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Revista Espírita 1864 » Outubro » O sexto sentido e a visão espiritual Revue Spirite 1864 » Octobre » Le sixième sens et la vue spirituelle

 

 

 

O SEXTO SENTIDO E A VISÃO ESPIRITUAL

 

ENSAIOS TEÓRICOS SOBRE OS ESPELHOS MÁGICOS

 

O nome de espelhos mágicos é dado a objetos de reflexos geralmente brilhantes, tais como o gelo, placas metálicas, garrafas, vidros, etc., nos quais certas pessoas veem imagens que lhes retratam acontecimentos afastados, passados, presentes e às vezes futuros, e as põem em condições de responder às perguntas que lhes são dirigidas. O fenômeno não é extremamente raro. Os espíritos fortes os taxam de crença supersticiosa, efeito da imaginação, charlatanice, como tudo o que não podem explicar pelas leis naturais conhecidas. O mesmo se dá, segundo eles,  com todos os efeitos sonambúlicos e mediúnicos. No entanto, se o fato existe, sua opinião não poderia prevalecer contra a realidade, e estamos fortemente propensos a admitir a existência de uma nova lei, ainda não observada.

Até agora não nos estendemos sobre este assunto, malgrado os numerosos fatos que nos foram relatados, porque temos por princípio não afirmar senão aquilo que compreendemos, tendo por princípio dizer, tanto quanto possível, o como e o porquê das coisas, isto é, juntar ao relato uma explicação racional. Mencionamos o fato com o testemunho de pessoas sérias e respeitáveis, mas, admitindo a possibilidade do fenômeno, e mesmo a sua realidade, ainda não tínhamos visto com bastante clareza a que lei ele podia ligar-se para estarmos em condições de lhe dar uma solução. Por isso nos abstivemos. Os relatos que tínhamos à vista, aliás, poderiam estar carregados de exagero; eram necessários, sobretudo, certos detalhes de observação, os únicos que podem ajudar a fixar as ideias. Agora que vimos, observamos e estudamos, podemos falar com conhecimento de causa.

De início relatemos sumariamente os fatos que testemunhamos. Não pretendemos convencer os incrédulos; queremos apenas tentar esclarecer um ponto ainda obscuro da Ciência Espírita.

Durante a excursão espírita que fizemos este ano, tendo ido passar alguns dias em casa do Sr. W..., membro da Sociedade Espírita de Paris, no cantão de Berne, na Suíça, este último nos falou de um camponês das cercanias, torneiro de profissão, que goza da faculdade de descobrir fontes e de ver num copo as respostas às perguntas que lhe dirigem. Para a descoberta das fontes, ele às vezes se transporta aos lugares e se serve da bagueta utilizada em semelhantes casos; outras vezes, sem se deslocar, serve-se de seu copo e dá as indicações necessárias. Eis um notável exemplo de sua lucidez.

Na propriedade do Sr. de W... havia um conduto de águas muito longo, mas, por força de certas causas locais, acharam preferível que a tomada d’água fosse mais próxima. A fim de, se possível, poupar escavações inúteis, o Sr. de W... recorreu ao descobridor de fontes. Este, sem deixar o seu quarto, lhe disse, olhando em seu copo: “No percurso dos tubos existe outra fonte; está a tantos pés de profundidade, abaixo do décimo quarto tubo, a partir de tal ponto.” A coisa foi encontrada tal qual ele havia indicado. A ocasião era muito favorável para deixar de aproveitá-la, no interesse de nossa instrução. Então fomos à casa desse homem, com o Sr. e a Sra. de W... e duas outras pessoas. Não deixam de ser úteis algumas informações sobre essa pessoa.

É um homem de sessenta e quatro anos, bem alto, esguio, de boa saúde, posto que debilitado e andando com dificuldade. É protestante, muito religioso e lê habitualmente a Bíblia e livros de preces. Sua enfermidade, como consequência de uma doença, data da idade de trinta anos. Nessa época é que a faculdade se lhe revelou. Ele diz que foi Deus que lhe quis dar uma compensação. Seu rosto é expressivo e alegre, o olho vivo, inteligente e penetrante. Ele só fala o dialeto alemão da região e não entende uma palavra de francês. É casado e pai de família; vive do produto de alguns lotes de terra e de seu trabalho pessoal, de sorte que, sem estar numa posição fácil, não passa necessidades.

Quando desconhecidos vão à sua casa para consulta, seu primeiro movimento é de desconfiança. Ele sonda de certo modo as suas intenções e, por pouco desfavorável que seja essa impressão, responde que só se ocupa de fontes e recusa qualquer experiência com seu copo. Sobretudo recusa-se a responder às perguntas que poderiam visar a cupidez, como a busca de tesouros, as especulações aventurosas, ou a realização de algum desígnio mau, numa palavra, a todas as que poderiam ferir a lealdade e a delicadeza. Ele diz que se se ocupasse dessas coisas, Deus lhe retiraria a faculdade. Quando alguém lhe é apresentado por pessoa conhecida, e se essa pessoa lhe é simpática, sua fisionomia torna-se aberta e benevolente. Se o motivo pelo qual o interrogam for sério e útil, ele se interessa e se compraz nas pesquisas. Se as perguntas forem fúteis e de pura curiosidade, se se dirigem a ele como a um ledor da sorte, não responde.

Graças à presença e à recomendação do Sr. de W..., tivemos bastante sorte de estar em boas condições em sua presença e só tivemos que nos felicitar por sua cordial acolhida e sua boa vontade.

Esse homem é da mais completa ignorância no que concerne ao Espiritismo; ele não tem a menor ideia dos médiuns, nem das evocações ou da intervenção dos Espíritos, nem da ação fluídica. Para ele, sua faculdade está nos nervos, numa força que ele não compreende, nem jamais procurou compreender porque, quando quisemos fazer com que ele dissesse de que maneira via em seu copo, pareceu-nos que era a primeira vez que sua atenção era chamada para tal ponto. Ora, era para nós uma coisa essencial; só após algumas perguntas sucessivas é que chegamos a compreender, ou melhor, a desembrulhar o seu pensamento.

Seu copo é um copo comum para beber, mas vazio. É, porém, sempre o mesmo, e que só serve para tal fim. Ele não podia usar outro copo para isso. Na previsão de um acidente, foi-lhe indicado onde podia encontrar outro para substituí-lo. Tendo-o obtido, guarda-o de reserva. Quando o interroga, segura-o no côncavo das mãos e olha dentro dele; se o copo estiver sobre a mesa, ele nada vê. Quando fixa o olhar no fundo, parece que os olhos se velam por um instante, logo tomando seu brilho habitual; então, olhando alternativamente para o copo e para os interlocutores, fala como de costume, dizendo o que vê e respondendo às perguntas de maneira simples, natural e sem ênfase. Em suas experiências ele não faz qualquer invocação, não emprega nenhum sinal cabalístico, não pronuncia fórmulas nem palavras sacramentais. Quando lhe fazem uma pergunta, diz ele, concentra a atenção e a vontade no assunto proposto, olhando no fundo do copo, onde se formam imediatamente as imagens das pessoas e das coisas relativas ao objeto de que se trata. Quanto às pessoas, descreve-as física e moralmente, como o faria um sonâmbulo lúcido, de maneira a não deixar nenhuma dúvida quanto à sua identidade. Também descreve, com maior ou menor precisão, lugares que não conhece. Isto destrói a ideia de que o que vê é um jogo da sua imaginação. Quando ele disse ao Sr. de W... que a fonte estava a tantos pés abaixo do décimo quarto tubo, certamente não podia obter a informação de seu próprio cérebro. Para se tornar mais inteligível, ele se serve, se necessário, de um pedaço de giz, com o qual traça na mesa pontos, círculos, linhas de vários tamanhos, indicando as pessoas e os lugares de que fala, sua posição relativa, etc., de maneira a não ter que mostrá-las quando para ali retorna, dizendo: É este que faz tal coisa ou é em tal ponto que tal coisa se passa.

