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O que é o Espiritismo? » Capítulo I - Pequena conferência Espírita » Segundo diálogo - O céptico » Diversidade dos Espíritos

DIVERSIDADE DOS ESPÍRITOS

 

   O Visitante. – Falais de Espíritos, bons ou maus, sérios ou frívolos; confesso-vos que não compreendo essa diferença; parece-me que, ao deixar seu envoltório corporal, eles devem se desfazer das imperfeições inerentes à matéria; que a luz deve se acender para eles sobre todas as verdades que nos são ocultas, e que devem ser libertos dos preconceitos terrenos.

   A. K. – Sem dúvida, eles estão desembaraçados das imperfeições físicas, ou seja, das doenças e das enfermidades do corpo; mas as imperfeições morais são do Espírito e não do corpo. Entre eles, há os que são mais ou menos avançados intelectual e moralmente. Seria um erro acreditar que os Espíritos, ao deixar seu corpo material, sejam subitamente iluminados pela luz da verdade. Acreditais, por exemplo, que, quando morrerdes, não haverá nenhuma diferença entre o vosso Espírito e o de um selvagem ou de um malfeitor? Se assim fosse, de que vos serviria ter trabalhado por vos instruir e vos melhorar, se um canalha seria igual a vós depois da morte? O progresso dos Espíritos só se realiza gradualmente, e algumas vezes bem lentamente. Nesse número, e isso depende de sua depuração, há os que veem as coisas de um ponto de vista mais justo do quando vivos; outros, ao contrário, ainda têm as mesmas paixões, os mesmos preconceitos e os mesmos erros, até que o tempo e novas provas lhes tenham permitido se esclarecer. Notai bem que essa conclusão resulta da experiência, pois é assim que eles se apresentam a nós em suas comunicações. É, pois, um princípio elementar do Espiritismo que, entre os Espíritos, há todos os graus de inteligência e de moralidade.

   O Visitante. – Então por que os Espíritos não são todos perfeitos? É que Deus os criou de todas as espécies de categorias? 

   A. K. – É o mesmo que perguntar porque nem todos os alunos de um colégio estão no curso de filosofia. Os Espíritos têm todos a mesma origem e o mesmo destino. As diferenças que existem entre eles não constituem espécies distintas, mas graus diversos de adiantamento.

   Os Espíritos não são perfeitos, porque são as almas dos homens, e os homens não são perfeitos; pela mesma razão, os homens não são perfeitos, porque são a encarnação de Espíritos mais ou menos avançados. O mundo corporal e o mundo espiritual se derramam incessantemente um no outro; pela morte do corpo, o mundo corporal fornece seu contingente ao mundo espiritual; pelos nascimentos, o mundo espiritual alimenta a humanidade. A cada nova existência, o Espírito realiza um progresso mais ou menos grande, e quando adquire na Terra a soma de conhecimentos e a elevação moral que nosso globo comporta, ele o deixa para passar a um mundo mais elevado, onde aprende novas coisas.

   Os Espíritos que formam a população invisível da Terra são, de alguma maneira, o reflexo do mundo corporal; nela se encontram os mesmos vícios e as mesmas virtudes; há entre eles doutos, ignorantes e pseudossábios, sábios e tolos, filósofos, argumentadores, sistemáticos; não tendo ainda se livrado de seus preconceitos, todas as opiniões políticas e religiosas têm aí seus representantes; cada um fala de acordo com suas ideias, e o que dizem muitas vezes é apenas sua opinião pessoal; eis porque não se deve acreditar cegamente em tudo o que dizem os Espíritos.

   O Visitante. – Se é assim, percebo uma imensa dificuldade; nesse conflito de opiniões diversas, como distinguir o erro da verdade? Não vejo que os Espíritos nos sirvam para grande coisa, nem o que temos a ganhar com suas conversas.

   A. K. – Ainda que os Espíritos servissem apenas para ensinar-nos que há Espíritos, que os Espíritos são as almas dos homens, isso não seria de grande importância para todos aqueles que duvidam de que têm uma alma, e não sabem o que se tornarão após a morte?

