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O Livro dos Espíritos » Parte Terceira - Das leis morais » Capítulo I - Da lei divina ou natural » Conhecimento da lei natural

Conhecimento da lei natural

 

619. Deus deu a todos os homens os meios de conhecer sua lei?

“Todos podem conhecê-la, mas nem todos a compreendem; os que melhor a compreendem são os homens de bem e aqueles que querem buscá-la; no entanto, todos a compreenderão um dia, pois é preciso que o progresso se realize.”

A justiça das diversas encarnações do homem é uma consequência desse princípio, pois a cada nova existência sua inteligência se encontra mais desenvolvida e ele compreende melhor o que é bem e o que é mal. Se tudo devesse se realizar para ele numa só existência, qual seria a sorte de tantos milhões de seres que morrem a cada dia no embrutecimento da selvageria, ou nas trevas da ignorância, sem que tenha dependido deles esclarecer-se? (171 - 222)

620. Antes de sua união com o corpo, a alma compreende a lei de Deus melhor do que após sua encarnação?

“Ela a compreende segundo o grau de perfeição a que chegou, e conserva a lembrança intuitiva dela após sua união com o corpo; porém, os maus instintos do homem com frequência a fazem esquecê-la.”

621. Onde está escrita a lei de Deus?

“Na consciência.”

— Visto que o homem leva em sua consciência a lei de Deus, que necessidade havia de revelá-la a ele?

“Ele a esquecera e desprezara: Deus quis que ela lhe fosse lembrada.”

622. Deus deu a certos homens a missão de revelar sua lei?

“Sim, certamente; em todos os tempos, houve homens que receberam essa missão. São Espíritos superiores encarnados com o objetivo de fazer com que a humanidade progrida.”

623. Aqueles que pretenderam instruir os homens na lei de Deus não se teriam enganado algumas vezes, fazendo-os com frequência transviar-se por meio de falsos princípios?

“Aqueles que não eram inspirados por Deus, e que, por ambição, atribuíram a si mesmos uma missão que não tinham, certamente puderam transviar os homens; no entanto, como em definitivo eram homens de gênio, mesmo em meio aos erros que ensinaram se encontram muitas vezes grandes verdades.”

624. Qual é o caráter do verdadeiro profeta?

“O verdadeiro profeta é um homem de bem inspirado por Deus. Pode-se reconhecê-lo por suas palavras e suas ações. Deus não pode servir-se da boca do mentiroso para ensinar a verdade.”

625. Qual é o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem para lhe servir de guia e de modelo?

— Vede Jesus.

Jesus é para o homem o tipo da perfeição moral à qual a humanidade pode almejar na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo, e a doutrina que ele ensinou é a mais pura expressão de sua lei, porque animado pelo espírito divino e o ser mais puro que apareceu na Terra.

Se alguns daqueles que pretenderam instruir o homem na lei de Deus algumas vezes o transviaram por falsos princípios, é por se terem deixado dominar eles próprios por sentimentos muito terrestres, e por terem confundido as leis que regem as condições da vida da alma com aquelas que regem a vida do corpo. Muitos deram como leis divinas o que eram apenas leis humanas criadas para servir às paixões e dominar os homens.

626. As leis divinas e naturais foram reveladas aos homens somente por Jesus? Antes dele, só se tinha conhecimento delas pela intuição?

“Já não dissemos que elas estão escritas por toda parte? Todos aqueles que meditaram sobre a sabedoria puderam compreendê-las e ensiná-las desde os séculos mais remotos. Por seus ensinamentos, mesmo incompletos, eles prepararam o terreno para receber a semente. Estando as leis divinas inscritas no livro da natureza, o homem pôde conhecê-las quando quis buscá-las; por isso é que os preceitos que elas consagram foram, desde todos os tempos, proclamados pelos homens de bem, e é também por isso que seus elementos são encontrados na doutrina moral de todos os povos saídos da barbárie, mas incompletos ou alterados pela ignorância ou pela superstição.”

627. Visto que Jesus ensinou as verdadeiras leis de Deus, qual é a utilidade do ensinamento dado pelos Espíritos? Têm eles mais alguma coisa a nos ensinar?

“Os ensinos de Jesus muitas vezes eram dados em linguagem alegórica e em parábolas, porque ele falava segundo os tempos e os lugares. É preciso agora que a verdade seja inteligível para todo mundo. É preciso bem explicar e desenvolver essas leis, uma vez que há tão poucas pessoas que as compreendem e, menos ainda, que as praticam. Nossa missão consiste em impressionar os olhos e os ouvidos para confundir os orgulhosos e desmascarar os hipócritas: aqueles que afetam as aparências da virtude e da religião para esconder suas torpezas. O ensino dos Espíritos deve ser claro e sem equívocos, a fim de que ninguém possa pretextar ignorância e cada um possa julgá-lo e apreciá-lo com a razão. Nós somos encarregados de preparar o reino do bem anunciado por Jesus; por isso não é lícito que cada um interprete a lei de Deus ao sabor de suas paixões, nem falsear o sentido de uma lei toda de amor e de caridade.”

628. Por que a verdade não foi sempre posta ao alcance de todo mundo?

“É preciso que cada coisa venha a seu tempo. A verdade é como a luz: é preciso habituar-se a ela pouco a pouco, senão ela ofusca.”

“Jamais Deus permitira ao homem receber comunicações tão completas e tão instrutivas quanto essas que lhe é dado receber hoje. Havia, como bem sabeis, em tempos antigos, alguns indivíduos que possuíam o que eles consideravam uma ciência sagrada, da qual faziam mistério para aqueles que, segundo eles, eram profanos. Deveis compreender, pelo que conheceis das leis que regem esses fenômenos, que eles recebiam apenas algumas verdades esparsas dentro de um conjunto equívoco e, na maioria das vezes, emblemático. No entanto, para o estudioso não há nenhum antigo sistema filosófico, nenhuma tradição, nenhuma religião a negligenciar, pois em tudo há germes de grandes verdades que, embora parecendo contraditórias umas com as outras, esparsas que se acham em meio de acessórios sem fundamento, são fáceis de coordenar, graças à explicação que o Espiritismo vos dá de uma imensidade de coisas que puderam, até aqui, parecer sem razão e cuja realidade vos é hoje demonstrada de maneira irrecusável. Não negligencieis, pois, em buscar nesses materiais assuntos de estudo; eles são muito ricos e podem contribuir poderosamente para vossa instrução.”


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