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O Livro dos Espíritos » Parte Quarta - Das esperanças e consolações » Capítulo II - Das penas e gozos futuros » Paraíso, inferno e purgatório

Paraíso, inferno e purgatório

 

1012. Existe um lugar circunscrito no Universo que seja destinado às penas e aos gozos dos Espíritos, segundo seus méritos?[1]

– “Nós já respondemos a essa questão. As penas e os gozos são inerentes ao grau de perfeição dos Espíritos; cada um haure em si mesmo o princípio de sua própria felicidade ou de sua desgraça; e, como eles estão por toda parte, nenhum lugar circunscrito ou fechado é destinado a um de preferência a outro. Quanto aos Espíritos encarnados, eles são mais ou menos felizes ou desgraçados, conforme seja mais ou menos avançado o mundo que habitam.”

— Se assim é, então o inferno e o paraíso não existem tais como o homem os imaginam.

– “São apenas alegorias: por toda parte há Espíritos felizes ou desgraçados. No entanto, como também o dissemos, os Espíritos da mesma ordem se reúnem por simpatia; mas eles podem se reunir onde queiram quando são perfeitos.”

A localização absoluta dos lugares de penas e de recompensas só existe na imaginação do homem; ela provém de sua tendência a materializar e a circunscrever as coisas cuja essência infinita não pode compreender.

1013. Que se deve entender pelo purgatório?

“Dores físicas e morais: é o tempo da expiação. Vosso purgatório é quase sempre na Terra, onde Deus vos faz expiar vossas faltas.”

O que o homem chama purgatório é também uma alegoria pela qual se deve entender, não um lugar determinado, mas o estado dos Espíritos imperfeitos que estão em expiação até à sua completa purificação que os elevará à posição dos Espíritos bem-aventurados. Como tal purificação se realiza nas diversas encarnações, o purgatório consiste nas provas da vida corporal.

1014. Como se explica que Espíritos, cuja superioridade é revelada por sua linguagem, tenham respondido a pessoas muito sérias, a respeito do inferno e do purgatório, conforme a ideia vulgar que se tem deles?

“Eles falam uma linguagem que possa ser compreendida pelas pessoas que os interrogam; quando tais pessoas estão muito imbuídas de certas ideias, eles não querem chocá-las muito bruscamente para não ferir suas convicções. Se um Espírito dissesse, sem precauções oratórias, a um muçulmano que Maomé não é um profeta, seria muito mal recebido.”

— Concebe-se que assim possa ser da parte dos Espíritos que querem nos instruir; mas como se explica que Espíritos interrogados sobre sua situação tenham respondido que sofriam as torturas do inferno ou do purgatório?

“Quando são inferiores e não completamente desmaterializados, os Espíritos conservam uma parte de suas ideias terrestres, e exprimem suas impressões pelos termos que lhes são familiares. Eles se encontram num meio que não lhes permite sondar o futuro senão em parte; eis por que Espíritos errantes, ou recém desencarnados, falam quase sempre como teriam falado quando vivos. Inferno pode traduzir-se por uma vida de prova extremamente penosa, com a incerteza de uma melhor; purgatório, uma vida também de prova, mas com a consciência de um futuro melhor. Quando experimentas uma grande dor, não dizes que sofres como um danado? São apenas palavras, e sempre em sentido figurado.”

1015. Que se deve entender por uma alma a penar?

“Uma alma errante e sofredora, incerta de seu futuro, à qual podeis proporcionar um alívio, que muitas vezes ela solicita vindo comunicar-se convosco.” (664)

1016. Em que sentido deve ser entendida a palavra céu?

“Crês que seja um lugar, como os Campos Elísios dos antigos, onde todos os bons Espíritos estão confusamente aglomerados, preocupados unicamente em gozar eternamente de uma felicidade passiva? Não; é o espaço universal; são os planetas, as estrelas e todos os mundos superiores onde os Espíritos gozam de todas as suas faculdades, sem as tribulações da vida material, nem as angústias inerentes à inferioridade.”

1017. Alguns Espíritos disseram habitar o quarto, o quinto céu, etc.; o que entendiam ao dizer isso?

“Perguntais-lhes que céu eles habitam, porque tendes a ideia de vários céus sobrepostos como os andares de uma casa; então, eles vos respondem conforme vossa linguagem; para eles, porém, as palavras quarto e quinto céu exprimem diferentes graus de depuração e, por conseguinte, de felicidade. É exatamente como quando se pergunta a um Espírito se ele está no inferno; se ele for desgraçado, dirá sim, pois para ele inferno é sinônimo de sofrimento; mas ele sabe muito bem que não é uma fornalha. Um pagão diria estar no rtaro.”

