vos instruir e vos melhorar, se um canalha seria igual a vós depois da morte? O progresso dos Espíritos só se realiza gradualmente, e algumas vezes bem lentamente. Nesse número, e isso depende de sua depuração, há os que veem as coisas de um ponto de vista mais justo do quando vivos; outros, ao contrário, ainda têm as mesmas paixões, os mesmos preconceitos e os mesmos erros, até que o tempo e novas provas lhes tenham permitido se esclarecer. Notai bem que essa conclusão resulta da experiência, pois é assim que eles se apresentam a nós em suas comunicações. É, pois, um princípio elementar do Espiritismo que, entre os Espíritos, há todos os graus de inteligência e de moralidade.
O Visitante. – Então por que os Espíritos não são todos perfeitos? É que Deus os criou de todas as espécies de categorias?
A. K. – É o mesmo que perguntar porque nem todos os alunos de um colégio estão no curso de filosofia. Os Espíritos têm todos a mesma origem e o mesmo destino. As diferenças que existem entre eles não constituem espécies distintas, mas graus diversos de adiantamento.
Os Espíritos não são perfeitos, porque são as almas dos homens, e os homens não são perfeitos; pela mesma razão, os homens não são perfeitos, porque são a encarnação de Espíritos mais ou menos avançados. O mundo corporal e o mundo espiritual se derramam incessantemente um no outro; pela morte do corpo, o mundo corporal fornece seu contingente ao mundo espiritual; pelos nascimentos, o mundo espiritual alimenta a humanidade. A cada nova existência, o Espírito realiza um progresso mais ou menos grande, e quando adquire na Terra a soma de conhecimentos e a elevação moral que nosso globo comporta, ele o deixa para passar a um mundo mais elevado, onde aprende novas coisas.
Os Espíritos que formam a população invisível da Terra são, de alguma maneira, o reflexo do mundo corporal; nela se encontram os mesmos vícios e as mesmas virtudes; há entre eles doutos, ignorantes e pseudossábios, sábios e tolos, filósofos, argumentadores, sistemáticos; não tendo ainda se livrado de seus preconceitos, todas as opiniões políticas e religiosas têm aí seus representantes; cada um fala de acordo com suas ideias, e o que dizem muitas vezes é apenas sua opinião pessoal; eis porque não se deve acreditar cegamente em tudo o que dizem os Espíritos.
O Visitante. – Se é assim, percebo uma imensa dificuldade; nesse conflito de opiniões diversas, como distinguir o erro da verdade? Não vejo que os Espíritos nos sirvam para grande coisa, nem o que temos a ganhar com suas conversas.
A. K. – Ainda que os Espíritos servissem apenas para ensinar-nos que há Espíritos, que os Espíritos são as almas dos homens, isso não seria de grande importância para todos aqueles que duvidam de que têm uma alma, e não sabem o que se tornarão após a morte?
Como todas as ciências filosóficas, esta exige longos estudos e minuciosas observações; é então que se aprende a distinguir a verdade da impostura e os meios de afastar os Espíritos enganadores. Acima dessa turba de baixo nível, há os Espíritos superiores, que só visam o bem e têm por missão conduzir os homens pelo bom caminho; cabe a nós sabermos apreciá-los e compreendê-los. Esses nos ensinam grandes coisas; mas não creiais que o estudo dos outros seja inútil; para conhecer um povo, é preciso vê-lo sob todas as suas faces.
Disso vós mesmos sois a prova; pensáveis que bastava aos Espíritos deixar seu envoltório corporal para se livrar de suas imperfeições; ora, foram as comunicações com eles que nos ensinaram o contrário e nos mostraram o verdadeiro estado do mundo espiritual, que nos interessa a todos no mais alto grau, pois todos devemos nele entrar. Quanto aos erros que podem surgir da divergência de opiniões entre os Espíritos, eles desaparecem por si mesmos, à medida que se aprende a distinguir os bons dos maus, os instruídos dos ignorantes, os sinceros dos hipócritas, exatamente como entre nós; então o bom senso faz justiça às falsas doutrinas.
O Visitante. – Minha observação subsiste sempre do ponto de vista das questões científicas e outras que se pode submeter aos Espíritos. A divergência de suas opiniões sobre as teorias que dividem os cientistas nos deixa na incerteza. Compreendo que, não estando todos instruídos no mesmo grau, eles não podem tudo saber; então, que peso pode ter para nós a opinião daqueles que sabem, se não podemos verificar quem está em erro ou com a razão? Tanto vale dirigir-se aos homens quanto aos Espíritos.
