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O que é o Espiritismo? » Capítulo I - Pequena conferência Espírita » Segundo diálogo - O céptico » Médiuns interesseiros

MÉDIUNS INTERESSEIROS

 

   O Visitante. – Antes de se entregar a um estudo de longo fôlego, algumas pessoas gostariam de ter a certeza de não perder seu tempo, certeza que um fato concludente lhes daria, ainda que fosse obtido à custa de dinheiro.

   A. K. – Aquele que não quer se dar ao trabalho de estudar, tem mais curiosidade do que real desejo de se instruir; ora, assim como eu, os Espíritos não gostam dos curiosos. Aliás, a cupidez lhes é especialmente antipática, e eles não se prestam a nada que possa satisfazê-la; seria ter sobre eles uma ideia muito falsa acreditar que Espíritos superiores, como Fénelon, Bossuet, Pascal, Santo Agostinho, por exemplo, se coloquem às ordens de quem quer que seja a tanto por hora. Não, senhor, as comunicações de além-túmulo são uma coisa muito grave, que exige muito respeito, para servir de exibição.

   Aliás, sabemos, que os fenômenos espíritas não funcionam como rodas de um mecanismo, pois dependem da vontade dos Espíritos; mesmo admitindo a aptidão medianímica, ninguém pode garantir que os obterá em determinado momento. Se os incrédulos são propensos a suspeitar da boa-fé dos médiuns em geral, seria ainda pior se houvesse neles um estimulante de ganho; poderíamos, com razão, suspeitar que o médium remunerado desse um empurrãozinho quando o Espírito não se manifestasse, porque ele precisaria, antes de tudo, ganhar seu dinheiro. Além de ser o desinteresse absoluto a melhor garantia de sinceridade, repugnaria à razão fazer vir à custa de dinheiro os Espíritos das pessoas que nos são caras, supondo que eles consentissem, o que é mais do que duvidoso; em todos os casos, só viriam Espíritos de baixo nível, pouco escrupulosos quanto aos meios, e que não mereceriam nenhuma confiança; e mesmo estes, muitas vezes sentem um prazer malicioso em frustrar as combinações e os cálculos de seu guia.

   A natureza da faculdade medianímica se opõe, portanto, a que ela se torne uma profissão, pois depende de uma vontade estranha ao médium e que lhe pode faltar no momento em que precisaria dela, a menos que ele a supra ardilosamente. Porém, mesmo admitindo total boa fé, considerando-se que os fenômenos não são obtidos à vontade, seria um efeito da sorte se na sessão paga se produzisse precisamente o que se desejaria ver para se convencer. Daríeis cem mil francos a um médium, mas não o faríeis obter dos Espíritos o que eles não querem fazer; esse atrativo, que desnatura a intenção e a transforma em um violento desejo de lucro seria, ao contrário, um motivo para que não o obtivesse. Quando se está bem compenetrado dessa verdade: que a afeição e a simpatia são os mais poderosos meios de atração para os Espíritos, compreender-se-á que eles não podem ser solicitados pelo pensamento de servir-se deles para ganhar dinheiro.

   Aquele que precisa de fatos para se convencer, deve provar aos Espíritos sua boa vontade por uma observação séria e paciente, se quiser ser secundado por eles; mas, se é verdade que a fé não se impõe, também o é que não se pode comprá-la.

   O Visitante. – Compreendo seu raciocínio do ponto de vista moral; no entanto, não é justo que alguém que doa seu tempo no interesse da causa, seja indenizado, se isso o impede de trabalhar para viver?

   A. K. – Em primeiro lugar, é no interesse da causa que ele o faz, ou no seu próprio? Se ele abandonou seu metiê, é porque não estava satisfeito com ele e esperava ganhar mais, ou ter menos trabalho em sua nova ocupação. Não há nenhum devotamento em doar seu tempo quando se busca obter lucro. É exatamente como se disséssemos que é no interesse da humanidade que o padeiro faz o pão. A mediunidade não é o único recurso; sem ela, os médiuns seriam obrigados a ganhar a vida de outra maneira. Os médiuns verdadeiramente sérios e devotados, quando não possuem renda que os tornem independentes, buscam os meios de viver no trabalho ordinário e não abandonam suas profissões; eles consagram à mediunidade apenas o tempo que podem dispor sem prejuízo; se o tomam de seus lazeres ou de seu repouso, é isso devotamento, virtude pela qual são mais estimados e respeitados.

   Ademais, a multiplicidade de médiuns nas famílias torna os médiuns profissionais inúteis, mesmo supondo que estes oferecessem todas as garantias desejáveis, o que é muito raro. Sem o descrédito que se associou a esse tipo de exploração, para o qual me felicito por ter imensamente contribuído, teríamos visto uma proliferação de médiuns mercenários e os jornais se cobririam com seus anúncios; ora, para um que poderia ser leal, haveria cem charlatães que, abusando de uma faculdade real ou simulada, teriam causado o maior dano ao Espiritismo. É, pois, por princípio, que todos aqueles que veem no Espiritismo algo mais do que uma exibição de fenômenos curiosos, que compreendem e têm no coração a dignidade, a consideração e os verdadeiros interesses da doutrina, reprovam toda espécie de especulação, sob qualquer forma ou disfarce que se apresente.

   Os médiuns sérios e sinceros, e chamo assim aqueles que compreendem a santidade do mandato que Deus lhes confiou, evitam até mesmo as aparências do que poderia fazer pairar sobre eles a menor suspeita de cupidez; a acusação de tirar um proveito qualquer de sua faculdade, seria vista por eles como uma injúria.

