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Revista Espírita 1865 » Maio » Dissertações espíritas » Deus não se vinga Revue Spirite 1865 » Mai » Dissertations spirites » Dieu ne se venge pas

II

 

DEUS NÃO SE VINGA

 

O que precede é apenas um preâmbulo destinado a servir de introdução a outras ideias. Falei de ideias preconcebidas, mas há outras além das que vêm das inclinações do inspirado; há as que são consequência de uma instrução errônea, de uma interpretação acreditada num tempo mais ou menos longo, que tiveram sua razão de ser numa época em que a razão humana estava insuficientemente desenvolvida e que, passadas ao estado crônico, não podem ser modificadas senão por heróicos esforços, sobretudo quando têm por si a autoridade do ensino religioso e de livros reservados. Uma destas ideias é esta: Deus se vinga. Que um homem, ferido em seu orgulho, em sua pessoa ou em seus interesses se vingue, isto se concebe. Essa vingança, embora culposa, está dentro dos limites das imperfeições humanas, mas um pai que se vinga em seus filhos levanta a indignação geral, porque cada um sente que um pai, com a tarefa de formar os seus filhos, pode redirecioná-los nos seus erros e corrigir seus defeitos por todos os meios ao seu alcance, mas que a vingança lhe é interdita, sob pena de tornar-se estranho a todos os direitos da paternidade.

Sob o nome de vindita pública, a Sociedade que está desaparecendo vingava-se dos culpados; a punição infligida, muitas vezes cruel, era a vingança que ela tomava do homem perverso. Ela não tinha a menor preocupação com a reabilitação desse homem e deixava a Deus o cuidado de puni-lo ou de perdoá-lo. Bastava-lhe ferir pelo terror, que julgava salutar, os futuros culpados. A Sociedade que vêm não mais pensa assim; se ela ainda não age em vista da emenda do culpado, ao menos compreende o que a vingança encerra de odioso por si mesma; salvaguardar a Sociedade contra os ataque de um criminoso lhe basta, auxiliada pelo medo de um erro judiciário. Em breve a pena capital desaparecerá dos vossos códigos.

Se hoje a Sociedade se sente grande demais diante de um culpado, para se deixar ir à cólera e dele vingar-se, como quereis que Deus, participando de vossas fraquezas, se tome de um sentimento irascível e fira por vingança um pecador chamado ao arrependimento? Crer na cólera de Deus é um orgulho da Humanidade, que imagina ter um grande peso na balança divina. Se a planta do vosso jardim vem mal, se se desvia, ireis encolerizar-vos e vos vingar dela? Não; endireitá-la-eis, se puderdes, dar-lhe-eis um apoio, forçareis, por entraves, as suas más tendências, se necessário a transplantareis, mas não vos vingareis. Assim faz Deus.

Deus vingar-se, que blasfêmia! Que diminuição da grandeza divina! Que ignorância da distância infinita que separa a criação de sua criatura! Que esquecimento de sua bondade e de sua justiça!

Deus viria, numa existência em que não vos resta nenhuma lembrança de vossos erros passados, fazer-vos pagar caro pelas faltas que podeis ter cometido numa época apagada em vosso ser! Não, não! Deus não age assim. Ele entrava o impulso de uma paixão funesta, corrige o orgulho inato por uma humildade forçada, endireita o egoísmo do passado pela urgência de uma necessidade presente que leva a desejar a existência de um sentimento que o homem não conheceu nem experimentou. Como pai, ele corrige, mas, também como pai, Deus não se vinga.

Guardai-vos dessas ideias preconcebidas de vingança celeste, restos dispersos de um erro antigo. Guardai-vos dessas tendências fatalistas, cuja porta está aberta sobre vossas doutrinas novas, e que vos conduziriam diretamente ao quietismo oriental. A parte de liberdade do homem já não é bastante grande para apequená-la ainda mais por crenças errôneas. Quanto mais sentirdes vossa liberdade, sem dúvida maior será a vossa responsabilidade, e tanto mais os esforços de vossa vontade vos conduzirão à frente, na via do progresso.

Pascal


II

Dieu ne se venge pas.

