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Revista Espírita 1865 » Fevereiro » O Ramanenjana » Caráter do Ramanenjana

Esta doença age especialmente sobre os nervos, sobre os quais exerce tal pressão que logo provoca convulsões e alucinações, das quais apenas se dá conta do ponto de vista da Ciência.

Os que são atingidos, a princípio sentem dores violentas na cabeça, na nuca e depois no estomago. Ao cabo de algum tempo começam os acidentes convulsivos; é então que os vivos entram em comunicação com os mortos: Eles veem a rainha Ranavalona, Radama I, Adrian Ampoïnemerina e outros, que lhes falam e lhes dão incumbências. A maior parte dessas mensagens são dirigidas a Radama II.

Os Ramanenjana parecem especialmente deputados pela velha Ranavalona, para exprimir a Radama que ele deve voltar ao antigo regime, fazer cessar a prece, despedir os brancos, interditar os porcos na cidade santa, etc., etc.; senão, do contrário, grandes males o ameaçam, e que ela o renegará como seu filho.

Um outro efeito dessas alucinações é que a maior parte dos que lhes são vítimas imaginam-se carregando pesados fardos que levam seguindo os mortos; que imaginam ter à cabeça uma caixa de sabão ou um cofre, um colchão, fuzis, chaves, bacias de prata, etc., etc.

É preciso que essas aparições andem muito depressa, porque os infelizes que estão às suas ordens fazem o maior esforço do mundo para segui-las, embora vão sempre em passo de corrida.

Eles não receberam mais cedo sua missão de além-túmulo, porque se põem a sapatear, a gritar, a pedir graça, agitando a cabeça e os braços, sacudindo as extremidades do lambá ou um pedaço de pano que lhes cobre o corpo. Depois, ei-los se atirando, sempre gritando, dançando, saltando e se agitando convulsivamente. Seu grito mais comum é: Ekalá! e este outro: Izahay maikiá! (estamos com pressa). Na maioria das vezes uma multidão os acompanha cantando, batendo palmas e tocando tambores. Dizem que é para excitá-los ainda mais e apressar o fim da crise, como se vê o cavaleiro hábil afrouxar as rédeas de seu cavalo fogoso e, longe de procurar retê-lo, o estimular, ao contrário, com gritos e com as esporas, até que este, tremendo sob a mão que o conduz, resfolgando, coberto de suor, acabe parando por si mesmo, exaurido.

Ainda quando essa doença atinja especialmente os escravos, é certo dizer que não poupa ninguém. É assim que um filho de Radama e de Maria, sua concubina, de repente se viu vítima das alucinações do Ramanenjana, e ei-lo a gritar, a se agitar, a dançar e a correr como os outros. No primeiro momento de terror, o próprio rei se pôs a persegui-lo, mas nessa corrida precipitada, feriu-se ligeiramente na perna, o que o levou a dar ordens para que fosse mantido sempre um cavalo selado, para o caso de novo acidente.

As corridas desses energúmenos nada têm de bem determinado. Uma vez impelidos não sei por que força irresistível, espalham-se no campo, uns para um lado, outros para outro. Antes da Semana Santa, iam aos túmulos, onde dançavam e ofereciam uma moeda.

Mas no próprio dia de Ramos, por singular coincidência, uma nova moda ganhou a preferência deles: ir à parte baixa da cidade, cortar uma cana de açúcar. Eles a carregam triunfalmente ao ombro e vêm depositá-la sobre a pedra sagrada de Mahamasin, em homenagem a Ranavalona. Aí dançam, agitam-se com todas as convulsões e contorções de hábito; depois depõem a cana e uma moeda, e voltam correndo, dançando, saltando, assim como foram.

Alguns levam uma garrafa d’água na cabeça, para beber e se borrifar; e, coisa surpreendente! Malgrado tanta agitação e evoluções convulsivas, a garrafa se mantém equilibrada; dir-se-ia pregada e selada no crânio.

Uma nova fantasia acaba de tomá-los, escrevem-nos ainda, a de exigir que se tire o chapéu quando eles passam. Infelizes aqueles que se recusem a obedecer a essa injunção, por mais absurda que seja!

Disso já resultaram muitas lutas, que o pobre Radama julgou poder coibir impondo multa de 150 francos aos recalcitrantes. Para não infringir esse novo gênero de determinação real, a maioria os brancos decidiram sair sem chapéu. Um dos nossos padres viu-se exposto a uma situação muito mais grave. Tratava-se nada mais nada menos que fazê-lo tirar a batina, pois o Ramanenjana pretendia que a cor preta o ofuscava. Felizmente o padre conseguiu escapar e entrar em casa, sem ser obrigado a ficar em camisa.

Os acessos dos convulsionários não são contínuos. Muitos, depois de haver feito suas piruetas diante da pedra sagrada sobre a qual fazem subir o herdeiro do trono para apresentá-lo ao povo, vão atirar-se à água, depois sobem tranquilamente para ir repousar até nova crise.

Outros por vezes caem esgotados no caminho ou na rua, adormecem e acordam curados. Há os que ficam doentes por dois ou três dias antes de se libertarem completamente. Em muitos casos o mal é mais tenaz e por vezes dura uns quinze dias.

Durante o acesso, o indivíduo atingido pelo Ramanenjana não reconhece ninguém. Quase não responde às perguntas que lhe fazem. Depois do acesso, se se lembra de alguma coisa, é vagamente e como num sonho.

Uma particularidade bastante notável é que, em meio às suas evoluções mais estafantes, as mãos e os pés ficam frios como gelo, ao passo que o resto do corpo sua em bica e a cabeça está em ebulição.

Agora, qual pode ser a causa dessa doença singular? Aqui todos estão de acordo. Vários a atribuem pura e simplesmente ao demônio, que se revelou como antes se havia revelado nas mesas girantes, pensantes, etc. Eis por que, pouco preocupados de saudar essa diabólica majestade, muitos se resignaram a andar sem chapéu.


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