Um dia uma senhora o interrogava sobre a sorte de uma mocinha roubada por boêmios há mais de quinze anos, sem que jamais tivessem tido notícias suas. Partindo, à maneira dos sonâmbulos, do local onde a coisa se havia dado, ele seguia os traços da menina que dizia ver no copo, e que tinha, segundo ele, seguido pelas bordas de uma grande água, isto é, o mar. Afirmou que ela vivia, descreveu sua situação, sem contudo poder precisar o lugar de sua residência porque, disse ele, ainda não havia chegado o momento de ser devolvida à sua mãe; que antes deveriam realizar-se certas coisas que especificou e que então uma circunstância fortuita faria com que a mãe reconhecesse sua filha. A fim de melhor precisar a direção a seguir para encontrá-la, ele pediu que de outra vez lhe trouxessem uma carta geográfica. Esse mapa lhe foi mostrado em nossa presença, no dia de nossa visita; mas, como ele não tem qualquer noção de geografia, foi preciso explicar-lhe o que representava o mar, os rios, as cidades, as estradas e as montanhas. Então, pondo o dedo sobre o ponto de partida, ele indicou o caminho que levava ao lugar em questão. Posto se tivesse passado algum tempo depois da primeira consulta, ele se recordou perfeitamente de tudo quanto havia dito e foi o primeiro a falar da menina, antes que o interrogassem.

Como o assunto ainda não foi solucionado, nada podemos prejulgar quanto aos resultados de suas previsões. Diremos apenas que, em relação às circunstâncias passadas e conhecidas, ele tinha visto com muita exatidão. Citamos o caso apenas como amostra de sua maneira de ver.

Quanto ao que pessoalmente nos concerne, pudemos igualmente constatar a sua lucidez. Sem pergunta prévia, e mesmo sem que pensássemos no caso, ele nos falou espontaneamente de uma afecção de que sofremos há algum tempo, cujo termo assinalou. E, coisa notável, esse termo é o mesmo assinalado pela sonâmbula Sra. Roger, que tínhamos consultado sobre o assunto, seis meses antes.

Ele não nos conhecia nem de vista nem de nome, e posto que, na sua ignorância, lhe fosse difícil compreender a natureza dos nossos trabalhos, por meio de circunlóquios, imagens e expressão à sua maneira, ele indicou, sem equívocos, o objetivo, as tendências e os resultados inevitáveis. Este último ponto, sobretudo, parecia interessá-lo vivamente, pois repetia incessantemente que a coisa deveria realizar-se, que a isto estávamos destinado desde o nascimento e que nada se lhe poderia opor. Por sua própria iniciativa, falou da pessoa chamada a continuar a obra após a nossa morte, dos obstáculos que certos indivíduos procuravam lançar em nosso caminho, das rivalidades ciumentas e das ambições pessoais; designou de maneira inequívoca aqueles que utilmente nos poderiam secundar e aqueles dos quais devíamos desconfiar, voltando sempre sobre uns e outros com uma espécie de encarniçamento; por fim entrou em detalhes circunstanciados de perfeita justeza, tanto mais notáveis quanto a maioria deles não eram provocados por qualquer pergunta, e que em todos os pontos coincidiam com as revelações feitas muitas vezes por nossos guias espirituais, para o nosso governo.

Este gênero de pesquisas nada tinha a ver com os hábitos e os conhecimentos desse homem, como ele próprio dizia. Várias vezes ele repetiu: “Digo aqui muitas coisas que não diria a outros, porque eles não me compreenderiam, mas ele (designando-nos) me compreende perfeitamente.” Com efeito, havia coisas propositadamente ditas em meias palavras, só inteligíveis para nós. Vimos no fato uma marca especial da benevolência dos bons Espíritos, que nos quiseram confirmar, por este meio novo e inesperado, as instruções que nos haviam dado em outras circunstâncias, ao mesmo tempo que para nós era assunto de observação e de estudo.

Assim, constatamos que esse homem é dotado de uma faculdade especial e que ele realmente vê. Vê sempre certo? Aí não está a questão. Basta que tenha visto muitas vezes para constatar a existência do fenômeno. A ninguém na Terra é dada a infalibilidade, pela simples razão que aqui ninguém goza da perfeição absoluta. Como vê ele? Eis o ponto essencial que se não pode deduzir senão pela observação.

Em consequência de sua falta de instrução e dos preconceitos do meio em que sempre viveu, ele está imbuído de certas ideias supersticiosas, que mistura com os seus relatos. Assim, por exemplo, ele acredita de boa-fé na influência dos planetas sobre os destinos dos indivíduos, e na dos dias felizes e nefastos. Conforme o que ele tinha visto de nós, deveríamos ter nascido sob não sabemos que signo; deveríamos abster-nos de empreender coisas importantes em certo dia da lua. Não tentamos dissuadi-lo, o que certamente não teríamos conseguido e só teria servido para perturbá-lo. Mas, pelo fato de ter ele algumas ideias falsas, não há motivo para negar a faculdade que possui. Pelo fato de haver grãos ruins num monte de trigo, não significa que não haja trigo bom; e porque um homem nem sempre vê com justeza, não se segue que nada veja.

Quando mais ou menos se deu conta da finalidade e dos resultados de nossos trabalhos, perguntou muito seriamente e com uma espécie de ansiedade ao ouvido do Sr. de W... se por acaso teríamos encontrado o sexto livro de Moisés. Ora, segundo uma tradição popular em certas localidades, Moisés teria escrito um sexto livro, contendo novas revelações e a explicação de tudo o que há de obscuro nos cinco primeiros. Conforme a mesma tradição, o livro deverá ser descoberto um dia. Se alguma coisa deve dar a chave de todas as alegorias das Escrituras é seguramente o Espiritismo, que assim realizaria a ideia ligada ao pretenso sexto livro de Moisés. É muito singular que esse homem haja concebido tal ideia.

