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Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas » Capítulo IV – Diferentes modos de comunicação » Psicografia

Como todas as outras ciências, a ciência espírita progrediu e mais rapidamente que aquelas: apenas alguns anos nos separam desses meios primitivos e incompletos que eram trivialmente chamados as mesas falantes; já hoje é possível comunicarmo-nos com os Espíritos tão facilmente e tão rapidamente quanto entre os homens, e pelos mesmos meios: a escrita e a palavra. Sobretudo a escrita tem a vantagem de acusar mais materi­almente a intervenção de uma força oculta e de deixar traços que podemos conservar, como fazemos com a nossa própria correspondência. O primeiro meio empregado foi o das pranchetas e das cestas, munidas de um lápis, meios indicados pelos próprios Espíri­tos.

Eis a Sua disposição.

No começo deste capítulo dissemos que uma pessoa dotada de uma aptidão especial pode imprimir um movimento de rotação a um objeto qualquer. Tomemos, por exemplo, uma pequena cesta de quinze a vinte centímetros de diâmetro (não importando que seja de madeira ou de vime, pois a substância é indiferente). Se então fizermos passar um lápis pelo seu fundo, fixando-o bem, com a ponta para fora e para baixo, e se manti­vermos o conjunto equilibrado sobre a ponta do lápis, colocada sobre uma folha de papel, pondo os dedos sobre a cesta, esta tomará movimento. Mas, em vez de girar como um pião, passeará o lápis em vários sentidos sobre o papel, de maneira a formar traços sem significação ou letras. Se um Espírito for evocado e quiser comunicar-Se, responderá, já não pelo sim ou pelo não, mas por palavras e frases completas.

Em tal dispositivo, ao chegar ao fim da linha, o lápis não voltará sobre si mesmo para escrever nova linha: continuará circularmente, de modo que a linha escrita formará uma espiral, o que exige que se faça girar a folha de papel, a fim de ler o que está escrito.

Nem sempre é legível a escrita assim obtida, pois as palavras não ficam separadas; mas o médium, por uma espécie de intuição, as decifra facilmente. Por uma questão de economia, pode substituir-se o papel e o lápis pela ardósia e lápis adequado. Designare­mos esta cesta pelo nome de cesta-pitorra.

Vários outros dispositivos foram imaginados, visando atingir o mesmo objetivo. A mais cômoda é a que chamaremos cesta de bico e que consiste em adaptar a uma cesta uma haste de madeira inclinada, com uma saliência de dez a quinze centímetros de um lado, na posição do mastro de proa (gurupé). Por um furo feito na ponta da haste ou bico faz-se passar um lápis suficientemente grande para que a sua ponta repouse sobre o papel. Pondo o médium os dedos sobre a cesta, todo o aparelho se agita e o lápis escreve como no caso anterior, com a diferença que a escrita é em geral mais legível, as palavras separadas e as linhas não são mais em espiral - seguem como na escrita comum e o lápis passa por si mesmo de uma a outra linha. Assim se obtêm dissertações de várias pági­nas, tão rapidamente quanto se fossem escritas à mão. 

A inteligência que age muitas vezes se manifesta por outros sinais inequívocos. Che­gando ao fim da página espontaneamente o lápis faz um movimento para voltá-la; se quer referir-se a uma passagem anterior, na mesma página ou em precedente, ela a procura com a ponta do lápis, como faríamos com os olhos, depois a sublinha. Se o Espírito quer dirigir-se a um dos presentes, para ele se volta a ponta da haste. Em resumo, ele exprime muitas vezes o sim e o não por sinais de afirmação ou de negação que fazemos com a cabeça. De todos os processos empregados este é o que dá a mais variada escrita, con­forme ao Espírito que se manifesta e, muitas vezes, uma escrita semelhante à que tinha em vida, caso tenha deixado a Terra há pouco tempo.

Em vez da cesta algumas pessoas se servem de uma espécie de pequena mesa feita especialmente, de doze a quinze centímetros de comprimento por cinco a seis de altura, com três pés, dos quais um munido de lápis. Outras se servem apenas de uma prancheta sem pés. Num de seus bordos há um furo para colocar o lápis. Posta para escrever, ela se acha inclinada e se apóia sobre o papel por um de seus lados. Aliás compreende-se que todas as disposições nada têm de absoluto: a mais cômoda é a melhor. 

Com todos esses aparelhos quase sempre são necessárias duas pessoas. Mas não é preciso que a segunda seja dotada de mediunidade, pois que seu papel apenas é o de manter o equilíbrio e diminuir a fadiga do médium. 

Chamamos psicografia indireta a escrita assim obtida, em oposição à psicografia dire-ta ou escrita obtida pela própria mão do médium. Para compreender esse último processo é necessário dar-se conta do que se passa nessa operação. O Espírito estranho que se manifesta age sobre o médium; este, sob a sua influência, dirige maquinalmente o braço e a mão para escrever, sem que, pelo menos no caso mais comum, tenha a menor cons­ciência do que escreve. A mão age sobre a cesta e esta sobre o lápis. Assim, não é a cesta que se torna inteligente: é um instrumento dirigido por uma inteligência; na reali­dade, não passa de um porta-lápis, de um apêndice da mão, um intermediário inerte entre a mão e o lápis. Suprima-se esse intermediário e coloque-se o lápis na mão e ter-se-á o mesmo resultado, com um mecanismo muito mais simples, pois que o médium escreve como o faria em condições normais. Assim, toda pessoa que escreve por meio da cesta, da prancheta ou de outro objeto, pode escrever diretamente. De todos os meios de co­municação é indubitavelmente o mais simples, o mais fácil e o mais cômodo, porque não exige qualquer preparação e, como a escrita comum, se presta aos mais extensos desen­volvimentos. Voltaremos ao assunto quando falarmos dos médiuns.