A. K. – Essa reflexão é ainda uma consequência da ignorância do verdadeiro caráter do Espiritismo. Aquele que acredita encontrar nele um meio fácil de tudo saber, de tudo descobrir, está em um grande erro. Os Espíritos não são encarregados de vir nos trazer a ciência pronta; seria de fato muito cômodo se tivéssemos apenas que pedir para sermos servidos, e poupar-nos assim do trabalho de pesquisar. Deus quer que trabalhemos, que nosso pensamento se exercite: só adquirimos a ciência a este preço; os Espíritos não vêm nos liberar dessa necessidade; eles são o que são; o Espiritismo tem por objeto estudá-los, a fim de saber por analogia o que seremos um dia, e não para nos dar a conhecer o que deve ficar oculto, ou nos revelar as coisas antes do tempo.
Os Espíritos também não são adivinhos, e quem quer que se gabe de obter deles certos segredos, prepara para si mesmo estranhas decepções da parte dos Espíritos zombeteiros; em uma palavra, o Espiritismo é uma ciência de observação e não uma ciência de adivinhação ou de especulação. Nós o estudamos para conhecer o estado das individualidades do mundo invisível, as relações que existem entre elas e nós, sua ação oculta sobre o mundo visível, e não pela utilidade material que dele podemos tirar. Sob esse ponto de vista, não há nenhum Espírito cujo estudo seja inútil; com todos aprendemos alguma coisa; suas imperfeições, seus defeitos, sua insuficiência, sua ignorância mesma são tantos assuntos de observação que nos iniciam no conhecimento da natureza íntima do mundo espírita; ademais, quando não são eles que nos instruem por seus ensinamentos, somos nós que nos instruímos estudando-os, como o fazemos quando observamos os costumes de um povo que não conhecemos.
Quanto aos Espíritos esclarecidos, eles nos ensinam muito, mas no limite das coisas possíveis, e não devemos pedir-lhes o que não podem ou não devem nos revelar; devemos contentar-nos com o que eles nos dizem; querer ir além é se expor às mistificações dos Espíritos levianos, sempre prontos a tudo responder. A experiência nos ensina a julgar o grau de confiança que podemos ter neles.
UTILIDADE PRÁTICA DAS MANIFESTAÇÕES
O Visitante. – Admitamos que a coisa esteja constatada e o Espiritismo reconhecido como uma realidade; qual pode ser a sua utilidade prática? Passamos sem ele até hoje, parece-me que poderíamos continuar ainda sem ele e viver muito tranquilamente.
A. K. – Poderíamos dizer o mesmo das ferrovias e do vapor, sem os quais vivíamos muito bem.
Se entendeis por utilidade prática os meios de viver bem, fazer fortuna, conhecer o futuro, descobrir minas de carvão ou tesouros escondidos, recuperar heranças, poupar-se ao trabalho das pesquisas, ele não serve para nada; não pode fazer a bolsa subir ou descer, nem ser colocado em ações, nem mesmo dar invenções prontas para serem exploradas. Desse ponto de vista, quantas ciências seriam inúteis! Quantas há que não têm vantagens, comercialmente falando! Os homens se achavam muito bem antes da descoberta de todos os novos planetas; antes que se soubesse que é a Terra que gira e não o Sol; antes que se calculassem os eclipses; antes que se conhecesse o mundo microscópico e cem outras coisas. O camponês, para viver e fazer crescer seu trigo, não precisa saber o que é um cometa. Por que então os cientistas se entregam a essas pesquisas, e quem ousaria dizer que eles perdem seu tempo?
