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O que é o Espiritismo? » Capítulo I - Pequena conferência Espírita » Segundo diálogo - O céptico » O maravilhoso e o sobrenatural

O MARAVILHOSO E O SOBRENATURAL

 

   O Visitante. – O Espiritismo tende, evidentemente, a fazer ressuscitar as crenças fundadas sobre o maravilhoso e o sobrenatural; ora, em nosso século positivo, isso me parece difícil, pois é dar crédito às superstições, aos erros populares que a razão desaprova.

   A. K. – Uma ideia é supersticiosa apenas porque é falsa; ela deixa de sê-lo quando é reconhecida como verdadeira. A questão é, pois, saber se há, ou não, manifestações de Espíritos; ora, não podeis taxar a coisa de superstição enquanto não houverdes provado que ela não existe. Direis: minha razão as recusa; mas todos aqueles que nelas creem, e que não são tolos, também invocam sua razão, e principalmente os fatos; qual das duas razões deve prevalecer? O grande juiz aqui é o futuro, como o foi em todas as questões científicas e industriais taxadas de absurdas e impossíveis em sua origem. Julgais a priori, de acordo com a vossa opinião, nós não julgamos senão após termos visto e observado durante muito tempo. Acrescentamos que o Espiritismo esclarecido, como o é hoje, tende, ao contrário, a destruir as ideias supersticiosas porque mostra o que há de verdadeiro ou de falso nas crenças populares, e tudo o que a ignorância e os preconceitos nelas introduziram de absurdo.

   Vou mais longe e digo que é precisamente o positivismo do nosso século que faz com que se adote o Espiritismo, e é a ele que, em parte, deve a sua rápida propagação e não, como o pretendem alguns, a uma recrudescência do amor ao maravilhoso e ao sobrenatural. O sobrenatural desaparece diante do facho da ciência, da filosofia e da razão, como os deuses do paganismo desapareceram diante da luz do cristianismo.

   Sobrenatural é o que está fora das leis da natureza. O positivismo nada admite fora dessas leis; mas ele as conhece todas? Em todos os tempos, os fenômenos cuja causa era desconhecida foram reputados sobrenaturais; cada nova lei descoberta pela ciência recuou os limites do sobrenatural; pois bem, o Espiritismo vem revelar uma nova lei, segundo a qual a conversação com o Espírito de um morto repousa sobre uma lei tão natural quanto aquela que a eletricidade permite estabelecer entre dois indivíduos que se encontram a quinhentas léguas de distância; assim é com todos os outros fenômenos espíritas. O Espiritismo repudia, no que lhe concerne, todo efeito maravilhoso, isto é, fora das leis naturais; ele não faz nem milagres, nem prodígios, mas explica, em virtude de uma lei, certos efeitos reputados até hoje como milagres e prodígios, e com isso demonstra sua possibilidade. Ele amplia assim o domínio da ciência e, por isso mesmo, é ele próprio uma ciência; ademais, a descoberta dessa nova lei, conduzindo a consequências morais, o código de tais consequências faz dele, ao mesmo tempo, uma doutrina filosófica.

   Sob este último ponto de vista, ele responde às aspirações do homem no que toca ao futuro; como ele apoia sua teoria sobre bases positivas e racionais, ele convém, por isso mesmo, ao espírito positivo do século; é o que compreendereis quando vos derdes ao trabalho de estudá-lo. (O Livro dos Médiuns, cap. II; Revista Espírita, dezembro de 1861, p. 393, e janeiro de 1862, p. 21. Ver também, mais adiante, o capítulo II).


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