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Viagem Espírita em 1862 » Instruções particulares dadas aos grupos em resposta a algumas das questões propostas » IX

IX

Como se pode explicar esta passagem do Evangelho: “Haverá falsos profetas e falsos Cristos que farão grandes prodígios e coisas espantosas capazes de seduzir, se possível, os próprios eleitos?” Os detratores do Espiritismo fazem disso uma arma contra os espíritas e os médiuns.

 

Se se levantassem todas as palavras que no Evangelho podem condenar os adversários do Espiritismo, com elas se faria um volume. É, pois, no mínimo imprudente levantar uma questão que podemos lhes devolver, ainda mais sendo ela totalmente a favor do Espiritismo. 

Primeiro, nem os espíritas nem os médiuns se fazem passar por Cristos, nem por profetas; eles declaram que não fazem milagres para impressionar os sentidos, e que todos os fenômenos tangíveis que se produzem por sua influência são efeitos que podem ser explicados pelas leis naturais, o que não é próprio dos milagres; portanto, se eles quisessem usurpar os privilégios dos profetas, não se teriam privado do mais poderoso prestígio: o dom dos milagres. Ao darem a explicação desses fenômenos que, sem isso, poderiam ter passado por sobrenaturais aos olhos do vulgo, eles matam a falsa ambição que poderia explorá-los em benefício próprio.

Supondo que um homem atribua a si mesmo a qualidade de profeta, não é fazendo o que fazem os médiuns que ele o provará, e nenhum Espírita esclarecido se deixará enganar. A esse título, o senhor Home, se fosse charlatão e ambicioso, poderia ter-se dado ares de um enviado celeste. Qual é então o caráter do verdadeiro profeta? O verdadeiro profeta é um enviado de Deus para advertir ou esclarecer a Humanidade; ora, um enviado de Deus só pode ser um Espírito superior e, como homem, um homem de bem; ele será reconhecido por seus atos, que terão o cunho de sua superioridade, e pelas grandes coisas que realizará para o bem e pelo bem, e cuja missão será revelada principalmente às gerações futuras, pois ele, quase sempre conduzido sem o saber por uma potência superior, geralmente ignora a si próprio. Portanto, ele mesmo não se dará essa qualidade; são os homens que o reconhecerão como tal, frequentemente após sua morte.

Se, pois, um homem quisesse se fazer passar pela encarnação de tal ou tal profeta, ele deveria prová-lo pela eminência de suas qualidades morais, que não deveriam ficar nada a dever às qualidades daquele cujo nome ele se atribui. Ora, esse papel não é fácil de manter, e nem sempre muito agradável, porque pode exigir penosas privações e duros sacrifícios, mesmo o da vida. Há neste momento pelo mundo vários pretensos Elias, Jeremias, Ezequiéis ou outros que se adaptariam muito pouco à vida do deserto, e acham muito cômodo viver às custas daqueles aos quais enganam, graças ao nome emprestado. Há mesmo vários Cristos, como houve vários Luís XVII, aos quais não falta senão uma coisa: a caridade, a abnegação, a humildade, a eminente superioridade moral, numa palavra, todas as virtudes do Cristo. Se não soubessem, como ele, onde pousar a cabeça, e se tivessem que encarar uma cruz, abdicariam bem depressa de uma realeza tão pouco proveitosa neste mundo. É pela obra se reconhece o obreiro; que aqueles pois que querem colocar-se acima da Humanidade se mostrem dignos disso, se não quiserem ter a sorte do galo enfeitado com as penas do pavão, ou do burro revestido da pele do leão; uma queda humilhante os espera neste mundo, e um fracasso mais terrível no outro, pois é lá que todo aquele que se eleva será abaixado.

Suponhamos agora que um homem dotado de um grande poder medianímico ou magnético queira atribuir-se a qualidade de profeta ou de Cristo, ele fará prodígios de seduzir mesmo os eleitos, ou seja, alguns homens bons e de boa-fé; ele terá a aparência, mas terá as virtudes? Eis aí a verdadeira pedra de toque.

O Espiritismo diz também: Desconfiai dos falsos profetas! e vem arrancar-lhes a máscara; é preciso que se saiba que ele repudia toda hipocrisia, e não cobre com seu manto nenhum dos abusos que se poderiam cometer em seu nome.


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