IV
Visto que o Espiritismo torna os homens melhores e leva a crer em Deus, na alma e na vida futura aqueles que não acreditavam nisso, ele não pode fazer senão o bem; por que então tem inimigos, e por que aqueles que não creem nele não o deixam tranquilo?
O Espiritismo tem inimigos, como toda nova ideia. Uma ideia que se estabelecesse sem oposição seria um fato miraculoso; há mais: quanto mais ela for falsa e absurda, menos adversários encontrará, ao passo que mais os encontrará quanto mais verdadeira, mais justa e mais útil ela for. Isto é uma consequência natural do estado atual da humanidade. Toda ideia nova vem necessariamente suplantar uma ideia antiga; se ela é falsa, ridícula ou impraticável, ninguém se preocupa, pois instintivamente compreende-se que ela não tem vitalidade, e deixam-na entregue à morte natural; se ela é justa e fecunda, assusta aqueles que, por uma razão qualquer, orgulho ou interesse material, estão interessados na manutenção da antiga; estes a combaterão tanto mais quanto mais temível ela lhes parecer. Vede a história, a indústria, as ciências, as religiões, e em toda parte encontrareis a aplicação desse princípio. Mas a história também vos diz que contra a verdade absoluta nada pode prevalecer; ela se estabelece, bom grado, mau grado, quando os homens estão maduros para a aceitar; é preciso então que seus adversários a ela se conformem, uma vez que não podem fazer de outra maneira; e, coisa bizarra, amiúde eles se vangloriam de terem tido essa ideia primeiro.
Pode-se geralmente julgar a importância de uma coisa pela oposição que ela suscita. Suponhamos que, chegando a um país desconhecido, ficásseis sabendo que se preparam para repelir o inimigo que quer invadi-lo; ora, se enviarem à fronteira apenas quatro homens e um cabo, julgareis que o inimigo não é muito temível; será completamente diferente se virdes dirigir contra ele numerosos batalhões com todos os equipamentos de guerra. Assim acontece com as ideias novas. Emiti um sistema francamente ridículo e impossível, tocando os maiores interesses da sociedade, ninguém pensará em combatê-lo. Se, ao contrário, esse sistema é fundado na lógica e no bom senso, se recruta aderentes, se as pessoas inteligentes se comovem, todos os que vivem segundo a antiga ordem de coisas dirigem contra ele suas mais formidáveis baterias. Tal é a história do Espiritismo; aqueles que o combatem com mais veemência, não o atacam por ser uma ideia falsa, porque então nos perguntaríamos por que eles deixam passar tantas outras sem dizer nada? Mas é porque ele lhes dá medo; ora, não se tem medo de um mosquito, embora às vezes se veja um mosquito vencer um leão.
Notai a sabedoria providencial em todas as coisas: jamais uma ideia nova, de certa importância, explode subitamente com toda a sua força; ela aumenta, e pouco a pouco se infiltra nos hábitos. É o que ocorre com o Espiritismo, que podemos chamar, sem presunção: a ideia capital do século dezenove. Ver-se-á mais tarde se nos enganamos. Começou pelo inocente fenômeno das mesas girantes; era um infante com o qual seus mais rudes adversários brincaram e, graças ao divertimento, ele penetrou em toda parte; e cresceu depressa. Hoje é homem e tomou seu lugar no mundo filosófico; não se brinca mais com ele: discute-se sobre ele, combatem-no; se fosse mentira, utopia, não teria saído de seus cueiros.