Um exame atento dos fatos acima demonstra uma completa analogia entre esta faculdade e o fenômeno designado sob o nome de segunda vista, dupla vista ou sonambulismo desperto, e que é descrito no Livro dos Espíritos, Cap. VIII: Emancipação da alma, e no Livro dos médiuns, Cap. XIV. Ela tem, pois, o seu princípio na propriedade radiante do fluído perispiritual, que permite à alma, em certos casos, perceber as coisas à distância, isto é, na emancipação da alma, que é uma lei da Natureza. Não são os olhos que veem, é a alma que, por seus raios, atingindo um ponto dado, exerce sua ação fora e sem o concurso dos órgãos do corpo. Essa faculdade, muito mais comum do que se pensa, apresenta-se com graus de intensidade e aspectos muito diversos, conforme os indivíduos: nuns ela se manifesta pela percepção permanente ou acidental, mais ou menos clara, das coisas afastadas; noutros, pela simples intuição dessas mesmas coisas; noutros, enfim, pela transmissão do pensamento. É notável que muitos a possuem sem suspeitá-lo, e sobretudo sem se darem conta, pois ela é inerente ao seu ser, e lhes parece tão natural como ver pelos olhos; muitas vezes, mesmo, confundem essas duas percepções. Se se lhes pergunta como veem, a maior parte do tempo não sabem explicar melhor do que explicariam o mecanismo da visão ordinária.

O número de pessoas que espontaneamente gozam dessa faculdade é muito considerável, do que resulta que ela independe de um aparelho qualquer. O copo de que esse homem se serve é um acessório que só lhe é útil por hábito, pois constatamos que em várias circunstâncias ele descrevia as coisas sem o olhar. Pelo que nos concerne, notadamente falando de indivíduos, ele os indicava com o seu giz, por sinais característicos de suas qualidades e de sua posição. Era sobretudo acerca desses sinais que ele falava olhando para a sua mesa, sobre a qual ele parecia ver tão bem quanto no copo, que mal olhava. No entanto, para ele, o copo é necessário e eis como isto pode ser explicado.

A imagem que ele observa se forma nos raios do fluido perispiritual que lhe transmitem a sensação. Concentrando sua atenção no fundo de seu copo, para aí dirige ele os raios fluídicos, e muito naturalmente a imagem aí se concentra, como se concentraria sobre um objeto qualquer: um copo d’água, uma garrafa, uma folha de papel, um mapa ou um ponto vago no espaço. É um meio de fixar o pensamento e de circunscrevê-lo, e estamos convencidos de que quem quer que exerça tal faculdade com auxílio de um objeto material, com um pouco de exercício e com a firme vontade de prescindir dele, veria igualmente bem.

Admitindo-se, contudo, o que ainda não está provado, que o objeto age sobre certas organizações, à maneira de excitantes, de modo a provocar o desprendimento fluídico, e, em consequência, o isolamento do Espírito, há um fato capital adquirido pela experiência: é que não existe nenhuma substância especial que tenha, a tal respeito, uma propriedade exclusiva. O homem em questão só vê num copo vazio, sustido na concha da mão, e não pode ver no primeiro copo que vier, nem em seu copo colocado de outro modo. Se a propriedade fosse inerente à substância e à forma do objeto, por que dois objetos da mesma natureza e da mesma forma não a possuiriam para o mesmo indivíduo? Por que o que tem efeito sobre um não o teria sobre outro? Por que, enfim, tantas pessoas possuem essa faculdade sem auxílio de qualquer aparelho? Como dissemos, é que a faculdade é inerente ao indivíduo e não ao copo. A imagem se forma em si mesmo, ou melhor, nos raios fluídicos que dele emanam. O copo não oferece, por assim dizer, senão o reflexo dessa imagem: é um efeito, e não uma causa. Tal a razão por que nem todos veem no que se convencionou chamar espelhos mágicos. Para isto não basta a visão corporal, mas é necessário ser dotado da faculdade chamada dupla vista, que mais exatamente seria chamada visão espiritual. E isto é tão verdadeiro que certas pessoas veem perfeitamente com os olhos fechados.

A visão espiritual é, na realidade, o sexto sentido ou sentido espiritual, de que tanto se falou e que, como os outros sentidos, pode ser mais ou menos obtuso ou sutil. Ele tem como agente o fluído perispiritual, como a visão física tem por agente o fluído luminoso. Assim como a irradiação do fluído luminoso leva a imagem dos objetos à retina, a irradiação do fluido perispiritual traz à alma certas imagens e certas impressões. Esse fluido, como todos os outros, tem seus efeitos próprios, suas propriedades sui generis.

Sendo o homem composto de Espírito, perispírito e corpo, durante a vida as percepções e sensações se produzem simultaneamente pelos sentidos orgânicos e pelo sentido espiritual; depois da morte, os sentidos orgânicos são destruídos mas, restando o perispírito, o Espírito continua a perceber pelo sentido espiritual, cuja sutileza aumenta em razão do desprendimento da matéria. O homem em quem tal sentido é desenvolvido goza, assim, por antecipação, de uma parte das sensações do Espírito livre. Posto que amortecido pela predominância da matéria, o sentido espiritual não deixa de produzir sobre todas as criaturas uma porção de efeitos reputados maravilhosos, por falta de conhecimento do princípio.

Estando em a Natureza, pois depende da constituição do Espírito, essa faculdade existiu, portanto, em todos os tempos; mas, como todos os efeitos cuja causa é desconhecida, a ignorância o atribuía a causas sobrenaturais. Os que a possuíam em grau eminente e podiam dizer, saber e fazer coisas acima do alcance vulgar, ou eram acusados de pactuar com o diabo, qualificados de feiticeiros e queimados vivos, ou foram beatificados, como tendo o dom dos milagres, quando, na realidade, tudo se reduzia à aplicação de uma lei natural.

Voltemos aos espelhos mágicos. A palavra magia, que outrora significava ciência dos sábios, pelo abuso que dela fizeram a superstição e o charlatanismo, perdeu seu significado primitivo. Está hoje desacreditada com razão e cremos difícil reabilitá-la, por estar, desde então, ligada à ideia das operações cabalísticas, dos grimórios, dos talismãs e de uma porção de práticas supersticiosas condenadas pela razão sadia. Declinando de toda solidariedade com essas pretensas ciências, o Espiritismo deve evitar apropriar-se de termos que pudessem falsear a opinião no que lhe concerne. No caso de que se trata, a qualificação de mágico é tão imprópria quanto seria a de feiticeiros atribuída aos médiuns. A designação desses objetos pelo nome de espelhos espirituais nos parece mais exata, porque ela lembra o princípio em virtude do qual se produzem os efeitos. À nomenclatura espírita, portanto, pode-se acrescentar as expressões: visão espiritual, sentido espiritual e espelhos espirituais.

Tendo em vista que a natureza, a forma e a substância desses objetos são indiferentes, compreende-se que indivíduos dotados da visão espiritual vejam na borra de café, na clara de ovo, no côncavo das mãos e nas cartas, o que outros veem num copo d’água, e que por vezes digam coisas certas. Para eles, esses objetos e suas combinações não têm qualquer significação; é apenas um meio de fixar a atenção, um pretexto para falar, um suporte, por assim dizer, pois é importante observar que, nesse caso, o indivíduo apenas os olha, no entanto, se não os tivesse diante de si, ele acreditaria faltar-lhe alguma coisa; ficaria desorientado, como o ficaria o nosso homem, se não tivesse o seu copo na mão; teria dificuldade para falar, como certos oradores, que nada sabem dizer se não estiverem em seu lugar habitual, ou se não tiverem na mão um caderno que eles não leem.