Tudo o que serve para levantar um canto do véu favorece o desenvolvimento da inteligência, amplia o círculo das ideias, fazendo-nos penetrar mais profundamente nas leis da natureza. Ora, o mundo dos Espíritos existe em virtude de uma dessas leis da natureza; o Espiritismo nos faz conhecer essa lei; ele nos ensina a influência que o mundo invisível exerce sobre o mundo visível e as relações que existem entre eles, como a astronomia nos ensina as relações dos astros com a Terra; ele nos mostra o mundo dos Espíritos como uma das forças que regem o universo e contribuem para a manutenção da harmonia geral. Suponhamos que aí se limite a sua utilidade, já não seria muito a revelação de uma tal potência, abstração feita de toda doutrina moral? Nada significa o fato de que todo um mundo novo se revele a nós, especialmente se o conhecimento deste mundo nos coloca no caminho de uma multidão de problemas insolúveis até então? Se nos inicia nos mistérios do além-túmulo, que nos interessam de algum modo, pois todos nós, mais cedo ou mais tarde, devemos dar o passo fatal? Mas há uma outra utilidade mais positiva do Espiritismo: a influência moral que ele exerce pela força mesma das coisas. O Espiritismo é a prova patente da existência da alma, de sua individualidade após a morte, de sua imortalidade, de seu destino futuro; é, portanto, a destruição do materialismo, não pelo raciocínio, mas pelos fatos.
Não se deve pedir ao Espiritismo mais do que ele pode dar, e não buscar nele nada além do seu objetivo providencial. Antes dos progressos sérios da astronomia, acreditava-se na astrologia. Seria sensato pretender que a astronomia para nada serve, porque não se pode mais encontrar na influência dos astros o prognóstico do seu destino? Assim como a astronomia destronou os astrólogos, o Espiritismo destrona os adivinhos, os feiticeiros e os ledores de sorte. Ele está para a magia assim como a astronomia está para a astrologia, a química para a alquimia.
LOUCURA; SUICÍDIO; OBSESSÃO
O Visitante – Algumas pessoas consideram as ideias espíritas como sendo de natureza a perturbar as faculdades mentais e, por esse motivo, acham que seria prudente deter seu crescimento.
A. K. – Conheceis o provérbio: Quando se quer matar um cão, diz-se que ele está raivoso. Não é, pois, surpreendente que os inimigos do Espiritismo busquem se apoiar em todos os pretextos; este lhes pareceu próprio para despertar os medos e as susceptibilidades e o agarraram com ardor; mas ele cai diante do mais ligeiro exame. Escutai, então, sobre essa loucura, o arrazoado de um louco.
Todas as grandes preocupações do espírito podem ocasionar a loucura; as ciências, as artes, a própria religião, fornecem seu contingente. A loucura tem por princípio um estado patológico do cérebro, instrumento do pensamento: o instrumento estando desorganizado, o pensamento é alterado. A loucura é, portanto, um efeito consecutivo, cuja causa primeira é uma predisposição orgânica que torna o cérebro mais ou menos acessível a certas impressões; isso é tão verdadeiro que há pessoas que pensam muito e não se tornam loucas; outras que enlouquecem sob o império da menor sobre-excitação. Havendo uma predisposição à loucura, esta tomará o caráter da preocupação principal, que se torna então uma ideia fixa. Essa ideia fixa pode ser a dos Espíritos, para aquele que com eles se ocupa, como poderá ser a de Deus, dos anjos, do diabo, da fortuna, do poder, de uma arte, de uma ciência, da maternidade, de um sistema político ou social. É provável que o louco religioso tivesse se tornado um louco espírita se o Espiritismo tivesse sido sua preocupação dominante. Um jornal disse, é verdade, que em uma única localidade da América, da qual não me lembro o nome, havia quatro mil casos de loucura espírita; mas sabemos que, entre nossos adversários, é ideia fixa acreditar que eles são os únicos dotados de razão, e essa é uma mania como qualquer outra. Aos seus olhos, somos todos dignos de hospitais psiquiátricos e, por conseguinte, os quatro mil espíritas da localidade em questão devem ser igualmente loucos. Segundo essa contagem, os Estados Unidos têm centenas de milhares deles, e todos os outros países do mundo um número ainda bem maior. Essa zombaria maldosa está começando a desgastar-se desde que se vê tal loucura atingir as classes mais altas da sociedade. Fez-se grande burburinho do exemplo de Victor Hennequin, bem conhecido; mas esquece-se que antes de se ocupar dos Espíritos, ele já havia dado provas de excentricidade nas ideias; se as mesas girantes não tivessem ocorrido, que, segundo um trocadilho espirituoso dos nossos adversários, lhe fizeram girar a cabeça, sua loucura teria tomado outro curso.
Eu digo então que o Espiritismo não tem nenhum privilégio em relação isso; mas vou além: digo que, bem compreendido, ele é um preservativo contra a loucura e o suicídio.