   Admiti, senhor, por mais incrédulo que sejais, que um médium nessas condições vos causaria uma impressão totalmente diferente da que sentiríeis se tivésseis pago seu lugar para vê-lo operar, ou, mesmo que tivésseis conseguido uma entrada gratuita, se soubésseis que há uma questão de dinheiro por trás de tudo isso; convinde que, ao ver o primeiro animado por um verdadeiro sentimento religioso, estimulado unicamente pela fé, e não pelo atrativo do ganho, involuntariamente ele imporia seu respeito, mesmo sendo o mais humilde proletário, e vos inspiraria mais confiança, porque não teríeis nenhum motivo para suspeitar de sua lealdade. Pois bem! Senhor, encontrareis mil como este para um, e esta é uma das causas que contribuiu poderosamente para o crédito e a propagação da doutrina, enquanto que se ela tivesse apenas intérpretes interesseiros, não teria nem um quarto dos adeptos que tem hoje.

   É bem compreensível que os médiuns profissionais sejam extremamente raros, pelo menos na França; que sejam desconhecidos na maioria dos centros espíritas da província, onde a reputação de mercenários bastaria para excluí-los de todos os grupos sérios, e onde, para eles, tal profissão não seria lucrativa, devido ao descrédito que sofreriam e à concorrência dos médiuns desinteressados que se encontram em toda parte.

   Para suprir, seja a faculdade que lhes falta, seja a insuficiência da clientela, há supostos médiuns que ganham, lendo cartas, a clara de ovo, a borra de café, etc., a fim de satisfazer todos os gostos, esperando por este meio, na falta de Espíritos, atrair aqueles que ainda acreditam nessas tolices. Se eles fizessem mal apenas a si mesmos, o mal seria pouco; mas há pessoas que, sem ir muito a fundo, confundem o abuso com a realidade, e então os mal-intencionados aproveitam para dizer que é nisso que consiste o Espiritismo. Vede, pois, senhor, que a exploração da mediunidade, que leva a abusos prejudiciais à doutrina, faz com que o Espiritismo sério a desaprove e repudie seu auxílio.

   O Visitante. – Tudo isso é muito lógico, eu concordo, mas como os médiuns desinteressados não estão à disposição de qualquer pessoa, não nos permitimos incomodá-los, enquanto não temos escrúpulos de buscar aquele que cobra, porque sabemos que não o fazemos perder seu tempo. Se houvesse médiuns públicos, seria uma facilidade para as pessoas que querem convencer-se.

   A. K. – Todavia, se os médiuns públicos, como os chamais, não oferecem as garantias desejadas, que utilidade podem ter para a convicção? O inconveniente que mencionais não elimina os outros, muito mais graves, que já vos expliquei. As pessoas iriam a eles mais por diversão, ou para ouvir a boa sorte do que para se instruírem. Aquele que deseja seriamente se convencer encontrará os meios, mais cedo ou mais tarde, se tiver perseverança e boa vontade; mas não é por ter assistido a uma sessão que ficará convencido, se não estiver preparado para isso. Se sair com uma impressão desfavorável, estará menos convencido ao sair do que ao entrar, e talvez fique desgostoso de continuar um estudo onde nada terá visto de sério; é o que prova a experiência.

   Mas, ao lado das considerações morais, o progresso da ciência espírita nos mostra hoje uma dificuldade material, da qual não suspeitávamos no início, fazendo-nos conhecer melhor as condições em que se produzem as manifestações. Essa dificuldade diz respeito às afinidades fluídicas que devem existir entre o Espírito evocado e o médium.

   Deixo de lado qualquer pensamento de fraude e de embuste, e suponho uma total lealdade. Para que um médium profissional possa oferecer total segurança às pessoas que o consultam, ele precisaria possuir uma faculdade permanente e universal, ou seja, que pudesse obter comunicações facilmente de qualquer Espírito e em qualquer momento, para estar constantemente à disposição do público, como um médico, e satisfazer a todas as evocações que lhe fossem solicitadas; ora, isso não existe em nenhum médium, nem nos desinteressados muito menos nos outros. Isso se deve a causas independentes da vontade do Espírito, mas que não posso desenvolver aqui, porque não estou ministrando um curso de Espiritismo. Limito-me a dizer que as afinidades fluídicas, que são o princípio mesmo das faculdades medianímicas, são individuais e não gerais; que elas podem existir entre o médium e tal Espírito, e não com tal outro; que sem essas afinidades, cujas nuances são muito variadas, as comunicações são incompletas, falsas ou impossíveis; que, na maioria das vezes, a assimilação fluídica entre o Espírito e o médium só se estabelece com o tempo, e somente uma vez em dez acontece que ela seja completa desde a primeira vez. Como vedes, senhor, a mediunidade está subordinada a leis de certa forma orgânicas, às quais todo médium está sujeito; ora, não se pode negar que esse é um obstáculo para a mediunidade de profissão, pois a possibilidade e a exatidão das comunicações dependem de causas independentes do médium e do Espírito. (Ver adiante cap. II, parágrafo dos médiuns).

   Portanto, se recusamos a exploração da mediunidade, não é por capricho nem por espírito de sistema, mas porque os próprios princípios que regem as relações com o mundo invisível se opõem à regularidade e à precisão necessárias para quem se coloca à disposição do público, e porque o desejo de satisfazer uma clientela pagante leva ao abuso. Não concluo com isso que todos os médiuns que cobram são charlatães, mas digo que o atrativo do ganho impele ao charlatanismo e autoriza a suspeita de fraude, quando não a justifica. Aquele que quer se convencer deve, antes de tudo, buscar os elementos de sinceridade.


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