(Sessão de 9 de abril de 1869)
Senhoras, senhores,
Antes de tomar posse desta cadeira, onde desde tantos anos tivestes a felicidade de ver e ouvir esse eminente filósofo a quem cada um de nós deve a luz e a tranquilidade da alma, permiti que aquele que chamastes a presidir as vossas reuniões venha dizer algumas palavras sobre a rota que ele pretende seguir e o espírito com o qual entende dirigir os vossos trabalhos.
Gostaria de fazê-lo com esse tom e essa simplicidade que são a expressão das convicções profundas! Gostaria de fazê-lo, mas, sob o império de uma emoção que não posso dominar e que vos é fácil compreender, eu sinto que não poderia, se não chamasse em meu auxílio algumas linhas que vou ler.
É que, com efeito, senhores, quando, apenas há algumas semanas eu solicitava o favor de entrar em vossas fileiras, como membro livre da Sociedade de Estudos Espíritas de Paris, eu estava longe de pensar que um dia seria chamado a presidir as suas sessões, e muito mais longe de pensar que a partida imprevista do nosso caro e venerado mestre me chamaria a dirigir, com o vosso concurso, estas interessantes sessões, onde a cada dia são elucidadas as mais árduas e complexas questões.
Mas, como acaba de dizer o nosso vice-presidente, e vo-lo devo repetir, é como membro da Comissão e simples delegado anual designado por vossa escolha que aceitei essa difícil função, aliás conforme as regras prescritas pela nova organização que nos deixou nosso mestre.
Com efeito, senhores, qual de nós ousaria suceder sozinho a uma tão grande personalidade como a que encheu o mundo com os seus altos e consoladores estudos, ensinando ao homem de onde ele vem, por que ele está na Terra e para onde vai depois? Quem seria bastante orgulhoso para se julgar à altura de sua lógica, de sua energia e de sua profunda erudição, quando ele próprio, esmagado por um trabalho sempre crescente, havia reconhecido que uma comissão de seis trabalhadores sérios e dedicados, que, sem dúvida, deveria ser dobrada em futuro próximo, não seria demasiado numerosa para fazer face ao desenvolvimento dos estudos da Doutrina?
Sim, senhores, se correspondi ao desejo que me manifestastes, é porque os atos devem estar sempre em relação com as palavras. Eu havia prometido meu concurso enérgico quando me admitistes entre vós, e por mais difícil que seja o momento, não recusei o mandato que me oferecestes, por mais fracas que sejam minhas forças, persuadido de que elas serão ajudadas vigorosamente pela nossa Comissão, por todos vós, meus irmãos em crença e, enfim, por nossos Espíritos protetores, entre os quais hoje se acha o nosso caro e afetuoso Presidente.
Nosso dever, a missão de todos nós, senhores, de agora em diante, é seguir o sulco traçado pelo mestre, quero dizer, aprofundá-lo, alargá-lo, mais do que estendê-lo ao longe, até a hora em que um novo enviado, esclarecedor do futuro, venha plantar novas balizas e traçar uma nova etapa. Realizemos a nossa tarefa e, por mais modesta que ela possa parecer a alguns espíritos ardentes ou talvez muito impacientes, o seu campo é bastante vasto para que cada um de nós possa dizer, ao terminar sua jornada: “Um repouso feliz me aguarda, pois eu era do número daqueles que trabalharam na vinha do Senhor!”
Mas, para atingir tal objetivo, o esforço deve estar na razão direta de sua grandeza. Pesquisadores infatigáveis da verdade, aceitemos a luz, venha ela de onde vier, sem contudo lhe dar direito de cidadania antes de tê-la analisado em todos os seus elementos e observado nos múltiplos efeitos de sua irradiação. Abramos, pois, as nossas fileiras a todos os pesquisadores de boa vontade desejosos de convencer-se, ainda que a sua rota tenha sido diferente da nossa, até este momento, desde que eles aceitem as leis fundamentais de nossa filosofia.
Rejubilemo-nos no momento em que o Espiritismo, fundado em bases inabaláveis, entra em nova fase, a de chamar a atenção desta nova geração, à qual o estudo da Ciência chegou como partilha, quer ela sonde as profundezas desconhecidas do oceano celeste, quer perscrute essas miríades de mundos revelados pelo microscópio, quer, enfim, ela peça aos fenômenos do Magnetismo o segredo que conduz à descoberta das admiráveis leis harmônicas do Criador, das quais uma única encerra todas: a lei do Amor.