Entre as causas mais numerosas de sobre-excitação cerebral, estão as decepções, as desgraças, as afeições contrariadas, que são ao mesmo tempo as causas mais frequentes de suicídio. Ora, o verdadeiro espírita vê as coisas deste mundo de um ponto de vista tão elevado, que as tribulações não passam para ele de incidentes desagradáveis de uma viagem. O que, em um outro, produziria violenta emoção, bem pouco o afeta. Aliás, ele sabe que os dissabores da vida são provas que servem ao seu adiantamento, se as sofre sem murmurar, porque será recompensado segundo a coragem com que as tenha suportado. Suas convicções lhe dão, assim, uma resignação que o preserva do desespero e, por conseguinte, de uma causa incessante de loucura e de suicídio. Ele sabe, além disso, pelo espetáculo que lhe proporcionam as comunicações com os Espíritos, a sorte deplorável daqueles que abreviam voluntariamente seus dias, e este quadro é bem vivo para fazê-lo refletir; também é considerável o número daqueles que foram detidos no declive desse precipício funesto. Este é um dos resultados do Espiritismo.
No número das causas de loucura é preciso ainda acrescentar o medo, e o do diabo desarranjou mais de um cérebro. Sabe-se o número de vítimas que se fez ao impressionar imaginações fracas com este quadro que se torna ainda mais pavoroso pelos detalhes horríveis com que são pintados? O diabo, dizem, só assusta as criancinhas; é um freio para torná-las sábias; sim, como o bicho-papão e o lobisomem, mas quando elas não têm mais medo, estão piores do que antes; e, para este belo resultado, não se conta o número de epilepsias causadas pelo abalo de um cérebro delicado.
Não se deve confundir a loucura patológica com a obsessão; esta última não vem de nenhuma lesão cerebral, mas da subjugação que Espíritos malfazejos exercem sobre certos indivíduos, e às vezes tem as aparências da loucura propriamente dita. Essa afecção, que é bem frequente, independe de qualquer crença no Espiritismo, e existiu em todos os tempos. Neste caso, a medicação ordinária é impotente e mesmo prejudicial. O Espiritismo, dando a conhecer esta nova causa de perturbação da saúde humana, dá ao mesmo tempo o único meio de triunfar sobre ela, agindo, não sobre o doente, mas sobre o Espírito obsessor. É o remédio e não a causa do mal.
ESQUECIMENTO DO PASSADO
O Visitante – Não consigo entender como o homem pode aproveitar da experiência adquirida em suas existências anteriores, se ele não se lembra delas. Pois, uma vez que não se lembra, cada existência é para ele como se fosse a primeira, está assim sempre recomeçando. Suponhamos que a cada dia, ao acordarmos, perdêssemos a memória do que fizemos na véspera; não estaríamos mais avançados aos setenta anos do que aos dez; ao passo que, lembrando-nos de nossas faltas, de nossas inabilidades e das punições em que incorremos, trataríamos de evitá-las. Para usar a comparação que fizestes do homem na Terra com o aluno de um colégio, eu não entendo como esse aluno poderia aproveitar as lições da quarta classe, por exemplo, se ele não se lembra do que aprendeu na anterior. Essas soluções de continuidade, na vida do Espírito, interrompem todas as relações e fazem dele, de certa maneira, um ser novo; de onde pode dizer-se que nossos pensamentos morrem a cada existência, para renascer sem consciência do que fomos: é uma espécie de vazio.
A. K. – De questões em questões, levar-me-eis a dar um curso completo de Espiritismo; todas as objeções que fazeis são naturais para alguém que não sabe nada, enquanto ele encontra, em um estudo sério, uma solução muito mais explícita do que a que posso dar em uma explicação sumária que, por si só, deve provocar incessantemente novas perguntas. Tudo se encadeia no Espiritismo, e quando seguimos o conjunto, vemos que os seus princípios decorrem uns dos outros, servindo-se mutuamente de apoio; então, o que parecia uma anomalia contrária à justiça e à sabedoria de Deus, parece muito natural e vem confirmar essa justiça e essa sabedoria.
Tal é o problema do esquecimento do passado que se liga a outras questões de igual importância, por isso não tocarei nele aqui senão ligeiramente.
