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Viagem Espírita em 1862 » Instruções particulares dadas aos grupos em resposta a algumas das questões propostas » III

III

 

Algumas pessoas veem no Espiritismo um perigo para as classes pouco esclarecidas, as quais, não podendo compreendê-lo em sua essência pura, poderiam desnaturar seu espírito e fazê-lo degenerar em superstição. O que lhes responder?

 

Poder-se-ia dizer o mesmo das coisas mais úteis, e se fosse preciso suprimir tudo aquilo de que se pode fazer mau uso, não sei bem o que restaria, a começar pela imprensa, com a ajuda da qual se podem espalhar doutrinas perniciosas, a leitura, a escrita etc. Poder-se-ia mesmo perguntar a Deus por que ele deu uma língua a certas pessoas. Abusa-se de tudo, mesmo das coisas mais santas. Se o Espiritismo tivesse saído da classe ignorante, sem dúvida se teriam misturado a ele muitas superstições, mas ele nasceu na classe esclarecida, e foi apenas depois de ter sido aí elaborado e purificado que ele penetrou nas camadas inferiores, onde chega livre, pela experiência e a observação, de toda má mistura. O que pode ser verdadeiramente perigoso para o vulgo, é o charlatanismo; portanto, não seriam demais os cuidados a tomar para combater, por todos os meios possíveis, a exploração, fonte inevitável de abusos.

Não estamos mais no tempo dos párias para as luzes, em que se dizia: isto é bom para uns, isto é bom para outros. A luz penetra na oficina e até na choupana, à medida que o sol da inteligência se levanta no horizonte e dardeja raios mais ardentes. As ideias espíritas seguem o movimento; elas estão no ar, e ninguém pode detê-las; necessário é dirigir-lhes o curso. O ponto capital do Espiritismo é o lado moral; eis o que é preciso esforçar-se para fazer compreendido, e é notável que ele seja assim encarado agora de maneira geral, mesmo na classe menos esclarecida; também seu efeito moralizador é manifesto. Eis um exemplo entre milhares:

Num grupo ao qual eu assistia durante minha estadia em Lyon, um homem com roupa de trabalhador levantou-se no fundo da sala e disse: “Senhor, há seis meses, eu não acreditava em Deus, nem no diabo, nem mesmo em minha alma. Estava persuadido de que quando morremos, tudo morre; não receava Deus, porque não acreditava nele; não receava as penas futuras, pois na minha ideia tudo acabava com a vida; isso quer dizer que eu não rezava, uma vez que desde minha primeira comunhão, não lembro de ter posto o pé numa igreja; ainda por cima, eu era violento e colérico; por fim, eu não receava nada, nem mesmo a justiça humana. Há seis meses, eu ainda era assim; foi então que o Espiritismo veio. Durante dois meses eu lutei, mas li, compreendi, e não pude furtar-me à evidência: uma verdadeira revolução se fez em mim. Hoje não sou mais o mesmo homem: faço preces todos os dias, e vou à igreja. Quanto a meu caráter, perguntai a meus camaradas se mudei! Antigamente, eu me irritava com tudo, um nada me exasperava; agora sou tranquilo e feliz, e bendigo a  Deus por me ter enviado a luz.”

Compreendeis do que é capaz um homem que chegou ao ponto de já não temer nem mesmo a justiça humana? Negar-se-á o efeito salutar do Espiritismo sobre este? E há milhares como ele. Por mais iletrado que fosse, ele o compreendeu; é que o Espiritismo não é uma teoria abstrata que se dirige apenas aos eruditos; ele fala ao coração, e para compreender a linguagem do coração não é preciso diploma; fazei-o penetrar por esta via na mansarda e na choupana, e ele fará milagres.


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