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Viagem Espírita em 1862 » Instruções particulares dadas aos grupos em resposta a algumas das questões propostas » VI

VI

Há uma coisa ainda mais nociva ao Espiritismo do que os ataques apaixonados de seus inimigos, é o que pretensos adeptos publicam sob seu nome. Certas publicações são evidentemente lamentáveis, porque não podem dar dele senão uma ideia falsa e prestar-se ao ridículo. Pergunta-se por que Deus permite essas coisas e não ilumina todos os homens com a mesma luz? Há algum meio de remediar esse inconveniente, que nos parece um dos maiores escolhos da doutrina?

 

Esta questão é grave e pede alguns desenvolvimentos. Direi primeiro que não há uma ideia nova, sobretudo quando se tem alguma importância, que não encontre obstáculos; o próprio cristianismo não foi golpeado em seu chefe, tratado de impostor; em seus primeiros apóstolos; e entre seus próprios propagadores não encontrou ele crianças terríveis? Por que então o Espiritismo seria privilegiado?

Direi em seguida que aquilo que vedes como um mal é, em última análise, um bem; para compreender, não se deve olhar apenas o presente, é preciso acima de tudo ver o futuro. A humanidade é afligida por vários males que a corroem e que têm sua origem no orgulho e no egoísmo. Esperais curá-la instantaneamente? Credes que essas paixões que reinam soberanas vão se deixar destronar facilmente? Não; elas levantam a cabeça para morder aqueles que vêm perturbá-las em sua quietude. Tal é, não duvideis, a causa de certas oposições; a moral do Espiritismo não convém a todo o mundo; não ousando atacá-la, ataca-se a fonte.

Sem dúvida o Espiritismo fez inúmeros milagres de reformas morais, mas pensar que essa transformação pode ser súbita e universal seria não conhecer a humanidade. Entre os crentes há os que, como disse, veem do Espiritismo apenas a superfície, que não compreendem seu objetivo essencial; seja por falta de julgamento, seja por orgulho, eles não aceitam a não ser o que os lisonjeia, e repelem o que os humilha. Não é de espantar pois que espíritas o tomem a contrassenso. Isso pode ser lamentável para o presente, mas digo que não tem consequência para o futuro. 

Perguntais por que Deus não impede os erros? Perguntai-lhe então por que ele não criou os homens perfeitos, em vez de lhes deixar a dificuldade e o mérito de se aperfeiçoarem; por que ele não fez nascer a criança adulta, racional, esclarecida, em vez de deixá-la adquirir experiência da vida; por que a árvore não atinge seu crescimento senão após longos anos, e o fruto a madureza apenas quando chega a época? Perguntai-lhe por que o Cristianismo, que é sua lei e sua obra, sofreu tantas flutuações desde o berço; por que permitiu que os homens se servissem de seu nome sagrado para cometer tantos abusos, mesmo crimes, e derramar tanto sangue? Nada se faz bruscamente na natureza; tudo caminha gradualmente segundo as leis imutáveis do Criador, e essas leis conduzem sempre ao objetivo que Ele se propôs. Ora, a humanidade, na terra, é ainda jovem, apesar da pretensão de seus doutores. O Espiritismo, também ele, mal nasceu; cresce depressa, como vedes, e goza de bela saúde; mas dai-lhe tempo de atingir a idade viril. Eu disse também que os desvios de que vos queixais têm seu lado bom; são os próprios Espíritos que o vêm explicar. Eis uma passagem de uma comunicação dada a esse respeito:

“Os espíritas esclarecidos devem felicitar-se pelo fato de as ideias falsas e contraditórias se mostrarem no início, porque elas são combatidas, se arruinam e se esgotam durante o período da infância do Espiritismo. Uma vez purgado de todas essas coisas más, ele brilhará com vigor mais vivo, e caminhará com passo mais firme quando tiver alcançado todo seu desenvolvimento.”

A esta judiciosa apreciação, acrescento que é como a criança que faz diabruras e depois se comporta bem. Mas, para avaliar o efeito dessas dissidências, basta observar o que acontece. Sobre o que elas se apoiam? Sobre opiniões individuais, que podem atrair algumas pessoas, porque não há ideia, por mais absurda que seja, que não encontre partidários; mas avalia-se seu valor pela preponderância que ela adquire; ora, onde vedes que aquelas de que falamos tenham adquirido a menor preponderância? Onde vedes que elas tenham feito escola, ameaçando pelo número dos aderentes a bandeira que adotastes? Em nenhum lugar; longe disso, as ideias divergentes veem incessantemente seus partidários diminuir para se reunirem à unidade que comanda a imensa maioria, se ainda não for a unanimidade. De todos os sistemas que eclodiram na origem das manifestações, quantos ficaram de pé? Entre esses sistemas há um que, numa certa cidade, alcançara, há poucos anos, proporções bastante grandes; contai seus aderentes hoje. Credes que se estivesse com a verdade, ele não teria crescido e absorvido seus concorrentes? Em semelhante caso, o assentimento do número é um indício que não pode enganar. Quanto a mim, declaro-vos que se a doutrina da qual me fiz propagador fosse rejeitada de maneira unânime; se, em vez de crescer, eu a tivesse visto declinar; se uma outra teoria mais racional tivesse conquistado mais simpatias e demonstrado peremptoriamente seu erro, eu veria como orgulhosa puerilidade agarrar-me a uma ideia falsa; isso porque, antes de tudo, a verdade não pode ser uma questão pessoal e de amor-próprio, e eu seria o primeiro a dizer-vos: “Meus irmãos, eis a luz, segui-a; eu vos dou o exemplo.”