Se a cada existência um véu é lançado sobre o passado, o Espírito nada perde do que adquiriu no passado: ele esquece apenas a maneira como o adquiriu. Para me servir da comparação do aluno, direi que: pouco importa para ele saber onde, como e sob quais professores fez sua quarta série, se, ao chegar à quinta ele sabe o que se aprende na quarta série. Que importa saber que foi fustigado por sua preguiça e insubordinação, se esses castigos o tornaram laborioso e dócil? É assim que ao reencarnar, o homem traz, por intuição e como ideias inatas, o que adquiriu em ciência e moralidade. Digo em moralidade porque, se durante uma existência ele se aprimorou, se aproveitou as lições da experiência, quando voltar, será instintivamente melhor; seu Espírito, amadurecido na escola do sofrimento e pelo trabalho, terá mais solidez; longe de ter que recomeçar tudo, ele possui um fundo cada vez mais rico, sobre o qual se apoia para adquirir mais.
A segunda parte de vossa objeção, relativa ao vazio do pensamento, não é melhor fundamentada, pois esse esquecimento só ocorre durante a vida corporal; ao deixá-la, o Espírito recupera a lembrança do seu passado; ele pode então julgar o caminho que percorreu e o que ainda lhe resta a fazer; de modo que não há solução de continuidade na vida espiritual, que é a vida normal do Espírito.
O esquecimento temporário é um benefício da Providência; a experiência é muitas vezes adquirida por duras provas e terríveis expiações, cuja lembrança seria muito penosa e viria somar-se às angústias e tribulações da vida presente. Se os sofrimentos da vida parecem longos, que seria então se sua duração aumentasse com a lembrança dos sofrimentos do passado? Vós, por exemplo, senhor, sois hoje um homem honesto, mas talvez o devais aos duros castigos que sofrestes por más ações que agora repugnariam à vossa consciência; ser-vos-ia agradável lembrar de ter sido enforcado por isso? A vergonha não vos perseguiria ao pensar que o mundo sabe o mal que fizestes? Que vos importa o que fizestes e o que suportastes para expiá-lo, se agora sois um homem digno de estima! Aos olhos do mundo, sois um homem novo e aos olhos de Deus um Espírito reabilitado. Livre da lembrança de um passado inoportuno, agis com mais liberdade; é para vós um novo ponto de partida; vossas dívidas anteriores estão pagas, cabe a vós não contrair novas.
Quantos homens gostariam de poder, durante a vida, lançar um véu sobre seus primeiros anos! Quantos se disseram, no fim de sua carreira: “Se fosse para recomeçar, eu não faria mais o que fiz!” Pois bem! O que eles não podem refazer nesta vida, eles o farão em outra; em uma nova existência, seu Espírito trará, em estado de intuição, as boas resoluções que tomara. É assim que se realiza gradualmente o progresso da humanidade.
Suponhamos ainda, o que é um caso muito comum, que em vossos relacionamentos, em vosso próprio lar, exista um ser do qual tendes muitas queixas, que talvez vos tenha arruinado ou desonrado em outra existência, e que, como Espírito arrependido, veio encarnar-se em vosso meio, unir-se a vós pelos laços de família, para reparar o mal que vos fez por seu devotamento e sua afeição; não estaríeis mutuamente na mais embaraçosa posição, se ambos lembrásseis de vossas inimizades? Em vez de se acalmarem, os ódios se eternizariam.
Concluireis daí que a lembrança do passado perturbaria as relações sociais e seria um entrave ao progresso. Quereis disso uma prova atual? Que um homem condenado às galés tome a firme resolução de se tornar honesto; o que acontece quando ele sai? É rejeitado pela sociedade, e essa rejeição quase sempre o joga de volta ao vício. Suponhamos, ao contrário, que todos ignorem seus antecedentes, ele será bem recebido; se ele mesmo pudesse esquecê-los, não seria menos honesto e poderia andar de cabeça erguida, em vez de curvá-la sob a vergonha da lembrança.
Isso está em perfeita concordância com a doutrina dos Espíritos sobre os mundos superiores ao nosso. Nestes mundos onde reina apenas o bem, a lembrança do passado nada tem de penosa; eis porque se lembram de sua existência anterior como nos lembramos hoje do que fizemos ontem. Quanto à estadia que puderam ter feito em mundos inferiores, não passa de um sonho ruim.
ELEMENTOS DE CONVICÇÃO
O Visitante – Concordo, senhor, que do ponto de vista filosófico a doutrina espírita é perfeitamente racional; mas ainda resta a questão das manifestações, que só pode ser resolvida por fatos; ora, é a realidade desses fatos que muitas pessoas contestam; não deveis achar surpreendente o desejo que expressam de testemunhá-los.