   Como todas as ciências filosóficas, esta exige longos estudos e minuciosas observações; é então que se aprende a distinguir a verdade da impostura e os meios de afastar os Espíritos enganadores. Acima dessa turba de baixo nível, há os Espíritos superiores, que só visam o bem e têm por missão conduzir os homens pelo bom caminho; cabe a nós sabermos apreciá-los e compreendê-los. Esses nos ensinam grandes coisas; mas não creiais que o estudo dos outros seja inútil; para conhecer um povo, é preciso vê-lo sob todas as suas faces.

   Disso vós mesmos sois a prova; pensáveis que bastava aos Espíritos deixar seu envoltório corporal para se livrar de suas imperfeições; ora, foram as comunicações com eles que nos ensinaram o contrário e nos mostraram o verdadeiro estado do mundo espiritual, que nos interessa a todos no mais alto grau, pois todos devemos nele entrar. Quanto aos erros que podem surgir da divergência de opiniões entre os Espíritos, eles desaparecem por si mesmos, à medida que se aprende a distinguir os bons dos maus, os instruídos dos ignorantes, os sinceros dos hipócritas, exatamente como entre nós; então o bom senso faz justiça às falsas doutrinas.

   O Visitante. – Minha observação subsiste sempre do ponto de vista das questões científicas e outras que se pode submeter aos Espíritos. A divergência de suas opiniões sobre as teorias que dividem os cientistas nos deixa na incerteza. Compreendo que, não estando todos instruídos no mesmo grau, eles não podem tudo saber; então, que peso pode ter para nós a opinião daqueles que sabem, se não podemos verificar quem está em erro ou com a razão? Tanto vale dirigir-se aos homens quanto aos Espíritos.

   A. K. – Essa reflexão é ainda uma consequência da ignorância do verdadeiro caráter do Espiritismo. Aquele que acredita encontrar nele um meio fácil de tudo saber, de tudo descobrir, está em um grande erro. Os Espíritos não são encarregados de vir nos trazer a ciência pronta; seria de fato muito cômodo se tivéssemos apenas que pedir para sermos servidos, e poupar-nos assim do trabalho de pesquisar. Deus quer que trabalhemos, que nosso pensamento se exercite: só adquirimos a ciência a este preço; os Espíritos não vêm nos liberar dessa necessidade; eles são o que são; o Espiritismo tem por objeto estudá-los, a fim de saber por analogia o que seremos um dia, e não para nos dar a conhecer o que deve ficar oculto, ou nos revelar as coisas antes do tempo.

   Os Espíritos também não são adivinhos, e quem quer que se gabe de obter deles certos segredos, prepara para si mesmo estranhas decepções da parte dos Espíritos zombeteiros; em uma palavra, o Espiritismo é uma ciência de observação e não uma ciência de adivinhação ou de especulação. Nós o estudamos para conhecer o estado das individualidades do mundo invisível, as relações que existem entre elas e nós, sua ação oculta sobre o mundo visível, e não pela utilidade material que dele podemos tirar. Sob esse ponto de vista, não há nenhum Espírito cujo estudo seja inútil; com todos aprendemos alguma coisa; suas imperfeições, seus defeitos, sua insuficiência, sua ignorância mesma são tantos assuntos de observação que nos iniciam no conhecimento da natureza íntima do mundo espírita; ademais, quando não são eles que nos instruem por seus ensinamentos, somos nós que nos instruímos estudando-os, como o fazemos quando observamos os costumes de um povo que não conhecemos.

   Quanto aos Espíritos esclarecidos, eles nos ensinam muito, mas no limite das coisas possíveis, e não devemos pedir-lhes o que não podem ou não devem nos revelar; devemos contentar-nos com o que eles nos dizem; querer ir além é se expor às mistificações dos Espíritos levianos, sempre prontos a tudo responder. A experiência nos ensina a julgar o grau de confiança que podemos ter neles.


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