Ademais, o erro quase sempre traz consigo seu remédio, e seu reino não pode ser eterno; cedo ou tarde, enceguecido por alguns sucessos efêmeros, é tomado por uma espécie de vertigem, dá de cabeça abaixada em aberrações que precipitam sua queda. Isto é verdade do grande ao pequeno. Deplorais as excentricidades de certos escritos publicados sob o manto do Espiritismo; ao contrário, deveríeis bendizê-los, pois é por seus próprios excessos que o erro se perde. O que vos impressionou nesses escritos? O que foi para vós uma causa de repulsa, e quase sempre vos impediu de ir até o fim, senão o que chocou violentamente vosso bom senso? Se a falsidade das ideias não tivesse sido tão evidente, tão chocante, talvez não a tivésseis percebido, e talvez vós mesmo vos teríeis deixado apanhar, ao passo que ficastes impressionados pelos erros manifestos que são seu antídoto.

Esses erros quase sempre vêm de Espíritos levianos, sistemáticos ou pseudo-sábios que se comprazem em fazer editar seus devaneios e suas utopias; para isso se utilizam de homens que conseguem manipular a ponto de fazê-los aceitar, de olhos fechados, tudo o que lhes contam, graças a alguns bons grãos misturados ao joio. No entanto, como esses Espíritos não possuem o verdadeiro saber nem a verdadeira sabedoria, não podem sustentar por muito tempo seu papel, e sua ignorância os trai. Deus permite que deslizem nas suas comunicações erros tão grosseiros, coisas tão absurdas e mesmo tão ridículas, ideias que as mais vulgares noções da ciência demonstram de tal modo a falsidade, que elas matam o sistema e o livro. 

Sem qualquer dúvida, seria preferível que fossem publicadas apenas boas coisas, mas, visto que não é assim, não receeis a influência dessas obras no futuro; elas podem momentaneamente lançar um fogo de palha, mas quando não se apoiam numa lógica rigorosa, ao fim de alguns anos, e mesmo de alguns meses, vereis o que elas se tornaram. Em tal caso os livreiros têm um termômetro infalível. 

Isso me leva a dizer algumas palavras a respeito da publicação das comunicações medianímicas.

Tanto a publicação pode ser útil, se for feita com discernimento, quanto pode ser prejudicial em caso contrário. Dentre as comunicações, há as que, por melhores que sejam, não interessam senão àquele que as obtém, e seriam apenas banalidades para os leitores estranhos; outras não têm interesse a não ser pelas circunstâncias em que foram dadas, e sem o conhecimento das quais seriam insignificantes; isto não teria inconveniente senão para o bolso do editor. Por outro lado, há as comunicações que são francamente más como fundo e como estilo, e que, sob nomes respeitáveis apócrifos, contêm coisas absurdas ou triviais, o que muito naturalmente se presta ao ridículo e dá armas à crítica. É ainda pior quando, sob o manto desses mesmos nomes, elas formulam sistemas excêntricos ou grosseiras heresias científicas. Não haveria nenhum inconveniente em publicar essas espécies de comunicações se fossem acompanhadas de comentários, seja para refutar os erros, seja para lembrar que elas são a expressão de uma opinião individual cuja responsabilidade não se assume; elas poderiam mesmo ter um lado instrutivo ao mostrar a que aberrações de ideias se entregam certos Espíritos; mas publicá-las pura e simplesmente, é dá-las como a expressão da verdade e garantir a autenticidade de assinaturas que o bom senso não pode admitir: aí está o inconveniente. Tendo os Espíritos seu livre-arbítrio e sua opinião sobre os homens e as coisas, compreende-se que há aqueles que a prudência e as conveniências mandam afastar. No interesse da doutrina, convém então fazer uma escolha bastante severa em semelhante caso, e afastar com cuidado tudo o que pode, por uma causa qualquer, produzir uma má impressão. O médium que se conformasse a essa regra, poderia fazer uma coletânea muito instrutiva, que seria lida com interesse; porém, publicando tudo o que obtém, sem método e sem discernimento, poderia publicar vários volumes detestáveis cujo menor inconveniente seria não serem lidos. 

É preciso que se saiba que, se o Espiritismo sério apoia com alegria e solicitude toda obra feita em boas condições, venha de onde vier, ele repudia todas essas publicações excêntricas. Todos os espíritas de coração que não querem que a doutrina seja comprometida devem apressar-se a desacreditá-las, até porque, se há as que são feitas de boa-fé, outras podem ser obra dos próprios inimigos do Espiritismo, com vistas a desacreditá-lo e dar motivo a acusações contra ele; por isso, repito, é necessário que se conheça o que ele aceita e o que ele rejeita.


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