A. K. – Eu o acho muito natural; apenas, como procuro fazer com que elas aproveitem, explico em que condições convém colocar-se para melhor observá-los e, principalmente, para compreendê-los; ora, aquele que não quer se colocar nessas condições, é porque não tem vontade séria de esclarecer-se, então é inútil perder tempo com ele.
Concordareis também, senhor, que seria estranho que uma filosofia racional tivesse saído de fatos ilusórios e controversos. Em boa lógica, a realidade do efeito implica a realidade da causa; se um é verdadeiro, a outra não pode ser falsa, pois onde não há árvore não se poderia colher frutos.
É verdade que nem todos puderam constatar os fatos, porque nem todos se colocaram nas condições requeridas para observá-los e não tiveram a paciência e a perseverança necessárias. Mas aqui é como em todas as ciências: o que uns não fazem, outros o fazem; todos os dias aceitamos o resultado dos cálculos astronômicos, sem tê-los feito nós mesmos. Como quer que seja, se julgais a filosofia boa, podeis aceitá-la como aceitaríeis qualquer outra, reservando sua opinião sobre as vias e os meios que levaram a ela, ou, pelo menos, admitindo-os apenas a título de hipótese até mais ampla constatação.
Os elementos de convicção não são os mesmos para todos; o que convence a uns, nenhuma impressão causa a outros: é por isso que precisamos de um pouco de tudo. Todavia, é um erro acreditar que as experiências físicas sejam o único meio de convencer. Tenho visto alguns que não foram tocados pelos mais notáveis fenômenos e sobre os quais uma simples resposta escrita triunfou. Quando vemos um fato que não compreendemos, quanto mais extraordinário ele é, mais parece suspeito, e o pensamento aí busca sempre uma causa vulgar; se nos damos conta dele, o admitimos bem mais facilmente, porque ele tem uma razão de ser: o maravilhoso e o sobrenatural desaparecem. Certamente, as explicações que acabei de vos dar nesta entrevista estão longe de ser completas; todavia, por mais sumárias que sejam, estou persuadido que elas vos farão refletir; e, se as circunstâncias vos tornarem testemunha de alguns fatos de manifestação, os vereis com um olhar menos prevenido, porque podereis apoiar seu raciocínio sobre uma base.
Há duas coisas no Espiritismo: a parte experimental das manifestações e a doutrina filosófica. Ora, sou visitado todos os dias por pessoas que nada viram e que creem tão firmemente quanto eu, unicamente pelo estudo que fizeram da parte filosófica; para elas, o fenômeno das manifestações é o acessório; o fundo é a doutrina, a ciência; elas a veem tão grande, tão racional, que nela encontram tudo o que pode satisfazer suas aspirações interiores, à parte o fato das manifestações; daí concluem que, supondo que as manifestações não existam, a doutrina não seria menos aquela que melhor resolve uma série de problemas tidos como insolúveis. Quantos disseram-me que essas ideias haviam germinado em seu cérebro, mas que estavam confusas? O Espiritismo veio formulá-las, dar-lhes um corpo, e foi para elas como um raio de luz. Isso explica o número de adeptos que a simples leitura de O Livro dos Espíritos conquistou. Acreditais que seria assim se não tivéssemos saído das mesas girantes e falantes?
O Visitante – Tendes razão de dizer, senhor, que das mesas girantes surgiu uma doutrina filosófica; eu estava longe de suspeitar das consequências que poderiam surgir de algo que era visto como um simples objeto de curiosidade. Agora vejo quão vasto é o campo aberto pelo vosso sistema.
A. K. – Aqui vos interrompo, senhor; fazeis-me muita honra atribuindo-me este sistema, porque ele não me pertence. Ele foi inteiramente deduzido do ensinamento dos Espíritos. Eu vi, observei, coordenei e procuro fazer os outros compreenderem o que eu mesmo compreendo; eis toda a minha parte nisso. Há entre o Espiritismo e os outros sistemas filosóficos esta diferença capital: estes últimos são todos obra de homens mais ou menos esclarecidos, ao passo que naquele que me atribuís eu não tenho o mérito da invenção de um só princípio. Diz-se: a filosofia de Platão, de Descartes, de Leibnitz; não se dirá: a doutrina de Allan Kardec, e isso felizmente; que peso teria um nome em uma tão grave questão? O Espiritismo tem auxiliares bem mais preponderantes, ao lado dos quais somos apenas átomos.