A pneumatografia é a escrita direta dos Espíritos. Quando esse fenômeno apareceu pela primeira vez - ao menos em nosso tempo, pois nada prova que não tenha sido co­nhecido na Idade Média, bem como todos os outros gêneros de manifestações - levantou dúvidas muito naturais. Hoje, porém, é um fato inconteste. Alguém muito digno de fé afir­mou-nos que um cônego amigo de seus pais, de parceria com o Abade Faria, obtinha esse gênero de escrita em Paris, desde o ano de 1804. O Barão de Guldenstubbe acaba de publicar a respeito uma obra muito interessante, acompanhada de numerosos autógra­fos dessa escrita. De certo modo foi ele quem a pôs em evidência e muitas outras pesso­as, depois dele, têm obtido os mesmos resultados. A princípio foi colocada uma folha de papel e um lápis sobre um túmulo, sob a estátua ou o retrato de uma pessoa qualquer; no dia seguinte, por vezes apenas algumas horas depois, sobre o papel aparecia um nome, uma sentença, quando não alguns sinais ininteligíveis.. É evidente que nem o túmulo, nem a estátua ou o retrato tinham diretamente qualquer influência por si mesmos: era simplesmente um meio de evocação pelo pensamento. Agora contentamo-nos com deixar o papel, com ou sem lápis, numa gaveta ou numa caixa, que podem ser fechadas a cha­ve, tomando todas as precauções necessárias a fim de evitar toda fraude e obteremos o mesmo resultado evocando o Espírito. 

Inquestionavelmente este fenômeno é um dos mais extraordinários que apresentam as manifestações espíritas e um dos que atestam de maneira peremptória a intervenção de uma inteligência oculta; mas não poderia substituir a psicografia, pelo menos até ago­ra, para os desenvolvimentos que certos assuntos comportam. Assim também se obtém a expressão de um pensamento espontâneo, mas parece que se presta mais dificilmente a entretenimentos e a uma rápida troca de idéias que comporta outro meio. Aliás este modo é de obtenção mais rara, ao passo que os médiuns escreventes são muito numerosos.

A princípio parece difícil darmos conta de um fato tão anormal. Não cabe no nosso plano desenvolvê-lo aqui, porque seria preciso remontar às fontes de outros fenômenos dos quais é conseqüência. A explicação completa será encontrada na REVISTA ESPÍRI­TA e ver-se-á que, por uma dedução lógica, a ele se chega como a um resultado muito natural.

Enfim os Espíritos nos transmitem seu pensamento pela voz de certos médiuns dota-dos para tanto de uma faculdade especial, que denominamos psicofonia. Esse meio tem todas as vantagens de psicografia pela rapidez e extensão dos desenvolvimentos. Ele agrada muito aos Espíritos superiores, mas talvez tenha, para as pessoas que duvidam, o inconveniente de não acusar de modo muito evidente a intervenção de uma inteligência estranha. Convém, sobretudo, aos que, já suficientemente edificados sobre a realidade dos fatos, dele se servem para a complementação de seus estudos e não necessitam aumentar a sua convicção.

Acabamos de esboçar os diversos meios de comunicação direta com os espíritos. De­signamo-los por nomes característicos, que lhes abarcam todas as variedades e, até, to­das as nuanças, assim permitindo que melhor se os entendam do que por perífrases, que nada têm de fixo nem de metódico. No princípio das manifestações, quando a respeito as idéias eram menos precisas, foram publicados vários escritos com estas denominações: Comunicações de uma cesta, por uma prancheta, pelas mesas falantes, etc. Hoje com­preende-se tudo quanto essas expressões encerram de insuficiente e de errôneo, abstra­ção feita de seu caráter pouco sério. Com efeito, como acabamos de ver, as mesas, pran­chetas e cestas não passam de instrumentos inertes, que nada podem comunicar por si mesmos. Nisso tomam o efeito pela causa, o instrumento pelo principio. Seria o mesmo para um autor declarar no titulo de uma obra que a tinha escrito com uma pena metálica ou com uma pena de pato. Esses instrumentos aliás não são absolutos: conhecemos al­guém que, em vez da cesta-pitorra, já descrita, servia-se de um funil, por cujo bico passava um lápis. Assim, poder-se-iam ter tido comunicações de um funil, tanto quanto de uma caçarola ou uma saladeira. Se elas se dão por meio de golpes, e se estes são dados por uma cadeira ou por uma bengala, já não é mais uma mesa falante, mas uma cadeira ou uma bengala falante. O que importa conhecer não é a natureza do instrumento, mas o modo de obtenção. Se a comunicação se dá pela escrita, seja qual for o porta-lápis, é para nós psicografia. Se por batidas, é tiptologia. Tomando as proporções de uma ciência, o Espiritismo necessita de uma linguagem científica.  


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