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Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas » Capítulo VIII – Das relações com os Espíritos » Linguagem a manter com os Espíritos

O grau de superioridade ou de inferioridade dos Espíritos indica naturalmente o tom que com eles devemos manter. É evidente que quanto mais elevados, tanto mais fazem jus ao nosso respeito, à nossa consideração e à nossa submissão. Não lhes devemos testemunhar menos deferência do que lhes faríamos em vida; mas por outros motivos. Se na Terra o considerávamos pela posição social, no mundo dos Espíritos nosso respeito só se dirige à superioridade moral. Sua própria elevação os coloca acima das puerilidades de nossas formas de adulação. Não será pelas palavras que lhes captaremos a be­nevolência, mas pela sinceridade dos sentimentos. Seria, pois, ridículo lhes dar títulos que os nossos costumes consagram à distinção das classes e que, em vida lhes teria talvez lisonjeado a vaidade. Se forem realmente superiores, não só não ligam importância, mas sentirão desagrado. Um bom pensamento lhes é mais agradável que os mais lisonjeiros epítetos. Do contrário não estariam acima da humanidade. O Espírito de um venerável eclesiástico, que na Terra foi um príncipe da Igreja, homem de bem e praticante da lei de Jesus, respondeu um dia a alguém que o evocava, dando-lhe o título de Monsenhor: “De­vias dizer ao menos ex-monsenhor, porque aqui só Deus é Senhor. Fica sabendo que aqui encontro criaturas que na Terra se prosternavam à minha frente e diante das quais eu mesmo me inclino”.

Quanto à questão de saber se se deve tratar os Espíritos por tu[1] ela é muito pouco importante. O respeito está no pensamento e não nas palavras. Tudo depende da intenção ligada ao caso, pois a esse respeito os usos não são os mesmos em todas as lín­guas. Pode-se, pois, tratar ou não os Espíritos por tu, conforme sua classe e o grau de intimidade que exista entre eles e nós, como faríamos com os nossos semelhantes. 

Se os Espíritos não ligam às palavras, gostam, entretanto, que se saiba o seu grau de condescendência, tanto em vir quanto em nos responder. Devemos, pois, agradecer-lhes, como também aos que se ligam a nós e nos protegem, o que constitui um meio para que continuem. Grave erro seria supor que a forma imperativa pode ter sobre eles alguma influência: é um meio infalível de afastar os Espíritos. Pedimos-lhes, mas não lhes orde­namos, pois que não se acham às nossas ordens; e tudo quanto denota orgulho os repe­le. Os próprios Espíritos familiares abandonam aqueles que os desamparam e se lhes mostram ingratos.

Mesmo quando não sejam de primeira categoria, nem por isso os Espíritos merecem menos a nossa consideração quando, sobretudo revelam uma relativa superioridade. Quanto aos Espíritos inferiores, seu caráter nos marca a linguagem que convém em seu trato. Entre estes alguns há que, posto inofensivos e até benevolentes, são levianos, igno­rantes e estouvados. Tratá-los como se fossem Espíritos sérios, como o fazem certas pessoas, seria o mesmo que ajoelhar-se diante de um escolar ou de um jumento enfeita­do com um capelo. O tom de familiaridade não lhes seria inadequado e eles não se for­malizam: ao contrário, prestam-se de boa vontade.

Entre os Espíritos inferiores alguns são infelizes. Sejam quais forem as faltas que ex­piam, seus sofrimentos são títulos tanto maiores à nossa comiseração que ninguém se pode gabar de escapar àquelas palavras do Cristo: “Aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra”. A benevolência que lhes testemunhamos lhes é um alívio; em falta de simpatia devem eles encontrar a indulgência que desejaríamos tivessem para conosco.

Os Espíritos que revelam sua inferioridade pelo cinismo da linguagem, pelas mentiras e pela baixeza de sentimentos ou pela perfídia de seus conselhos certamente são menos dignos de nosso interesse que aqueles cujas palavras denotam arrependimento. Deve­mos-lhes, ao menos, a piedade que temos pelos maiores criminosos; e o meio de os re­duzir ao silêncio é mostrarmo-nos superiores: pois eles só se entregam às pessoas das quais pensam que nada devem temer. É aqui o caso de falar com autoridade para os a­fastar, o que sempre se consegue por meio de uma vontade firme, intimando-os em nome de Deus e com o auxilio dos bons Espíritos. Eles se inclinam ante a superioridade moral, como um culpado ante o juiz. 

Em resumo, tanto seria irreverente tratar os Espíritos superiores de igual para igual, quanto seria ridículo ter para com todos, sem exceção, a mesma deferência. Tenhamos veneração aos que a merecem, reconhecimento aos que nos assistem e protegem e para com todos uma benevolência de que um dia talvez nós mesmos tenhamos necessidade. Penetrando no mundo incorpóreo teremos aprendido a conhecê-lo e esse conhecimento nos deve orientar em nossas relações com os que o habitam. Em sua ignorância os Anti­gos lhes levantaram altares; para nós eles apenas são criaturas mais ou menos perfeitas e não levantamos altares senão a Deus[2].



[1] Há em francês o verbo tutoyer, tratar por tu, isto é, tratar alguém na 2ª pessoa do singular. É um tratamento doméstico e de intimidade. Via de regra o francês emprega a 2ª pessoa do plural, forma pouquíssimo usada em português. Em nossa língua o interlocutor (2ª pessoa) é tratado por você, o senhor, a senhora, etc. que levam o verbo para a terceira pessoa. Os primeiros tradutores das obras de Kardec para a nossa língua sistematicamente passaram o vous francês para o inusitado vós português. Desacostumada e despreparada a massa espírita ficou usando o pronome na 2ª do plural, mas coloca quase sempre o verbo na 3ª do singular, ferindo terrivelmente os ouvidos edu­cados à boa linguagem. Por essas mesmas razões erram sistematicamente no emprego do impe­rativo negativo. São freqüentes as cacofonias vós deve, vós é, vós sabe, vós tem, etc. em vez do nosso habitual o sr. deve, a sra. é, o sr. sabe, a sra. tem, etc. E ainda: Não tende esperança, não insultai a Deus, não cuspi no prato, em vez de não tenhais esperança, não insulteis a Deus, não cuspais no prato. N. do T.

[2] Vide no vocabulário o verbete Politeísmo.


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