SOCIEDADE ESPÍRITA DE PARIS
O Visitante – Tendes uma sociedade que se ocupa desses estudos; seria possível eu fazer parte dela?
A. K. – Seguramente não, por enquanto; pois se, para ser recebido, não é necessário ser doutor em Espiritismo, é preciso pelo menos ter sobre este assunto ideias mais firmes que as vossas. Como ela não quer ser perturbada em seus estudos, não pode admitir aqueles que viriam lhe fazer perder tempo com questões elementares, nem aqueles que, não simpatizando com seus princípios e suas convicções, lançariam a desordem por discussões intempestivas ou por espírito de contradição. É uma sociedade científica como tantas outras, cuja ocupação é aprofundar os diferentes pontos da ciência espírita e que busca se esclarecer; é o centro para onde convergem as informações de todas as partes do mundo, e onde se elaboram e se coordenam as questões que dizem respeito ao progresso da ciência; mas não é uma escola, nem um curso de ensino elementar. Mais tarde, quando vossas convicções estiverem formadas pelo estudo, a Sociedade verá se há lugar para vos admitir. Enquanto isso, podereis, no máximo, assistir a alguma sessão uma ou duas vezes como ouvinte, sob a condição de não fazer ali nenhuma reflexão que possa ofender alguém, sem o que eu, que vos teria aí introduzido, daria razão a censuras por parte de meus colegas, e a porta vos seria para sempre interditada. Vereis aí uma reunião de homens graves e de boa companhia, dos quais a maioria se recomenda pela superioridade de seu saber e sua posição social, e que não permitiriam que aqueles que ela se dispõe a admitir se desviem, no que quer que seja, das conveniências; não creiais que ela convide o público e que chame o primeiro que chega às suas sessões. Como não faz demonstrações com vistas a satisfazer a curiosidade, ela afasta com cuidado os curiosos. Portanto, aqueles que acreditam encontrar ali uma distração e uma espécie de espetáculo ficariam desapontados e fariam melhor não se apresentando a ela. Eis porque ela se recusa a admitir, mesmo como simples ouvintes, aqueles que ela não conhece, ou cujas disposições hostis são notórias.
INTERDIÇÃO DO ESPIRITISMO
O Visitante – Uma última questão, eu vos peço. O Espiritismo tem inimigos poderosos; eles não poderiam proibir seu exercício e suas sociedades, e por este meio deter sua propagação?
A. K. – Seria o meio de perder a partida um pouco mais rápido, pois a violência é o argumento daqueles que nada de bom têm a dizer. Se o Espiritismo é uma quimera, ele cairá por si mesmo sem que se tenha tanto trabalho; se o perseguem, é porque o temem, e só se teme o que é sério. Se é uma realidade, ele está, como eu disse, na natureza, e não se revoga uma lei da natureza por decreto.
Se as manifestações espíritas fossem o privilégio de um homem, não há dúvida de que, colocando este homem de lado, se colocaria fim às manifestações; infelizmente para os adversários, elas não são um mistério para ninguém; nada há de secreto, nada de oculto, tudo se passa às claras; elas estão à disposição de todos, e ocorrem tanto em palácios quanto em mansardas. Pode-se proibir seu exercício público, mas sabe-se muito bem que não é em público que os fenômenos espíritas se produzem melhor; é na intimidade; ora, cada um podendo ser médium, quem pode impedir uma família em seu interior, um indivíduo no silêncio de seu gabinete, um prisioneiro sob as grades, de ter comunicações com os Espíritos, à revelia e até mesmo às barbas dos esbirros? Admitamos, no entanto, que um governo fosse bastante forte para impedir tais comunicações em sua casa, ele as impediria nas de seus vizinhos, no mundo inteiro, visto que não há um país nos dois continentes onde não existam médiuns?
Ademais, o Espiritismo não tem sua origem entre os homens; é obra dos Espíritos, que não se podem queimar nem colocar em prisão. Ele consiste na crença individual e não nas sociedades, que absolutamente não são necessárias. Se se conseguisse destruir todos os livros espíritas, os Espíritos os ditariam novamente.
Em resumo, o Espiritismo é hoje um fato consumado; ele conquistou seu lugar na opinião e entre as doutrinas filosóficas; é preciso, portanto, que aqueles a quem ele não convém se acostumem a vê-lo ao seu lado, permanecendo perfeitamente livres para não o tocar.