Também não repilamos, senhores, esses pioneiros que com tanto desdém são chamados materialistas. ─ Ficai certos de que muitos desses pesquisadores, satisfazendo a lei comum do erro, sentem sua consciência revoltar-se ao perscrutar a matéria à procura desse princípio vital que só de Deus emana.
Sim, lamentemos seus esforços infrutíferos e abramo-lhes também as nossas fileiras, porque não poderíamos confundi-los com os soberbos enceguecidos pelo erro e pelo sofisma! Oh! Para estes, sigamos o preceito do filósofo de Nazaré: “Deixai que os mortos enterrem os seus mortos”, e passemos.
Mostremo-nos, pois, sempre verdadeiros e sinceros espíritas, por nosso espírito de tolerância, nosso amor por nossos irmãos com os quais devemos partilhar esse pão da vida com o qual nos alimentou nosso caro mestre, apanhando essas espigas caídas de feixes incompreendidos!...
Semeemos, propaguemos e semeemos ainda, mesmo nos terrenos ressecados pelo sopro do ceticismo, porque se alguns grãos lançados ao vento da incredulidade vierem a germinar nalgum sulco escondido e cavado pela dor, seu rendimento será o cêntuplo do trabalho.
Sobretudo não percamos nosso tempo, nem nossas forças em responder aos ataques de que possamos ser objeto, porque o homem que sulca deve esperar ser ferido e arranhado pelos espinhos que arranca.
─ Não respondamos também a esses escrupulosos do livre pensamento que fingem ver no Espiritismo uma religião, um engenho destruidor das coisas estabelecidas, quando, ao contrário, esta doutrina reúne num feixe único todos os membros esparsos da grande família humana, que a intolerância de uns e a imobilidade de outros dispersou e deserdou de toda crença.
Mas se, de um lado, devemos apelar a todos os trabalhadores devotados, se a Ciência nos pode e deve ser de grande ajuda para explicar o que o vulgo chama milagre, jamais esqueçamos que o objetivo essencial e final de nossa doutrina consiste no estudo das leis psicológicas e morais, leis que compreendem a fraternidade, a solidariedade de todos os seres, lei única, lei universal que rege igualmente a ordem moral e a ordem material.
─ É esta bandeira, senhores, que manteremos alta e firme, aconteça o que acontecer, e ante a qual deverão inclinar-se todas as outras considerações.
É animada por tais pensamentos que vossa Comissão deve prosseguir a obra do mestre, porque foram eles que o conduziram à descoberta desta estrela magnífica, de brilho muito diferente, bem mais diversamente poderosa para a felicidade da Humanidade do que todas aquelas cujo conjunto deslumbra os nossos olhos.
─ Sigamos escrupulosamente o plano da vasta e sábia organização deixada pelo mestre, última expressão de seu gênio, na qual ele compara, com tanta felicidade, as Sociedades Espíritas a observatórios cujos estudos devem ser ligados entre si e religados ao grupo central de Paris, mas sempre deixando a cada um a livre direção de suas observações particulares.
Assim, de pé e à obra, espíritas das cinco partes do mundo! À obra também, espiritualistas, biólogos, magnetistas e vós todos, enfim, homens de Ciência, pesquisadores sedentos da verdade, reunidos por este pensamento comum: Fora da verdade não há salvação, digno eco desta divisa dos espíritas: Fora da caridade não há salvação.
Nestas condições, mas só nestas condições, é pelo menos a nossa profunda convicção, não só o Espiritismo não ficará estacionário, mas crescerá rapidamente, guiado sempre por seu antigo piloto, muito mais poderoso, muito mais clarividente ainda do que era na Terra, onde sua digna companheira dele recebeu a missão de secundar seus pontos de vista generosos e benevolentes para o futuro da Doutrina.
Perdão, senhores, por me haver alongado. Entretanto, muito teria ainda a vos dizer... Mas apresso-me, compreendendo vossa impaciência em querer ouvir aquele que será sempre o nosso digno presidente. Ele está aqui, em meio a uma cerrada falange de Espíritos simpáticos e protetores; mas era dever daquele a quem a vossa escolha confiou a difícil tarefa de presidir os vossos trabalhos e dirigir as vossas sessões, dar-vos a conhecer suas intenções partilhadas pela Comissão Central e, assim o espera, pela maioria dos espíritas.
E. MALET.
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