O mesmo se dá com outras expressões análogas, tais como cidade das flores, cidade dos eleitos, primeira, segunda ou terceira esfera, etc., que são apenas alegorias empregadas por certos Espíritos, seja como figuras, seja algumas vezes por ignorarem a realidade das coisas e mesmo as mais simples noções científicas.

Segundo a ideia restrita que se fazia outrora dos lugares de penas e de recompensas,  sobretudo com base na opinião de que a Terra era o centro do Universo, que o céu formava uma abóbada e que havia uma região das estrelas, colocava-se o céu no alto e o inferno embaixo; daí as expressões: subir ao céu, estar no mais alto dos céus, ser precipitado nos infernos. Hoje que a ciência demonstrou que a Terra é um dos menores mundos entre tantos milhões de outros, sem importância especial; que traçou a história de sua formação e descreveu sua constituição, provou ser infinito o espaço e que não há nem alto nem baixo no Universo, foi preciso renunciar a situar o céu acima das nuvens e o inferno nos lugares inferiores. Quanto ao purgatório, nenhum lugar lhe havia sido designado. Estava reservado ao Espiritismo dar sobre todas essas coisas a explicação mais racional, a mais grandiosa, e ao mesmo tempo a mais consoladora para a humanidade. Assim, pode-se dizer que trazemos em nós mesmos o nosso inferno e o nosso paraíso; nosso purgatório, nós o encontramos em nossa encarnação, em nossas vidas corporais ou físicas.

1018. Em que sentido devem ser entendidas estas palavras do Cristo: Meu reino não é deste mundo?

“Respondendo assim, o Cristo falava em sentido figurado. Ele queria dizer que reina unicamente sobre os corações puros e desinteressados. Ele está onde quer que predomine o amor do bem; mas os homens ávidos das coisas deste mundo e apegados aos bens da Terra não estão com ele.”

1019. O reino do bem poderá estabelecer-se na Terra algum dia?

“O bem reinará na Terra quando, entre os Espíritos que vêm habitá-la, os bons preponderarem sobre os maus; então, eles farão com que aí reine o amor e a justiça que são a fonte do bem e da felicidade. É pelo progresso moral e pela prática das leis de Deus que o homem atrairá para a Terra os bons Espíritos, e dela afastará os maus; estes, porém, não a deixarão senão quando daí estiverem banidos o orgulho e o egoísmo.

“A transformação da humanidade foi predita, e vós tocais esse momento que é acelerado por todos os homens que contribuem para o progresso; ela se realizará pela encarnação de Espíritos melhores que constituirão uma nova geração na Terra. Então, os Espíritos dos maus, ceifados dia a dia pela morte, e todos aqueles que tentam deter a marcha das coisas, dela serão excluídos, porque estariam deslocados entre os homens de bem, cuja felicidade perturbariam. Irão para mundos novos, menos avançados, cumprir missões penosas onde poderão trabalhar para seu próprio adiantamento, ao mesmo tempo que trabalharão pelo de seus irmãos ainda mais atrasados. Nesta exclusão de Espíritos da Terra transformada, não vedes a sublime alegoria do paraíso perdido? Não vedes na vinda do homem para a Terra em semelhantes condições, trazendo em si o germe de suas paixões e os traços de sua inferioridade primitiva, a alegoria não menos sublime do pecado original? Considerado sob esse ponto de vista, o pecado original diz respeito à natureza ainda imperfeita do homem que, assim, é responsável apenas por si mesmo e por suas próprias faltas, e não pelas de seus pais.

Todos vós, homens de fé e de boa vontade, trabalhai, portanto, com zelo e coragem na grande obra da regeneração, pois colhereis centuplicado o grão que houverdes semeado. Ai daqueles que fecham os olhos à luz, porque preparam para si mesmos longos séculos de trevas e de decepções; ai daqueles que fazem dos bens deste mundo a fonte de todas as suas alegrias, pois suportarão mais privações do que os gozos que obtiveram; ai sobretudo dos egoístas, porque não encontrarão quem os ajude a carregar o fardo de suas misérias.”

SÃO LUÍS

 

[1] Nota-se aqui um lapso na sequência da numeração dos itens, pois o Sr. Allan Kardec saltou do nº 1010 para o 1012. Como nas edições subsequentes não foi feito o ajuste, optamos por seguir a mesma ordem, a fim de evitar confusão.


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