Senhores,
Em nome da Sociedade Espírita de Paris, da qual tenho a honra de ser Vice-Presidente, venho exprimir seu pesar pela perda cruel que acaba de sofrer, na pessoa de seu venerável mestre, Sr. Allan Kardec, falecido subitamente anteontem, quarta-feira, nos escritórios da Revista.
A vós, senhores, que todas as sextas-feiras vos reuníeis na sede da Sociedade, não preciso lembrar essa fisionomia ao mesmo tempo benevolente e austera, esse tato perfeito, essa justeza de apreciação, essa lógica superior e incomparável que nos parecia inspirada.
A vós, que todos os dias da semana partilháveis dos trabalhos do mestre, não retraçarei seus labores contínuos, sua correspondência com as quatro partes do mundo, que lhe enviavam documentos sérios, logo classificados em sua memória e preciosamente recolhidos para serem submetidos ao cadinho de sua alta razão e formar, depois de um trabalho escrupuloso de elaboração, os elementos dessas obras preciosas que todos conheceis.
Ah! Se, como a nós, vos fosse dado ver essa massa de materiais acumulados no gabinete de trabalho desse infatigável pensador; se, conosco, tivésseis penetrado no santuário de suas meditações, veríeis esses manuscritos, uns quase terminados, outros em fase de execução, outros, enfim, apenas esboçados, espalhados aqui e ali, e que parecem dizer: Onde está agora o nosso mestre, sempre tão madrugador no trabalho?
Ah! Mais do que nunca, também exclamaríeis, com tão amargo pesar que seria quase ímpio: Deus precisaria ter chamado o homem que ainda podia fazer tanto bem; a inteligência tão cheia de seiva, o farol, enfim, que nos tirou das trevas e nos fez entrever esse novo mundo mais vasto e admirável do que aquele que imortalizou o gênio de Cristóvão Colombo, esse mundo cuja descrição ele apenas nos começara a fazer, e cujas leis fluídicas e espirituais nós já pressentíamos?
Mas, reanimai-vos, senhores, por este pensamento tantas vezes demonstrado e lembrado pelo nosso Presidente: “Nada é inútil na Natureza; tudo tem sua razão de ser, e o que Deus faz é sempre bem feito.”
Não nos assemelhemos a esses meninos indóceis que, não compreendendo as decisões de seus pais, se permitem criticá-los e por vezes mesmo censurá-los.
Sim, senhores, disto tenho a mais profunda convicção, e vo-la exprimo alto e bom som: a partida do nosso caro e venerável mestre era necessária!
Aliás, seríamos ingratos e egoístas se, não pensando senão no bem que ele nos fazia, esquecêssemos o direito que ele tinha adquirido de ir repousar um pouco na pátria celeste, onde tantos amigos, tantas almas de escol o esperavam e vieram recebê-lo, após uma ausência que, também para eles, parecia bem longa.
Oh! sim, há alegria, há grande festa no Alto, e essa festa, essa alegria só se igualam à tristeza e ao luto que causa sua partida entre nós, pobres exilados, cujo tempo ainda não chegou! Sim, o mestre havia concluído a sua missão! Cabe-nos, a nós, continuar a sua obra com o auxílio dos documentos que ele nos deixou e daqueles, ainda mais preciosos, que o futuro nos reserva. A tarefa será fácil, ficai certos, se cada um de nós ousar manifestar-se corajosamente; se cada um de nós tiver compreendido que a luz que recebeu deve ser propagada e transmitida aos seus irmãos; se cada um de nós, enfim, tiver a memória do coração para o nosso lamentado presidente e souber compreender o plano de organização que levou o último selo de sua obra.
Continuaremos, pois, o teu trabalho, caro mestre, sob teu eflúvio benfazejo e inspirador. Recebe aqui a nossa promessa formal, é o melhor sinal de afeição que te podemos dar.
Em nome da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, não te dizemos adeus, mas até logo, até breve!
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