Mas se há pessoas sobre as quais esses objetos produzem o efeito dos espelhos espirituais, há também uma quantidade muito grande de criaturas que, não tendo outra faculdade senão a de ver pelos olhos e de possuir a linguagem convencional afeta a esses signos, abusam dos outros e de si mesmas; depois a igualmente numerosa dos charlatões, que exploram a credulidade. Somente a superstição pôde consagrar o uso de tais processos, como meio de adivinhação, e de uma porção de outros que não têm mais valor, atribuindo uma virtude às palavras, uma significação aos sinais materiais, às combinações fortuitas, que não têm qualquer ligação necessária com o objeto da pergunta ou do pensamento.

Dizendo que com a ajuda de tais processos certas pessoas por vezes podem dizer verdades, não é, entretanto, para reabilitá-las na opinião, mas para mostrar que as ideias supersticiosas às vezes têm sua origem num princípio verdadeiro, desnaturado pelo abuso e pela ignorância. Dando a conhecer a lei que rege as relações entre o mundo visível e o mundo invisível, o Espiritismo destrói, por isso mesmo, as ideias falsas que se tinham feito a respeito disso, como a lei da eletricidade destruiu, não o raio, mas as superstições engendradas pela ignorância das verdadeiras causas do raio.

Em resumo, a visão espiritual é um dos atributos do Espírito e constitui uma das percepções do sentido espiritual. É, pois, uma lei da Natureza.

Sendo o homem um Espírito encarnado, possui os atributos de Espírito e, consequentemente, as percepções do sentido espiritual.

No estado de vigília, tais percepções geralmente são vagas, difusas e, por vezes, mesmo, insensíveis e inapreciáveis, porque amortecidas pela atividade preponderante dos sentidos materiais. Não obstante, pode-se dizer que toda percepção extracorpórea é devida à ação do sentido espiritual que, nesse caso, supera a resistência da matéria.

No estado de sonambulismo natural ou magnético, de hipnotismo, de catalepsia, de letargia, de êxtase, e até mesmo no sono ordinário, estando os sentidos corporais momentaneamente entorpecidos, o sentido espiritual se desenvolve com mais liberdade.

Toda causa exterior tendente a entorpecer os sentidos corpóreos provoca, por isto mesmo, a expansão e a atividade do sentido espiritual.

As percepções pelo sentido espiritual não estão isentas de erro, pela razão que o Espírito encarnado pode ser mais ou menos adiantado e, consequentemente, mais ou menos apto a julgar as coisas corretamente e a compreendê-las, e porque ele ainda está sob a influência da matéria.

Uma comparação dará melhor a compreender o que se passa nesta circunstância. Na Terra, aquele que tem a melhor visão pode ser enganado pelas aparências. Por muito tempo o homem acreditou no movimento do sol. Foram-lhe necessárias a experiência e as luzes da Ciência para lhe mostrar que era vítima de uma ilusão. Assim acontece aos Espíritos pouco adiantados, encarnados ou desencarnados; eles ignoram muitas coisas do mundo invisível, como certos homens inteligentes, aliás, ignoram muitas coisas da Terra; a visão espiritual só lhes mostra o que sabem, e não basta para lhes dar os conhecimentos que lhes faltam; daí as aberrações e as excentricidades tão frequentemente notadas nos videntes e nos extáticos, sem contar que a sua ignorância os põe, mais que outros, à mercê dos Espíritos enganadores que exploram a sua credulidade e, mais ainda, o seu orgulho. Eis por que seria imprudente aceitar suas revelações sem controle. Não se deve perder de vista que estamos na Terra, num mundo de expiação, onde abundam os Espíritos inferiores e onde os Espíritos realmente superiores são exceções. Nos mundos adiantados é o contrário que se verifica.

As pessoas dotadas de visão espiritual podem ser consideradas médiuns? Sim e não, conforme as circunstâncias. A mediunidade consiste na intervenção dos Espíritos. O que se faz por si mesmo não é um ato mediúnico. Aquele que possui a visão espiritual vê por seu próprio Espírito e nada implica a necessidade do concurso de um Espírito estranho. Ele não é médium porque vê, mas por suas relações com outros Espíritos. Conforme sua natureza boa ou má, os Espíritos que o assistem podem facilitar ou entravar sua lucidez, fazer-lhe ver coisas justas ou falsas, o que também depende do objetivo a que se propõe e da utilidade que possam apresentar certas revelações. Aqui, como em todos os outros gêneros de mediunidade, as questões fúteis e de curiosidade, as intenções não sérias, os pontos de vista cúpidos e interesseiros, atraem os Espíritos levianos, que se divertem à custa das pessoas muito crédulas e se alegram por mistificá-las. Os Espíritos sérios só intervêm nas coisas sérias, e o vidente melhor dotado pode nada ver se lhe não for permitido responder ao que perguntam, ou ser perturbado por visões ilusórias, a fim de punir os curiosos indiscretos. Posto possua ele sua própria faculdade, e por mais transcendente que ela seja, ele nem sempre tem a liberdade de usá-la à vontade. Muitas vezes os Espíritos dirigem o seu emprego, e se ele dela abusa, será o primeiro punido pela ingerência dos maus Espíritos.

Resta um ponto importante a esclarecer: o da previsão de acontecimentos futuros. Compreende-se a visão das coisas presentes, a visão retrospectiva do passado, mas como pode a visão espiritual dar a certos indivíduos o conhecimento do que ainda não existe? Para não nos repetirmos, remetemos ao nosso artigo de maio de 1864, sobre a teoria da presciência, no qual a questão é tratada de maneira completa. Apenas acrescentamos algumas palavras.

Em princípio, o futuro é oculto ao homem pelos motivos que tantas vezes já foram expostos. Só excepcionalmente ele lhe é revelado, além do mais, ele é mais pressentido do que predito. Para conhecê-lo, Deus não deu ao homem nenhum meio certo. É, pois, em vão que este emprega, para tanto, toda a imensidão de processos inventados pela superstição, e que o charlatanismo explora em seu proveito. Se entre os ledores da sorte, profissionais ou não, alguns por vezes se encontram dotados da visão espiritual, é de notar que eles veem muito mais vezes no passado e no presente do que no futuro. Por isto seria imprudente confiar-se de maneira absoluta nas predições e com base nelas regular sua conduta.


Le sixième sens et la vue spirituelle.

Essai théorique sur les miroirs magiques.

 

On donne le nom de miroirs magiques à des objets, généralement à reflet brillant, tels que glaces, plaques métalliques, carafes, verres, etc., dans lesquels certaines personnes voient des images qui leur retracent des événements éloignés, passés, présents et quelquefois futurs, et les mettent sur la voie des réponses aux questions qui leur sont adressées. Ce phénomène n'est pas extrêmement rare; les esprits forts le taxent de croyance superstitieuse, d'effet de l'imagination, de jonglerie, comme tout ce qu'ils ne peuvent expliquer par les lois naturelles connues; ainsi en est-il pour eux de tous les effets somnambuliques et médianimiques. Mais si le fait existe, leur opinion ne saurait prévaloir contre la réalité, et l'on est bien forcé d'admettre l'existence d'une nouvelle loi encore inobservée.

