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Revista Espírita 1862 » Setembro » Poesias espíritas » Peregrinações da alma

Assim como o sangue, na circulação

Em íntimas gotas vem do coração,

Nossa vida emana, sim, da Divindade

No infinito gravita durante a Eternidade.

 

A Terra é um lugar de prova e sofrimento;

Aí está o nosso pranto, aí o ranger de dentes.

Aí é o inferno e o nosso livramento,

Na proporção do mal, em seus antecedentes.

 

Assim, pois, cada um deixando este vil mundo,

Se eleva mais ou menos, vai a outro planeta.

Conforme for mais puro, ou for ainda imundo,

Seu ser se desenvolve, ou aqui resta grilheta.

 

É que ninguém atinge do eleito a posição,

Sem antes expiar todos os malefícios,

Se o cáustico remorso, pesar e oração

Não lançam sobre o mal o véu dos benefícios.

 

Como um errante Espírito, manchado inda de lama,

Vem tomar novo corpo aqui, para sofrer,

Renascer para a virtude numa família humana

Depurar-se no bem e de novo morrer.

 

Encarnar-se entre nós vêm por devotamento

É vontade de Deus as almas escolhidas,

Servas de um Deus bom, do grão merecimento

Pregar a lei do amor, curar nossas feridas.

 

E uma vez terminada esta missão tão santa

Logo Deus as destaca ao celeste labor,

De onde a alma se eleva e alegremente canta

Nesse coro infinito do oceano do amor.

 

Terminadas, assim, nossas provas um dia,

Pelo amor elevados a santas regiões,

Triunfantes iremos ao seio da harmonia,

A aumentar dos eleitos as nobres legiões.

 

Lá por felicidade e cúmulo de delícias

Aos que nos foram caros Deus nos reunirá;

Fundidos na ventura de mui santas carícias

De um Céu sempre puro nos abençoará.

 

No bem, como no belo, mudada a condição,

Seremos transferidos para a santa cidade

Onde veremos, sim, crescer a gratidão

Pelo imenso tesouro que é a Felicidade.

 

Dos mundos graduados seguindo a imensa escala,

Sempre mais depurados, mudando de confins,

Iremos terminar onde tudo se instala,

A renascer do amor, brilhantes serafins.

 

De uma raça nova seremos pioneiros

E os anjos da guarda dos homens do futuro;

Da vontade de Deus seremos mensageiros

Vigilantes fiéis de um mundo nascituro.

 

De Deus tal é o poder real, assim parece,

No imenso percurso da pobre Humanidade.

Inclinemos, então, que a ordem não perece:

Cantando glória a Deus por toda a Eternidade.

 

B. JOLY, herborista de Lyon [1]

 

OBSERVAÇÃO: Talvez possam os críticos severos fazer algumas restrições a esses versos. Deixamo-lhes a tarefa e consideramos apenas a ideia, cuja justeza, do ponto de vista espírita, não pode ser negada. É mesmo a alma em suas peregrinações, pelo trabalho depurador, para chegar à felicidade sem fim. Um ponto, entretanto, que parece dominar, é muito ortodoxo, e não poderíamos admiti-lo. Está expresso na quadra da epigrafe: No infinito gravita durante a Eternidade. Se por isso entende o autor que a alma sobe incessantemente, resulta que jamais chegaria à felicidade perfeita. Diz a razão que, sendo a alma um ser finito, sua ascensão para o bem absoluto deve ter um limite; que, chegada a um certo ponto, não ficará em perpétua contemplação, aliás, pouco atraente, e que seria uma perpétua inutilidade, mas terá uma atividade incessante e bem-aventurada, como auxiliar da Divindade.



[1] Por uma falha tipográfica, o original foi publicado sem a quinta estrofe. O Sr. Allan Kardec a incluiu no número de novembro, com uma pequena nota explicativa. Pondo aquela estrofe no devido lugar, pareceu-nos necessário este aviso e desnecessária a nota final do mês de novembro. O Tradutor.

 


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