Ce qui précède n'est qu'un préambule destiné à servir d'introduction à d'autres idées. Je vous ai parlé d'idées préconçues, il y en a d'autres que celles qui viennent des penchants de l'inspiré; il y en a qui sont la suite d'une instruction erronée, d'une interprétation accréditée par un temps plus ou moins long, qui ont eu leur raison d'être à une époque où la raison humaine était insuffisamment développée, et qui, passées à l'état chronique, ne peuvent être modifiées que par d'héroïques efforts, surtout quand elles ont pour elles l'autorité de l'enseignement religieux et de livres réservés. Une de ces idées est celle-ci: Dieu se venge. Qu'un homme blessé dans son orgueil, dans sa personne ou dans ses intérêts se venge, cela se conçoit; cette vengeance, quoique coupable, est dans la marge faite aux imperfections humaines; mais un père qui se venge sur ses enfants, soulève l'indignation générale, parce que chacun sent qu'un père, chargé du soin de former ses enfants, peut redresser des torts, corriger des défauts par tous les moyens qui sont en son pouvoir, mais que la vengeance lui est interdite, sous peine de devenir étranger à tous les droits de la paternité.

Sous le nom de vindicte publique, la société qui s'en va se vengeait des coupables; la punition infligée, souvent cruelle, était la vengeance qu'elle tirait des méfaits d'un homme pervers; elle n'avait nul souci de l'amendement de cet homme, elle laissait à Dieu le soin de le punir ou de lui pardonner; il lui suffisait de frapper d'une terreur, qu'elle croyait salutaire, les coupables à venir. La société qui vient ne pense plus ainsi; si elle n'agit point encore en vue de l'amendement du coupable, elle comprend au moins ce que la vengeance a d'odieux pour elle-même; sauvegarder la société contre les attaques d'un criminel lui suffit, et, la crainte d'une erreur judiciaire aidant, bientôt la peine capitale disparaîtra de vos codes.

Si la société se trouve aujourd'hui trop grande devant un coupable pour se laisser aller à la colère et se venger de lui, comment voulez-vous que Dieu, participant à vos faiblesses, s'émeuve d'un sentiment irascible et frappe par vengeance un pécheur appelé à se repentir? Croire à la colère de Dieu est un orgueil de l'humanité, qui s'imagine être d'un grand poids dans la balance divine. Si la plante de votre jardin vient mal, si elle se déjette, irez-vous vous mettre en colère et vous venger de sa mauvaise venue? Non, vous la redresserez si vous pouvez, vous lui donnerez un tuteur, vous gênerez, par des entraves, ses mauvaises tendances, vous la transplanterez au besoin, mais vous ne vous vengerez pas; ainsi fait Dieu.

Dieu se venger, quel blasphème! quel amoindrissement de la grandeur divine! quelle ignorance de la distance infinie qui sépare le créateur de sa créature! quel oubli de sa bonté et de sa justice! Dieu viendrait, dans une existence où il ne vous reste aucun souvenir de vos torts passés, vous faire payer chèrement les fautes que vous pouvez avoir commises à une époque effacée de votre être! Non, non, Dieu n'agit pas ainsi; il entrave l'essor d'une passion funeste, il corrige l'orgueil inné par une humilité forcée, il redresse l'égoïsme du passé par l'urgence d'un besoin présent qui fait désirer l'existence d'un sentiment que l'homme n'a ni connu ni éprouvé. Comme père, il corrige, mais, comme père aussi, Dieu ne se venge pas.

Gardez-vous de ces idées préconçues de vengeance céleste, débris égarés d'une erreur ancienne. Gardez-vous de ces tendances fatalistes dont la porte est ouverte sur vos doctrines nouvelles, et qui vous conduiraient tout droit au quiétisme oriental. La part de liberté de l'homme n'est pas déjà assez grande pour l'amoindrir encore par des croyances erronées; plus vous vous sentirez de liberté à vous, plus vous aurez de responsabilité sans doute; mais plus aussi les efforts de votre volonté vous conduiront en avant dans la voie du progrès.

PASCAL.

 


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