Jusqu'à présent nous ne nous sommes point étendu sur ce sujet, malgré les faits nombreux qui nous étaient rapportés, parce que nous avons pour principe de n'affirmer que ce dont nous pouvons nous rendre compte, tenant toujours, autant que possible, à dire le pourquoi et le comment des choses, c'est-à-dire de joindre au récit une explication rationnelle. Nous avons mentionné le fait sur le témoignage de personnes sérieuses et honorables; mais, tout en admettant la possibilité du phénomène et même sa réalité, nous n'avions point encore vu assez clairement à quelle loi il pouvait se rattacher pour être en mesure d'en donner la solution, c'est pourquoi nous nous sommes abstenu. Les récits que nous avions sous les yeux pouvaient d'ailleurs être empreints d'exagération; ils manquaient surtout de certains détails d'observation qui, seuls, peuvent aider à fixer les idées. Aujourd'hui que nous avons vu, observé et étudié, nous pouvons parler en connaissance de cause.

Relatons d'abord sommairement les faits dont nous avons été témoin. Nous ne prétendons pas convaincre les incrédules; nous voulons seulement essayer d'éclaircir un point encore obscur de la science spirite.

Dans le cours de l'excursion spirite que nous avons faite cette année, étant allé passer quelques jours chez M. de W…, membre de la Société spirite de Paris, dans le canton de Berne en Suisse, ce dernier nous parla d'un paysan des environs, tourneur de son état, qui jouit de la faculté de découvrir les sources, et de voir dans un verre les réponses aux questions qu'on lui adresse. Pour la découverte des sources, il se transporte parfois sur les lieux, et se sert de la baguette usitée en pareil cas; d'autres fois, sans se déplacer, il se sert de son verre et donne les indications nécessaires. Voici un remarquable exemple de sa lucidité.

Dans la propriété de M. de W… existait une très longue conduite pour les eaux; mais, par suite de certaines causes locales, il eût été préférable que la prise d'eau fût plus rapprochée. Afin de s'épargner, s'il était possible, des fouilles inutiles, M. de W… eut recours au découvreur de sources. Celui-ci, sans quitter sa chambre, lui dit, en regardant dans son verre: « Sur le parcours des tuyaux, il existe une autre source; elle est à tant de pieds de profondeur au-dessous du quatorzième tuyau, à partir de tel point. » La chose fut trouvée telle qu'il l'avait indiquée. L'occasion était trop favorable pour n'en pas profiter dans l'intérêt de notre instruction. Nous nous rendîmes donc chez cet homme avec M. et Mme de W… et deux autres personnes. Quelques renseignements sur son compte ne sont pas sans utilité.

C'est un homme de soixante-quatre ans, assez grand, mince, d'une bonne santé, quoique impotent, et pouvant à grand-peine se transporter. Il est protestant, très religieux, et fait sa lecture habituelle de la Bible et de livres de prières. Son infirmité, suite d'une maladie, date de l'âge de trente ans. C'est à cette époque que sa faculté s'est révélée en lui; il dit que c'est Dieu qui a voulu lui donner une compensation. Sa figure est expressive et gaie, son œil vif, intelligent et pénétrant. Il ne parle que le patois allemand du pays, et n'entend pas un mot de français. Il est marié et père de famille; il vit du produit de quelques pièces de terre, et de son travail personnel; de sorte que, sans être dans une position aisée, il n'est pas dans le besoin.

Lorsque des personnes inconnues se présentent chez lui pour le consulter, son premier mouvement est celui de la défiance; il flaire en quelque sorte leurs intentions, et, pour peu que son impression soit défavorable, il répond qu'il ne s'occupe que des sources, et refuse toute expérience avec son verre. Il refuse surtout de répondre aux questions qui auraient pour but la cupidité, comme la recherche des trésors, les spéculations hasardeuses, ou l'accomplissement de quelque mauvais dessein, à toutes celles, en un mot, qui blesseraient la loyauté et la délicatesse; il dit que s'il s'occupait de ces choses-là, Dieu lui retirerait sa faculté. Lorsqu'on lui est présenté par des personnes de connaissance, et si on lui est sympathique, sa physionomie devient ouverte et bienveillante. Si le motif pour lequel on l'interroge est sérieux et utile, il s'y intéresse et se complaît dans les recherches; si les questions sont futiles et de pure curiosité, si l'on s'adresse à lui comme à un diseur de bonne aventure, il ne répond pas.

Grâce à la présence et à la recommandation de M. de W…, nous avons été assez heureux pour être dans de bonnes conditions vis-à-vis de lui, et nous n'avons eu qu'à nous louer de son accueil cordial et de sa bonne volonté.

Cet homme est de la plus complète ignorance en ce qui concerne le Spiritisme; il n'a pas la moindre idée des médiums, ni des évocations, ni de l'intervention des Esprits, ni de l'action fluidique; pour lui, sa faculté est dans ses nerfs, dans une force qu'il ne s'explique pas, et qu'il n'a jamais cherché à s'expliquer, car, lorsque nous avons voulu lui faire dire de quelle manière il voyait dans son verre, il nous a paru que c'était la première fois que son attention était portée sur ce point; or, c'était pour nous une chose essentielle; ce n'est qu'après des questions successives que nous sommes parvenu à comprendre, ou mieux à débrouiller sa pensée.

Son verre est un verre à boire ordinaire, vide; mais c'est toujours le même, et qui ne sert qu'à cet usage; il ne pourrait pas en employer d'autre. En prévision d'un accident, il lui fut indiqué où il pouvait en trouver un pour le remplacer; se l'étant procuré, il le tient en réserve. Quand il l'interroge, il le tient dans le creux de la main, et regarde dans l'intérieur; si le verre est placé sur la table, il ne voit rien. Quand il fixe son regard sur le fond, ses yeux semblent se voiler un instant, puis reprennent bientôt leur éclat habituel; alors, regardant alternativement son verre et ses interlocuteurs, il parle comme d'habitude, disant ce qu'il voit, répondant aux questions, d'une manière simple, naturelle et sans emphase. Dans ses expériences il ne fait aucune invocation, n'emploie aucun signe cabalistique, ne prononce ni formules, ni paroles sacramentelles. Lorsqu'une question lui est faite, il concentre, dit-il, son attention et sa volonté sur le sujet proposé en regardant au fond du verre, où se forment à l'instant les images des personnes et des choses relatives à l'objet qui l'occupe. Quant aux personnes, il les dépeint au physique et au moral, comme le ferait un somnambule lucide, de manière à ne laisser aucun doute sur leur identité. Il décrit aussi, avec plus ou moins de précision, les lieux qu'il ne connaît pas; ceci détruit l'idée que ce qu'il voit est un jeu de son imagination. Lorsqu'il a dit à M. de W… que la source était à tant de pieds au-dessous du quatorzième tuyau, il ne pouvait certainement pas le prendre dans son propre cerveau. Pour se rendre plus intelligible, il se sert au besoin d'un morceau de craie, avec lequel il trace sur la table des points, des ronds, des lignes de diverses grandeurs, indiquant les personnes et les lieux dont il parle, leur position relative, etc., de manière à n'avoir qu'à les montrer quand il y revient, en disant: C'est celui-ci qui fait telle chose, ou c'est dans tel endroit que telle chose se passe.

