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O Livro dos Espíritos » Parte Quarta - Das esperanças e consolações » Capítulo II - Das penas e gozos futuros » Expiação e arrependimento

Expiação e arrependimento

 

990. O arrependimento ocorre no estado corporal ou no estado espiritual?

“No estado espiritual; mas ele pode também ocorrer no estado corporal quando compreendeis bem a diferença entre o bem e o mal.”

991. Qual é a consequência do arrependimento no estado espiritual?

“O desejo de uma nova encarnação para se purificar. O Espírito compreende as imperfeições que o impedem de ser feliz, por isso aspira a uma nova existência em que poderá expiar suas faltas.” (332 - 975)

992. Qual é a consequência do arrependimento no estado corporal?

“Avançar, desde a vida presente, se houver tempo de reparar suas faltas. Quando a consciência lhe faz uma reprimenda e lhe mostra uma imperfeição, a pessoa pode sempre se melhorar.”

993. Não há homens que só têm o instinto do mal e são inacessíveis ao arrependimento?

“Eu te disse que o Espírito deve progredir sem cessar. Aquele que, nesta vida, só tem o instinto do mal, terá o do bem numa outra, por isso é que ele renasce muitas vezes; é preciso que todos avancem e atinjam o objetivo, sendo que uns o fazem num tempo mais curto e os outros num tempo mais longo, conforme o desejo de cada um; aquele que tem unicamente o instinto do bem já está depurado, pois talvez tenha tido o do mal numa existência anterior.” (894)

994. O homem perverso que não reconheceu suas faltas durante a vida, sempre as reconhece depois da morte?

“Sim, ele as reconhece sempre, e então sofre mais, pois sente todo o mal que fez ou de que foi voluntariamente a causa. No entanto, o arrependimento nem sempre é imediato; há Espíritos que se obstinam no mau caminho apesar de seus sofrimentos; porém, cedo ou tarde eles reconhecerão a falsa rota que tomaram e o arrependimento virá. É para esclarecê-los que trabalham os bons Espíritos, e que vós mesmos podeis trabalhar.”

995. Há Espíritos que, sem serem maus, são indiferentes quanto à própria sorte?

“Há Espíritos que não se ocupam com nada útil: ficam na expectativa; mas, nesse caso, eles sofrem proporcionalmente; como deve haver progresso em tudo, neles o progresso se manifesta pela dor.”

— Eles não desejam abreviar seus sofrimentos?

“Certamente desejam, mas não têm energia bastante para quererem o que os poderia aliviar. Quantas pessoas não há entre vós que preferem morrer de miséria a trabalhar?”

996. Uma vez que os Espíritos veem o mal que suas imperfeições lhes causam, como se explicar que haja os que agravam sua posição e prolongam seu estado de inferioridade fazendo o mal como Espíritos, desviando os homens do bom caminho?

“Assim agem aqueles cujo arrependimento é tardio. O Espírito que se arrepende pode em seguida se deixar arrastar novamente para a via do mal por outros Espíritos ainda mais atrasados.” (971)

997. Veem-se Espíritos de uma inferioridade notória acessíveis aos bons sentimentos e tocados pelas preces feitas em favor deles. Como se explica que outros Espíritos, que deveríamos supor serem mais esclarecidos, revelem um endurecimento e um cinismo dos quais nada consegue triunfar?

“A prece só tem efeito em favor do Espírito que se arrepende; àquele que, impelido pelo orgulho, se revolta contra Deus e persiste nos seus desvarios e ainda os exagera, como o fazem alguns infelizes Espíritos, a prece nada pode e nada poderá, senão no dia em que um clarão de arrependimento se manifestar nele.” (664)

Não se deve perder de vista que o Espírito, após a morte do corpo, não se transforma subitamente; se sua vida foi repreensível, é porque ele era imperfeito; ora, a morte não o torna imediatamente perfeito; ele pode persistir em seus erros, em suas falsas opiniões, em seus preconceitos, até que se tenha esclarecido pelo estudo, pela reflexão e pelo sofrimento.

998. A expiação se cumpre no estado corporal ou no estado de Espírito?

“A expiação se cumpre durante a existência corporal pelas provas às quais o Espírito está submetido, e na vida espiritual pelos sofrimentos morais inerentes ao estado de inferioridade do Espírito”

999. O arrependimento sincero durante a vida é suficiente para apagar as faltas do culpado para que ele possa encontrar graça diante de Deus?

“O arrependimento ajuda no melhoramento do Espírito, mas o passado deve ser expiado.”

— Se, com base nisso, um criminoso dissesse que, uma vez que precisa expiar seu passado de qualquer maneira, não precisa se arrepender, o que lhe adviria daí?

“Sua expiação será mais longa e mais penosa, se ele se obstinar no mal.”

1000. Nós podemos, desde esta vida, resgatar nossas faltas?

“Sim, reparando-as; mas não creiais resgatá-las por algumas privações pueris, ou deixando o que possuís para que seja doado após vossa morte, quando de nada mais precisais. Deus não leva em conta um arrependimento estéril, sempre fácil, que custa apenas o esforço de bater no peito. A perda de um dedo mínimo, ao prestar um serviço, apaga mais faltas do que o cilício suportado durante anos sem outro objetivo senão a si mesmo. (726)

“O mal não é reparado senão pelo bem, e a reparação nenhum mérito tem senão atingir o homem nem em seu orgulho, nem em seus interesses materiais.

“De que lhe serve, para sua justificação, restituir os bens mal adquiridos, depois da morte, quando se lhe tornaram inúteis e deles já se aproveitou?

“De que lhe serve a privação de alguns gozos fúteis e de algumas superfluidades, se o mal que fez a outrem permanece o mesmo?

“De que lhe serve, enfim, humilhar-se diante de Deus, se conserva seu orgulho diante dos homens?” (720 - 721)

1001. Não haverá nenhum mérito em assegurar, para depois de nossa morte, um emprego útil aos bens que possuímos?

“Nenhum mérito não é bem o termo; isso sempre vale mais do que nada; porém, a desgraça é que aquele que só dispõe de seus bens depois da morte é quase sempre mais egoísta do que generoso; ele quer ter a honra do bem sem o esforço de praticá-lo. Aquele que se priva, quando vivo, tem duplo proveito: o mérito do sacrifício e o prazer de ver felizes aqueles a quem beneficia. Mas aí está o egoísmo a lhe dizer: O que dás, é um tanto que retiras de teus gozos; e como o egoísmo grita mais forte do que o desinteresse e a caridade, ele guarda, sob pretexto de suas necessidades e das exigências de sua posição. Ah! Lamentai aquele que não conhece o prazer de dar; ele está verdadeiramente privado de um dos mais puros e dos mais suaves gozos. Deus, ao submetê-lo à prova da fortuna, tão escorregadia e tão perigosa para seu futuro, quis dar-lhe por compensação a felicidade propiciada pela generosidade, da qual ele pode gozar desde já, neste mundo.” (814)

1002. O que deve fazer aquele que, à beira da morte, reconhece suas faltas, mas não tem tempo de repará-las? O arrependimento basta nesse caso?

“O arrependimento apressa sua reabilitação, mas não o absolve. Não tem ele o futuro diante de si que jamais se fecha para ele?”


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