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Revista Espírita 1859 » Dezembro » Conversas familiares de além-túmulo » Comunicação espontânea de Privat d'anglemont

(QUARTA CONVERSA. 30 DE SETEMBRO DE 1859)

 

Eis que enfim o Espiritismo faz um grande barulho por toda parte, e eis que os jornais dele se ocupam, de maneira indireta, é verdade, citando fatos extraordinários de aparições, de batidas, etc. Meus ex-confrades citam os fatos sem comentários, dando assim prova de inteligência, porque jamais a doutrina espírita deve ser mal discutida ou tomada como coisa má. Eles ainda não admitiram, entretanto, a veracidade do papel do médium. Duvidam. Mas eu lhes refuto as objeções dizendo simplesmente que eles também são médiuns. Todos os escritores, grandes e pequenos, são mais ou menos médiuns, tendo em vista que os Espíritos que estão em seu redor atuam sobre o seu sistema mental e muitas vezes lhes inspiram os pensamentos que eles se vangloriam de ter concebido. Certamente jamais aceitariam que eu, Privat d’Anglemont, Espírito leviano por excelência, tivesse resolvido esta questão. Entretanto, digo apenas a verdade e, como prova, levanto uma questão muito simples: Como é que depois de haverem escrito durante algum tempo, eles se acham superexcitados e num estado febril pouco comum? É o esforço da atenção, direis. Mas quando estais muito atentos numa coisa, como, por exemplo, na contemplação de um quadro, também sentis febre? Não, isso não. É, pois, necessário que haja outra causa. Pois bem, eu repito: a causa está no tipo de comunicação existente entre o cérebro do escritor e os Espíritos que o rodeiam. Agora, meus caros confrades, chicoteai o Espiritismo, se vos parece bem. Ridicularizai-o, ride, mas seguramente zombais de vós mesmos. Estais dando, para mais tarde, vergastadas em vós mesmos... Compreendeis?

PRIVAT D’ANGLEMONT

 

O médium que serviu de intérprete a Privat d’Anglemont na Sociedade teve a ideia de evocá-lo particularmente e manteve com ele a conversa que segue. Parece que o Espírito sentiu por ele uma certa afeição, seja porque o achasse um instrumento fácil, seja porque há simpatia entre ambos. O médium é um estreante na carreira literária, e os seus promissores ensaios anunciam disposições que certamente Privat terá prazer de encorajar.

1. Evocação.

─ Eis-me aqui. Já estou contigo há algum tempo. Eu esperava que me evocasses. Fui eu que, faz pouco tempo, te inspirei alguns bons pensamentos. Meu caro amigo, isto era para te consolar um pouco e fazer-te suportar com mais coragem as penas deste mundo. Pensas então que eu também não tenha sofrido mais do que imaginais vós todos que sorríeis de minhas excentricidades? Debaixo dessa couraça de indiferença que eu sempre afetava, quantos pesares e quantas dores não ocultei! Mas eu tinha uma qualidade muito preciosa para um homem de letras e para um artista. Sempre, e não importa em que ocasião, temperei meus sofrimentos com a alegria. Quando sofria muito, fazia pilhérias, trocadilhos, e pregava peças. Quantas vezes a fome, a sede e o frio não me bateram à porta! E quantas vezes não lhes respondi com uma longa e alegre gargalhada! Gargalhada fingida, dirás tu. Oh! Não, meu amigo! Confesso-te que eu era sincero. Que queres? Eu sempre tive o mais despreocupado caráter possível. Jamais me preocupei com o futuro, com o passado e com o presente. Vivi sempre como um verdadeiro boêmio, ao léu, gastando cinco francos quando os tinha, e mesmo quando não os tinha. Eu não era mais rico quatro dias depois de ter recebido o ordenado, do que o era na véspera.

Certamente não desejo a ninguém que leve uma vida assim tão inútil, incoerente e irracional. As excentricidades não são mais de nosso tempo. As ideias novas, por isso mesmo, fizeram rápidos progressos. É uma vida de que absolutamente não me vanglorio, e da qual por vezes me envergonho. A juventude deve ser estudiosa. Deve, pelo trabalho, fortalecer a inteligência, a fim de melhor conhecer e apreciar os homens e as coisas.

Desiludi-vos, moços, se pensais que ao sair do colégio sois homens feitos ou sábios. Tendes a chave para tudo saber. Cabe-vos agora trabalhar e estudar. Deveis entrar mais resolutamente no vasto campo que se vos oferece, cujos caminhos foram aplainados por vossos estudos no colégio. Sei que a juventude necessita de distrações, pois agir de outra forma seria contrário à sua natureza. Não obstante, não as deve ter em demasia, porque aquele que na primavera da vida só pensou no prazer, prepara para mais tarde terríveis remorsos. É então que a experiência e as necessidades do mundo lhe ensinam que os momentos perdidos jamais se recuperam. Os moços precisam de leituras sérias. Muitas vezes os autores antigos são os melhores, porque seus bons pensamentos sugerem outros pensamentos. Eles devem sobretudo evitar os romances, que apenas excitam a imaginação e deixam o coração vazio. Os romances não deveriam ser tolerados senão como distração, uma vez ou outra, ou para certas damas que não têm nada de melhor a fazer. Instrui-vos! Instruí-vos! Aperfeiçoai a inteligência que Deus vos deu. Só a esse preço somos dignos de viver.

P. ─ Tua linguagem me espanta, meu caro Privat. Tu te apresentaste com aparência muito espirituosa, não há dúvida, mas não como um Espírito profundo, e agora...

R. ─ Alto lá, moço! Para com isso! Eu apareci, ou antes, com todos vós me comuniquei como um Espírito pouco profundo, é bem verdade, mas é que eu ainda não estava completamente desprendido do meu envoltório terreno, e a condição de Espírito ainda não se havia revelado em toda a sua realidade. Agora, amigo, sou um Espírito e nada mais que um Espírito. Vejo, sinto e experimento tudo como os outros, e minha vida na Terra apenas se me afigura um sonho. E que sonho! Já estou em parte habituado a este mundo novo, que por algum tempo será a minha morada.

P. ─ Quanto tempo pensas ficar como Espírito e o que fazes na tua nova existência? Quais são as tuas ocupações?

R. ─ Ainda está nas mãos de Deus o tempo que devo ficar como Espírito, e durará, eu suponho, e tanto quanto posso conceber, até que Deus julgue minha alma bastante depurada para encarnar numa região superior. Quanto às minhas ocupações, são quase nulas. Ainda estou errante e isto é uma consequência da vida que levei na Terra. Assim, aquilo que me parecia um prazer no vosso mundo é agora uma punição para mim. Sim, é verdade, eu desejaria ter uma ocupação séria; interessar-me por alguém que merecesse a minha simpatia; inspirar-lhe bons pensamentos. Mas, meu caro amigo, já conversamos bastante, e se me dás licença, vou retirar-me. Até logo. Se tiveres necessidade de mim, não receies chamar-me. Virei com prazer. Coragem! Se feliz!


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