Un jour, une dame l'interrogeait sur le sort d'une jeune fille enlevée par des Bohémiens depuis plus de quinze ans, sans qu'on ait pu en avoir des nouvelles depuis lors. Partant, à la manière des somnambules, de l'endroit où la chose avait eu lieu, il suivait les traces de l'enfant qu'il disait voir dans son verre, et qui avait, selon lui, suivi les bords d'une grande eau, c'est-à-dire, la mer. Il affirma qu'elle vivait, décrivit sa situation, sans toutefois pouvoir préciser le lieu de sa résidence, parce que, dit-il, l'époque voulue pour qu'elle fût rendue à sa mère n'était pas encore arrivée; qu'il fallait au préalable que certaines choses qu'il spécifia fussent accomplies, et qu'alors une circonstance fortuite ferait que la mère reconnaîtrait son enfant. Afin de pouvoir mieux préciser la direction à suivre pour la retrouver, il demanda qu'une autre fois on lui apportât une carte géographique. Cette carte lui fut montrée en notre présence le jour de notre visite; mais, comme il n'a aucune notion de géographie, on fut obligé de lui expliquer ce qui représentait la mer, les fleuves, les villes, les routes et les montagnes; alors, mettant le doigt sur le point de départ, il indiqua la route qui conduisait au lieu en question. Quoiqu'il se fût écoulé un certain temps depuis la première consultation, il se ressouvint parfaitement de tout ce qu'il avait dit, et fut le premier à parler de l'enfant avant qu'on le questionnât.

Cette affaire n'ayant pas encore reçu son dénouement, nous ne pouvons rien préjuger sur le résultat de ses prévisions; nous dirons seulement qu'à l'égard des circonstances passées et connues, il avait vu très juste. Nous ne rapportons ce fait que comme spécimen de sa manière de voir.

Pour ce qui nous concerne personnellement, nous avons également pu constater sa lucidité. Sans question préalable, et même sans que nous y songeassions, il nous parla spontanément d'une affection dont nous souffrons depuis un certain temps, et dont il assigna le terme; et, chose remarquable, c'est que ce terme est précisément celui qu'avait indiqué la somnambule, madame Roger, que nous avions consulté à cet effet, six mois auparavant.

Il ne nous connaissait ni de vue ni de nom, et quoique, dans son ignorance, il lui fût difficile de comprendre la nature de nos travaux, par des circonlocutions, des images et des expressions à sa manière, il en indiqua, à ne pas s'y méprendre, le but, les tendances et le résultat inévitable; ce dernier point surtout paraissait l'intéresser vivement, car il répétait sans cesse que la chose devait s'accomplir, que nous y étions destiné depuis notre naissance, et que rien ne pouvait s'y opposer. De lui-même il parla de la personne appelée à continuer l'œuvre après notre mort, des obstacles que certains individus cherchaient à jeter sur notre route, des rivalités jalouses et des ambitions personnelles; il désigna d'une manière non équivoque ceux qui pouvaient utilement nous seconder et ceux dont nous devions nous défier, revenant sans cesse sur les uns et sur les autres avec une sorte d'acharnement; il entra enfin dans des détails circonstanciés d'une parfaite justesse, d'autant plus remarquables que la plupart n'étaient provoqués par aucune question, et qu'ils coïncidaient de tous points avec les révélations que nous ont faites mantes fois nos guides spirituels pour notre gouverne.

Ce genre de recherches sortait totalement des habitudes et des connaissances de cet homme, ainsi qu'il le disait lui-même; à plusieurs reprises il répéta: « Je dis ici beaucoup de choses que je ne dirais pas à d'autres, parce qu'ils ne me comprendraient pas; mais lui (en nous désignant) me comprend parfaitement. » En effet, il y avait des choses dites à dessein à demi-mots, qui n'étaient intelligibles que pour nous. Nous vîmes dans ce fait une marque spéciale de la bienveillance des bons Esprits qui ont voulu nous confirmer, par ce moyen nouveau et inattendu, les instructions qu'ils nous avaient données en d'autres circonstances, en même temps que c'était pour nous un sujet d'observation et d'étude.

Il est donc avéré pour nous que cet homme est doué d'une faculté spéciale, et qu'il voit réellement. Voit-il toujours juste? Là n'est pas la question; il suffit qu'il ait vu assez souvent pour constater l'existence du phénomène; l'infaillibilité n'est donnée à personne sur la terre, par la raison que personne n'y jouit de la perfection absolue. Comment voit-il? Là est le point essentiel et qui ne peut se déduire que de l'observation.

Par suite de son manque d'instruction et des préjugés du milieu dans lequel il a toujours vécu, il est imbu de certaines idées superstitieuses qu'il mêle à ses récits; c'est ainsi, par exemple, qu'il croit de bonne foi à l'influence des planètes sur la destinée des individus, et à celle des jours heureux et malheureux. D'après ce qu'il avait vu de nous, nous devions être né sous, nous ne savons plus quel signe; nous devions nous abstenir d'entreprendre des choses importantes à tel jour de la lune. Nous n'avons pas essayé de le dissuader, ce à quoi nous n'aurions probablement pas réussi, et n'aurait servi qu'à le troubler; mais, parce qu'il a quelques idées fausses, ce n'est pas un motif pour dénier la faculté qu'il possède; car, de ce qu'il y a de mauvais grains dans un tas de blé, cela ne veut pas dire qu'il n'y a pas de bon blé; et de ce qu'un homme ne voit pas toujours juste, il ne s'ensuit pas qu'il ne voit pas du tout.

Lorsqu'il se fut rendu compte à peu près du but et des résultats de nos travaux, il demanda très sérieusement et avec une sorte d'anxiété à l'oreille de M. de W…, si nous aurions par hasard trouvé le sixième livre de Moïse. Or, selon une tradition populaire dans certaines localités, Moïse aurait écrit un sixième livre contenant de nouvelles révélations et l'explication de tout ce qu'il y a d'obscur dans les cinq premiers. Selon la même tradition, ce livre doit être un jour découvert. Si quelque chose peut donner la clef de toutes les allégories des Ecritures, c'est assurément le Spiritisme, qui réaliserait ainsi l'idée attachée au prétendu sixième livre de Moïse. Il est assez singulier que cet homme ait conçu cette pensée.

Un examen attentif des faits ci-dessus démontre une complète analogie entre cette faculté et le phénomène désigné sous les noms de seconde vue, double vue, ou somnambulisme éveillé, et qui est décrit dans le Livre des Esprits, chap. VIII: Emancipation de l'âme, et dans le Livre des Médiums, chap. XIV… Elle a donc son principe dans la propriété rayonnante du fluide périsprital, qui permet à l'âme, dans certains cas, de percevoir les choses à distance, autrement dit, dans l'émancipation de l'âme, qui est une loi de nature. Ce ne sont pas les yeux qui voient, c'est l'âme qui, par ses rayons, atteignant un point donné, exerce son action au dehors et sans le concours des organes corporels. Cette faculté, beaucoup plus commune qu'on ne le croit, se présente avec des degrés d'intensité et des aspects très divers selon les individus: chez les uns, elle se manifeste par la perception permanente ou accidentelle, plus ou moins nette, des choses éloignées; chez d'autres, par la simple intuition de ces mêmes choses; chez d'autres, enfin, par la transmission de la pensée. Il est à remarquer que beaucoup la possèdent sans s'en douter, et surtout sans s'en rendre compte; elle est inhérente à leur être, et leur semble tout aussi naturelle que celle de voir par les yeux; souvent même ils confondent ces deux perceptions. Si on leur demande comment ils voient, la plupart du temps ils ne savent pas plus l'expliquer qu'ils n'expliqueraient le mécanisme de la vision ordinaire.

Le nombre des personnes qui jouissent spontanément de cette faculté, étant de beaucoup le plus considérable, il en résulte qu'elle est indépendante de tout appareil quelconque. Le verre dont cet homme se sert est un accessoire qui ne lui est utile que par habitude, car nous avons constaté qu'en plusieurs circonstances il décrivait les choses sans le regarder. Pour ce qui nous concernait, notamment en parlant des individus, il les indiquait avec sa craie, par les signes caractéristiques de leurs qualités et de leur position; c'est sur ces signes qu'il parlait en regardant sa table, sur laquelle il semblait voir aussi bien que dans son verre qu'il regardait à peine; mais, pour lui, il le croit nécessaire, et voici comment on peut l'expliquer.

L'image qu'il observe se forme dans les rayons du fluide périsprital qui lui en transmettent la sensation; son attention se concentrant dans le fond de son verre, il y dirige les rayons fluidiques, et tout naturellement l'image s'y concentre comme elle se concentrerait sur un objet quelconque: un verre d'eau, une carafe, une feuille de papier, une carte, ou sur un point vague de l'espace. C'est un moyen de fixer la pensée et de la circonscrire, et nous sommes convaincu que quiconque exerce cette faculté à l'aide d'un objet matériel, avec un peu d'exercice, et s'il avait la ferme volonté de s'en passer, verrait tout aussi bien.

En admettant toutefois, ce qui n'est pas encore prouvé; que l'objet agisse sur certaines organisations, à la façon des excitants, de manière à provoquer le dégagement fluidique, et par suite l'isolement de l'Esprit, il est un fait capital acquis à l'expérience, c'est qu'il n'existe aucune substance spéciale jouissant à cet égard d'une propriété exclusive. L'homme en question ne voit que dans un verre vide, tenu dans le creux de sa main, et ne peut voir dans le premier verre venu ni dans son verre autrement placé. Si la propriété était inhérente à la substance et à la forme de l'objet, pourquoi deux objets de même nature et de même forme ne la posséderaient-ils pas pour le même individu? Pourquoi ce qui produit de l'effet sur l'un ne le produirait-il pas sur un autre? Pourquoi, enfin, tant de personnes possèdent-elles cette faculté sans le secours d'aucun appareil? C'est, ainsi que nous l'avons dit, que la faculté est inhérente à l'individu et non au verre. L'image se forme en lui-même, ou mieux dans les rayons fluidiques qui émanent de lui; le verre n'offre, pour ainsi dire, que le reflet de cette image: c'est un effet et non la cause. Telle est la raison pour laquelle tout le monde ne voit pas dans ce qu'on est convenu d'appeler les miroirs magiques; il ne suffit pas pour cela de la vue corporelle, il faut être doué de la faculté appelée double vue, qui serait plus exactement nommée vue spirituelle; et cela est si vrai, que certaines personnes voient parfaitement les yeux fermés.

La vue spirituelle est en réalité le sixième sens ou sens spirituel dont on a tant parlé, et qui, de même que les autres sens, peut être plus ou moins obtus ou subtil; il a pour agent le fluide périsprital, comme la vue corporelle a pour agent le fluide lumineux; de même que le rayonnement du fluide lumineux apporte l'image des objets sur la rétine, le rayonnement du fluide périsprital apporte à l'âme certaines images et certaines impressions; ce fluide, comme tous les autres fluides, a ses effets propres, ses propriétés sui generis.

L'homme étant composé de l'Esprit, du périsprit et du corps, pendant la vie les perceptions et les sensations se produisent à la fois par les sens organiques et par le sens spirituel; après la mort, les sens organiques sont détruits, mais, le périsprit restant, l'Esprit continue à percevoir par le sens spirituel, dont la subtilité s'accroît en raison du dégagement de la matière. L'homme en qui ce sens est développé jouit ainsi, par anticipation, d'une partie des sensations de l'Esprit libre. Quoique amorti par la prédominance de la matière, le sens spirituel n'en produit pas moins chez tous les hommes une multitude d'effets réputés merveilleux, faute d'en connaître le principe.

Cette faculté étant dans la nature, puisqu'elle tient à la constitution de l'Esprit, a donc existé de tout temps; mais, comme tous les effets dont la cause est inconnue, l'ignorance l'attribuait à des causes surnaturelles. Ceux qui la possédaient à un degré éminent, pouvant dire, savoir et faire des choses au-dessus de la portée du vulgaire, les uns ont été accusés de pactiser avec le diable, qualifiés de sorciers et brûlés vifs; d'autres ont été béatifiés comme ayant le don des miracles, tandis qu'en réalité tout se réduisait à l'application d'une loi naturelle.

Revenons aux miroirs magiques. Le mot magie, qui signifiait jadis science des sages, par l'abus qu'en ont fait la superstition et le charlatanisme, a perdu sa signification primitive; il est aujourd'hui discrédité avec raison, et nous croyons difficile de le réhabiliter, parce qu'il est désormais lié à l'idée des opérations cabalistiques, des grimoires, des talismans et d'une foule de pratiques superstitieuses condamnées par la saine raison. Le Spiritisme, déclinant toute solidarité avec ces prétendues sciences, doit éviter de s'approprier des termes qui pourraient fausser l'opinion en ce qui le concerne. Dans le cas dont il s'agit, la qualification de magique est aussi impropre que le serait celle de sorciers attribuée aux médiums; la désignation de ces objets sous le nom de miroirs spirituels nous paraît plus exacte, parce qu'elle rappelle le principe en vertu duquel les effets se produisent. A la nomenclature spirite on peut donc ajouter les noms de: vue spirituelle, sens spirituel et miroirs spirituels.

Puisque la nature, la forme et la substance de ces objets sont choses indifférentes, on comprend que des individus doués de la vue spirituelle voient dans du marc de café, dans des blancs d'œufs, dans le creux de la main ou sur des cartes, ce que d'autres voient dans un verre d'eau, et disent parfois des choses vraies. Ces objets et leurs combinaisons n'ont aucune signification par eux-mêmes; ce n'est qu'un moyen de fixer l'attention, un prétexte de parler, un maintien, pour ainsi dire, car il est à remarquer que, dans ce cas, l'individu les regarde à peine, et cependant s'il ne les avait pas devant lui, il croirait qu'il lui manque quelque chose; il serait désorienté comme le serait notre homme s'il n'avait pas son verre dans la main; il serait gêné pour parler, comme certains orateurs qui ne savent rien dire s'ils ne sont pas à leur place habituelle, ou s'ils n'ont pas à la main un cahier qu'ils ne lisent pas.

Mais s'il est quelques personnes sur lesquelles ces objets produisent l'effet de miroirs spirituels, il y a aussi la foule bien autrement grande des gens qui, n'ayant d'autre faculté que celle de voir par les yeux, et de posséder le langage de convention affecté à ces signes, abusent les autres ou s'abusent eux-mêmes; puis celle également nombreuse des charlatans qui exploitent la crédulité. La superstition seule a pu consacrer l'usage de ces procédés, comme moyen de divination, et d'une foule d'autres qui n'ont pas plus de valeur, en attribuant une vertu à des mots, une signification à des signes matériels, à des combinaisons fortuites, qui n'ont aucune liaison nécessaire avec l'objet de la demande ou de la pensée.

En disant qu'à l'aide de ces procédés, certaines personnes peuvent parfois dire des vérités, ce n'est donc point pour les réhabiliter dans l'opinion, mais pour montrer que les idées superstitieuses ont parfois leur origine dans un principe vrai, dénaturé par l'abus et l'ignorance. Le Spiritisme, en faisant connaître la loi qui régit les rapports du monde visible et du monde invisible, détruit, par cela même, les idées fausses que l'on s'était faites sur ces rapports, comme la loi de l'électricité a détruit, non pas la foudre, mais les superstitions engendrées par l'ignorance des véritables causes de la foudre.

En résumé: la vue spirituelle est un des attributs de l'Esprit, et constitue une des perceptions du sens spirituel; c'est par conséquent une loi de nature.

L'homme, étant un Esprit incarné, possède les attributs de l'Esprit et, par suite, les perceptions du sens spirituel.

A l'état de veille, ces perceptions sont généralement vagues, diffuses, parfois même insensibles et inappréciables, parce qu'elles sont amorties par l'activité prépondérante des sens matériels. Néanmoins on peut dire que toute perception extra-corporelle est due à l'action du sens spirituel qui, dans ce cas, surmonte la résistance de la matière.

Dans l'état de somnambulisme naturel ou magnétique, d'hypnotisme, de catalepsie, de léthargie, d'extase, et même dans le sommeil ordinaire, les sens corporels étant momentanément assoupis, le sens spirituel se développe avec plus de liberté.

Toute cause extérieure tendant à engourdir les sens corporels, provoque, par cela même, l'expansion et l'activité du sens spirituel.

Les perceptions par le sens spirituel ne sont pas exemptes d'erreurs, par la raison que l'Esprit incarné peut être plus ou moins avancé, et, par conséquent, plus ou moins apte à juger sainement les choses et à les comprendre, et qu'il est encore sous l'influence de la matière.

Une comparaison fera mieux comprendre ce qui se passe en cette circonstance. Sur la terre, celui qui a la meilleure vue peut être trompé par les apparences; longtemps l'homme a cru au mouvement du soleil; il lui a fallu l'expérience et les lumières de la science pour lui montrer qu'il était le jouet d'une illusion. Ainsi en est-il des Esprits peu avancés, incarnés ou désincarnés; ils ignorent beaucoup de choses du monde invisible, comme certains hommes intelligents, du reste, ignorent beaucoup de choses de la terre; la vue spirituelle ne leur montre que ce qu'ils savent, et ne suffit pas pour leur donner les connaissances qui leur manquent; de là les aberrations et les excentricités que l'on remarque si souvent chez les voyants et les extatiques; sans compter que leur ignorance les met, plus que d'autres, à la merci des Esprits trompeurs qui exploitent leur crédulité et plus encore leur orgueil. Voilà pourquoi il y aurait imprudence à accepter sans contrôle leurs révélations. Il ne faut pas perdre de vue que nous sommes sur la terre, dans un monde d'expiation, où abondent les Esprits inférieurs, et où les Esprits réellement supérieurs sont des exceptions; dans les mondes avancés, c'est le contraire qui a lieu.

Les personnes douées de la vue spirituelle peuvent-elles être considérées comme des médiums? Oui et non, selon les circonstances. La médiumnité consiste dans l'intervention des Esprits; ce que l'on fait par soi-même n'est pas un acte médianimique. Celui qui possède la vue spirituelle voit par son propre Esprit, et rien n'implique la nécessité du concours d'un Esprit étranger; il n'est pas médium parce qu'il voit, mais par le fait de ses rapports avec d'autres Esprits. Selon leur nature bonne ou mauvaise, les Esprits qui l'assistent peuvent faciliter ou entraver sa lucidité, lui faire voir des choses justes ou fausses, ce qui dépend aussi du but qu'on se propose, et de l'utilité que peuvent présenter certaines révélations. Ici, comme dans tous les autres genres de médiumnité, les questions futiles et de curiosité, les intentions non sérieuses, les vues cupides et intéressées, attirent les Esprits légers qui s'amusent aux dépens des gens trop crédules et se plaisent à les mystifier. Les Esprits sérieux n'interviennent que dans les choses sérieuses, et le voyant le mieux doué peut ne rien voir s'il ne lui est pas permis de répondre à ce qu'on lui demande, ou être troublé par des visions illusoires pour punir les curieux indiscrets. Bien qu'il possède en propre sa faculté, et quelque transcendante qu'elle soit, il ne lui est pas toujours libre d'en user à son gré. Souvent les Esprits en dirigent l'emploi, et s'il en abuse, il en est le premier puni par l'immixtion des mauvais Esprits.

Un point important reste à éclaircir: celui de la prévision des événements futurs. On comprend la vue des choses présentes, la vue rétrospective du passé, mais comment la vue spirituelle peut-elle donner à certains individus la connaissance de ce qui n'existe pas encore? Pour ne pas nous répéter, nous renvoyons à notre article du mois de mai 1864 page 129, sur la théorie de la prescience, où la question est traitée d'une manière complète. Nous n'y ajouterons que quelques mots. En principe, l'avenir est caché à l'homme par les motifs qui ont été maintes fois développés; ce n'est qu'exceptionnellement qu'il lui est révélé, et encore lui est-il plutôt pressenti que prédit. Pour le connaître, Dieu n'a donné à l'homme aucun moyen certain; c'est donc en vain que ce dernier emploie à cet effet la multitude des procédés inventés par la superstition, et que le charlatanisme exploite à son profit. Si parmi les diseurs de bonne aventure, de profession ou non, il s'en trouve parfois qui soient doués de la vue spirituelle, il est à remarquer qu'ils voient bien plus souvent dans le passé et le présent que dans l'avenir; c'est pourquoi il y aurait imprudence à se fier d'une manière absolue sur leurs prédictions, et à régler sa conduite en conséquence.

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